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Vol. XIV - Nº 228 Montreal, QC, Canadá -
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O MEU CAMPEÃO DO MUNDO

Por Arlindo Vieira, colaboração especial

Tem o seis nas costas, mas não é um meia, como dizem os brasileiros, ele é um jogador inteiro. Pode ser baixinho, mas agigantou a Espanha e ficou com o mundo a seus pés. A partir de agora, sempre que se comece a falar da história do futebol espanhol, lá estará obrigatoriamente a gesta do Iniesta. É verdade que sem Iniesta não seria tamanha a festa, mas não seria justo realçar só o papel do herói do dia quando a Espanha se evidenciou sobretudo como colectivo. Um modelo de solidariedade, de coesão, de equipa, de convicção Tudo muito bem orquestrado. Ali ninguém faz banda à parte, só se segue a partitura e os chefes de orquestra que vão marcando o compasso e o andamento com a batuta do seu talento, sem batota. Com Xavi, Iniesta e Villa, não há chinfrim, há festa, há maravilha!

 

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E não venham cá dizer que aquela equipa não presta, com ou sem Iniesta. É claro que era uma vitória anunciada. E depois? Quando até o polvo sabia que a Espanha ia ganhar que mais se pode acrescentar? Que viva o po(l)vo, o dos tentáculos e o do "tiki-taka", o que sabe palpitar e o que sabe jogar!

Gosto quando o vencedor, vence, convence, encanta. Aprecio sobretudo a luta, o sacrifício, a vitória. Por isso gosto de heróis. Não tanto os efémeros, mas os verdadeiros. Como o enorme herói, a grande estrela que esteve no domingo em campo. Não o reconheceram? Não se lembram do número que costumava usar?

Tantos anos esteve o número 46 664 imprimido na sua camisola de prisioneiro que é impossível esquecê-lo. É verdade que o encosto da cadeira de rodas não deixava ver o número, mas ele lá estava, indelével, na figura dum dos heróis mais emblemáticos do último século. Na frágil figura de Nelson Mandela se resume toda a trajectória de rebeldia, luta, sacrifício e vitória que serviu para derrubar uma tirania, o mais abjecto de todos os sistemas políticos, aquele que divide os seus cidadãos pela cor da pele.

Esse sim foi um verdadeiro campeão. A sua entrada em campo, no passado domingo, fez vibrar o estádio, o seu povo, o mundo. Contrariamente aos homens do futebol, meras futilidades, estamos a falar de um homem que vai ficar para a eternidade. De um homem ávido de justiça que com a sua táctica habilidosa soube dar cabo do adversário, provocando a erosão, dia após dia, do sistema racista da África do Sul.. Foi um derby desigual entre um regime imoral e um simples cidadão posto na prisão durante 27 anos por lutar contra a humilhação. Venceu o prisioneiro 46 664.

Ele não foi mais que um precursor dos muitos que percebem e aplaudem o enorme potencial do desporto enquanto aglutinador de amizade e de paz entre os povos. Aos exemplos actuais, nomeadamente o do país organizador onde pretos, brancos, indianos e mestiços, pese embora as enormes cicatrizes do seu passado recente, foram capazes de se unir em torno dos seus Bafana Bafana ou o exemplo do país vencedor onde asturianos, galegos, bascos, catalães e castelhanos puseram de parte as suas divisões para se identificarem com a sua Furia Roja, poderíamos acrescentar muitos outros do passado, como os do tempo da Guerra-fria, para não falar da Grécia antiga, com as suas tréguas olímpicas.

Mandela, do seu cárcere na ilhota de Robben, já há muito que tivera a intuição do poder integrador do desporto. À sua cela de isolamento chegavam notícias dos jogos que disputavam presos políticos da prisão. Competições que serviam para manter a coesão dos reclusos, alimentar a esperança no meio das condições mais atrozes. Nunca esqueceu a lição.

"O desporto é mais potente que os governos na hora de romper as barreiras sociais", disse Mandela. Aprendeu-o na prisão e proclamou-o depois. Mesmo que o râguebi fosse considerado um desporto de brancos, Mandela apoiou a disputa do Campeonato do Mundo da modalidade na África do Sul, em 1995, como um momento decisivo para unir o país.

Poucas imagens foram tão simbólicas e poderosas como as de Mandela envergando a camisola dos Springboks, nome por que é conhecida a selecção sul-africana de râguebi que nessa altura contava com apenas um único jogador não-branco. Naquele dia, na inauguração do Mundial de râguebi, o mundo e o seu país receberam uma formidável mensagem de união e de reconciliação através do desporto. Antes que a sua estrela empalideça de vez, Mandela, mesmo débil e afectado por uma recente tragédia familiar, quis voltar a ser aquele farol de lucidez e de serenidade de que o mundo tanto precisa. O primeiro Mundial de futebol disputado no continente africano ficou assim marcado pela mensagem de união e de esperança sintetizada neste grande Nobel da paz. A sua presença no Soccer City não foi meramente testemunhal. A figura de Mandela esteve lá para voltar a recordar-nos o melhor da condição humana. A ele ergo a minha taça. É ele o meu verdadeiro campeão.


Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor
LusoPresse - 2012

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