logo
rss  Vol. XIII - Nº 234         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 01 de Junho de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContacto arrowÚltima hora arrowClima
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Palavras e ideias

Duarte M. Miranda

Por Duarte M. Miranda*

Colaboração especial

PIGS... Foi este o acrónimo "pejorativo" que certos "especialistas" das áreas financeira e económica acharam para descrever "o clube" a que pertencem, segundo eles, os países da Europa cujas economias nacionais têm vindo a debilitar-se de maneira preocupante e, certamente, mais rapidamente e de forma mais importante do que as dos outros países da União: Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain). Ulteriormente, a Irlanda juntou-se ao grupo e o "apelido" mudou para o PIIGS que ainda hoje é utilizado por alguns especialistas mais sarcásticos. Recordo-me que em Toronto, quando lá vivi, chocava-me sempre que ouvia alguém referir-se a nós, os Portugueses, como os "Porkys". A expressão também é utilizada por algumas pessoas aqui no Quebeque, mas, segundo me parece, muito mais raramente. Por isso, não posso deixar de fazer uma certa correlação entre as duas situações: os "PIIGS" a que pertencemos lá na União Europeia e os "Porkys" como nos chamam alguns por estas bandas. Mas, na verdade, não é especificamente sobre estas situações mesquinhas que eu desejo ocupar o espaço desta minha crónica. Digamos que me servem de anedotas, já que quero mais opinar sobre algumas das circunstâncias que levaram Portugal a merecer a posição de pólo no clube dos tais PIIGS, e de certas das consequências a que vimos assistindo.

pigs

Nossa Senhora de Fátima teria dito aos Pastorinhos durante uma das suas aparições "Pobre Rússia!" Se voltasse hoje, proclamaria, sem dúvida, "Pobre Portugal!" Onde nos metemos nestes últimos quase 25 anos, desde que aderimos, em 1 de Janeiro de 1986, à então CEE (Comunidade Económica Europeia)? Como estragamos a oportunidade que nos foi dada de tirar o nosso país, de forma permanente, das trevas socioeconómicas a que estávamos acostumados, sobretudo depois do isolamento que sofremos durante a nossa história salazarista? Os milhares de milhões que nos foram proporcionados pelos países ricos da Europa durante todos esses anos pouco deixaram nos seus rastros. Basta ver os debates que hoje ocupam a vida quotidiana dos Portugueses para constatar que, na realidade, nas últimas duas décadas se construíram sobretudo castelos de areia e ecrãs de fumo. Digo bem, sobretudo, porque temos também histórias de grandes sucessos e realizações por um certo número de Portugueses e Portuguesas de grande visão. Tais sucessos encontramo-los nas áreas da ciência, particularmente na medicina, da energia, da informática, etc. Mas força é de admitir que poucos recursos foram utilizados no país nas últimas décadas, para transformar Portugal num dos pólos mundiais principais em qualquer área que seja. Os nossos sucessos de calibre mundial, bem que muito reais e valiosos, são pouco numerosos e são mais o fruto da tenacidade e dos esforços de gente excepcional e determinada, do que de qualquer estratégia socioeconómica dos sucessivos governos de Lisboa, ao longo destes quase 25 anos.

Verdade que a nossa gente, nossos conterrâneos, já não tem de andar de pé descalço, como era o caso antigamente para tantos, mas tiraram-lhes a muitos e muitos deles a liberdade, a autonomia e o orgulho pessoais que sempre lhes permitiam de encontrar a solução honrosa para os seus problemas e suas inquietações quotidianos. Hoje a gasolina substitui em muitos lares o pão passado que antigamente enchia muitas barrigas com fome, por causa do status social que faz parte das novas preocupações da nossa gente, uma herança do vazio socioeconómico criado durante estas últimas décadas.

