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Vol. XIV - Nº 228 Montreal, QC, Canadá -
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Na ilha Terceira

«Piché: entre céu e terra»

Jules Nadeau

Reportagem de Jules Nadeau

Um bom filme a ver para conhecer um homem fora do comum.

 

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Mesmo se não fosse só pelo facto que Robert Piché salvou da morte tantas vidas portuguesas, a comunidade devia obrigatoriamente conhecer este homem. É preciso ir ver este filme que conta a vida tumultuosa do célebre piloto por que é uma boa produção quebequense. Do princípio ao fim do filme nunca nos aborrecemos. Mas quando for ver «Piché: entre ciel et terre», se chora facilmente, leve consigo uma caixa de lenços. Muita emoção!

O filme do realizador Sylvain Archambault, que tem como vedetas o ator Michel Côté e o seu filho Maxime LeFlaguais, assim como Sophie Prégent, é antes de mais um retrato pormenorizado de Robert Piché, o aventureiro que passou através de várias provas: álcool, divórcios, droga, prisão. Não se trata dum retrato complacente, combinado com o tipo da câmara, mas um olhar franco, direto, quase destruidor. Acabamos por nos perguntar como é que o «homem» Piché foi capaz dum feito tão extraordinário quando comandava o Airbus de Air Transat em perigo de queda. Em plena noite, com 306 passageiros em perigo de morte.

 

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A prisão na Geórgia

Evidentemente que nós vimos o filme com um olho português por causa do grande número de passageiros de origem portuguesa neste charter Toronto-Lisboa e da aterragem forçada no Aeroporto das Lajes, na Terceira. Do nosso simples ponto de vista, podemo-nos perguntar porque é que não há cenas mais elaboradas do após salvamento em território português com as reações das pessoas em terra.

As cenas da prisão da Geórgia com as agressões sexuais pareceram-nos um pouco longas. Claro que a passagem do transporte da droga na Jamaica é um momento forte da biografia de Robert Piché. Mas nos dois casos, faz um bom cinema de ação. E está muito bem conseguido pois, naturalmente, o filme de Sylvain Archambault não é só destinado aos lusófonos.

 

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Sempre do nosso ponto de vista, o fim do filme com um Robert Piché rebelde aos comandos e centenas de passageiros assustados nos lugares, merece os melhores comentários. O realizador quis que houvesse verdadeiros Portugueses no ecrã e aliás ouve-se falar português. É fácil reconhecer Isabel dos Santos no filme. A ex-mulher política bem conhecida não se cansa de elogiar aquele a quem ela chama simplesmente Sylvain, um tipo «formidável, que compreendia, dava espaço e aceitava sugestões em muitas improvisações. Foi um ato de violência reunir tantas pessoas num avião. Dirigido por mão de mestre. Nada fácil com um pequeno orçamento», declarou a atriz profissional que gostou muito de participar nesta filmagem: «uma festa... para um filme bem feiro!».

«Prazer» sim, mas o fotógrafo Álvaro Pacheco confirma-nos que os 6-7 dias de filmagem, incluindo noites inteiras, representaram um trabalho duro. Os planos do fim no aparelho, filmados inteiramente em Dorval no mês de outubro, exigiam muita paciência da parte dos figurantes. E cobertores de lã para se protegerem do frio. Uma dezena de Portugueses participou 

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nos hangares da Air Transat. Alguns compatriotas entraram mesmo na União dos Artistas a fim de fazerem parte da figuração - com a esperança de participarem noutras filmagens no futuro. Resumindo, uma boa experiência.

Elsa Vilarinho

Depois do livro intitulado Robert Piché aux commandes du destin (Pierre Cayouette), o filme permite-nos descobrir Elsa Vilarinho no papel da hospedeira portuguesa do voo 236. Para ela também, a filmagem e o resultado final, merecem muitos parabéns. «Estou muito orgulhosa deste excelente filme quebequense sobre um homem que fez qualquer coisa de grandioso. Isto reúne a comunidade portuguesa. Uma boa troca cultural!». A jovem de 33 anos é dançarina profissional e faz também teatro, televisão e publicidade, ao mesmo tempo que trabalha numa agência de publicidade. Nascida na capital do Moscatel (Setúbal) dum pai do Porto e duma mãe do Alentejo, chegou aqui com a idade de quatro anos.

 

fotoFoto um - A tensão do desastre iminente. Foto dois - Aterrámos! Foto três - Estamos salvos! Foto quatro - A terapia. Foto cinco - Robert Piché entre pai e filho, afinal os dois actores que deram vida à sua vida.

Elsa Vilarinho abunda no sentido de Isabel dos Santos no que diz respeito à equipa técnica: «Muito respeitosos dos Portugueses. Muita confiança! Podíamos fazer correções ao cenário se as frases estavam mal estruturadas», explica ela ao LusoPresse ao telefone, acrescentando que «não gosta de ouvir as pessoas a falaram mal» quando falam uma língua estrangeira no cinema. Do lado das emoções, «as pessoas choram durante a projeção», confirma ela. Decerto porque a filmagem foi feita num avião verdadeiro de Air Transat com mais de 150 figurantes. Toda uma organização. Toda uma experiência para Elsa que gostaria de a repetir noutras superproduções do género.

Numa entrevista recente a Radio-Canada, Robert Piché (que continua a ser empregado de Air Transat) elogiou o trabalho da equipa de bordo do 24 de agosto de 2001, incluindo o do bravo copiloto que lhe fez confiança. O «herói nacional» não se sente demasiado maltratado pelas passagens negras da sua vida tumultuosa: os seus velhos demónios! «Era mais fácil controlar um avião a 40 000 pés nos ares com 300 pessoas a bordo que controlar a sua vida?», perguntaram-lhe.

O Comandante Piché espera que o filme lhe permita «virar a página sobre o seu 236». «Desde há nove anos que toda a gente me fala do voo 236. Experimento falar de outra coisa, mas não é interessante!», afirma, depois de ter dado muitas e muitas entrevistas e conferências. Mesmo ao LusoPresse!


Acordo Ortográfico

Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade  de referir noutro local.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.
 
Carlos de Jesus
Diretor
LusoPresse - 2012

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