Quando eu regresso aos Açores, por exemplo, fico espantado em constatar que o tal desenvolvimento sustentável de que tanto se fala mundo afora - e por lá com ares de grandeza ainda por cima - lá traduz-se (traduziu-se!) pela capacidade em gastar fundos recebidos de fora - "o dinheiro dos outros!" - para o que eu chamo de criação de estradas e rotundas. Ainda hoje se constrói uma tal de SCUT, com viadutos aéreos dos mais impressionantes - "primeiro-mundistas" -, mas que pouco desenvolvimento económico vai levar às freguesias e aldeias por onde passa. Aliás, pelo que eu pude ver em imagens que andam a circular pela internet, nem os ranchos de gado vão sentir qualquer prazer em atravessar tais "vias aéreas" sobretudo em dias de grandes ventos. Mas, como diziam, "Era para aproximar as pessoas..." E assim, para merecerem o tal dinheiro dos outros, abdicaram, facilmente, diante das pressões e exigências vindas de Bruxelas e Lisboa que acabaram com o que tínhamos de fundo agrícola. Aliás, feriram mortalmente grande parte da agropecuária açoriana. Diz o velho provérbio chinês, "Se um homem tem fome não lhe dê um peixe, ensine-o a pescar." Assim, nos Açores, em vez de arrancarem os homens do campo às suas terras, e as suas terras a eles, para levá-los às miragens da construção civil, porque não lhes ensinaram melhores técnicas de produção agrícola, por exemplo. Não é verdade que qualquer produção agrícola açoriana pudesse trazer qualquer prejuízo que fosse aos grandes produtores da União Europeia. E que dizer do turismo? Não são nem as estradas, nem as rotundas, feitas, desmanchadas e refeitas, que vão ajudar a criar nos Açores uma indústria turística sustentável, de alto nível e produtiva. O tempo passou e, pelo visto, o dinheiro dos outros já vai faltando e não vai poder ajudar a recuperar a economia dos efeitos dessa miopia que perdurou tantos e tantos anos.

No Continente as coisas não são melhores. Desapareceram quaisquer ganhos de produtividade que parecíamos ter alcançado sobretudo na década de 1990. As grandes indústrias fugiram: têxteis; automóveis; calçado; etc. Pois é, a culpa seria dos Chineses que deram cabo de muitas indústrias em vários países... Mas, como sabemos, não é bem assim e as culpas são bem portuguesas também! Na minha última visita a Lisboa, há pouco mais de um mês, fiquei de boca-aberta ao interpretar as imagens com as quais me deparei na Avenida da Liberdade, por exemplo. Antigamente um marco de tudo o que havia de melhor e funcionava bem em Portugal, é hoje território ocupado por um varejo de baixíssima qualidade, com lojas fechadas ou ocupadas por casas vendendo roupa de má qualidade, importada da China, e que se vende por quase nada. Sobram, porém, algumas casas de luxo: joalharias; sapatarias; boutiques de roupas, masculinas e femininas, de alta-costura, de grandes nomes e marcas de costureiros famosos, mas estas são sobretudo frequentadas pelos novos-ricos e donos de Portugal, vindos sobretudo de Angola. Verdade!... ia esquecendo: a Avenida da Liberdade é agora também território sagrado dos "homens do euro", donos dos espaços diante das tais boutiques. Não, Portugal continental não está escapando a esta nova miséria colectiva e social que pouco a pouco, dia a dia, se está instalando no país inteiro. Lá também nossa gente nem sempre soube confiar o seu futuro e a sua busca do progresso nas mãos das pessoas adequadas.

Os políticos portugueses, muitos deles mal preparados, outros, ao que parece, movidos por outros interesses e preocupações pessoais, falharam ao seu dever. Esbanjaram montes e montes de dinheiro, dos Portugueses e dos outros, e deixaram a nossa gente na nova miséria. E eu nem falei de malandragens, de corrupção nem de outras pragas roedoras que estão fazendo com que, para muita gente, nem para a gasolina o dinheiro alcance.

 

* Conselheiro para a internacionalização da economia portuguesa no Canadá

Crónica
PIGS... Foi este o acrónimo "pejorativo" que certos "especialistas" das áreas financeira e económica acharam para descrever "o clube" a que pertencem, segundo eles, os países da Europa cujas economias nacionais têm vindo a debilitar-se de maneira preocupante...
Palavras e Ideias.doc
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020