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| Vol. XIV - Nº 228 | Montreal, QC, Canadá - | ||||||
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EditorialLonga ausênciaPor Carlos de JesusProvavelmente que escapou a alguns a informação no rodapé do meu último editorial - do dia 15 de Abril - no qual informava os leitores de que iria estar ausente destas páginas durante várias semanas, em razão de partir em viagem pela Europa. Realmente foi uma grande ausência - quase três meses longe do contacto com os leitores. Mas daí a haver quem levantasse a hipótese de eu me ter zangado com o nosso editor e chefe de redação, senhor Norberto Aguiar, a ponto de ter abandonado o LusoPresse, é uma conclusão apressada e de má-fé, sobretudo quando a põem a circular como de fonte certa. É o género de boato em que é rica a «fina-flor do entulho» desta comunidade. Mas, mais grave do que este, é o boato de que acaba de ser vítima o nosso colaborador Duarte Miranda, dando a entender que tem um negro (1) a escrever por ele - ler a sua crónica neste número «Vamos à bola!». Como é possível? É realmente lamentável que grasse entre nós a coscuvilhice, a maledicência, a boateira - por inveja ou estupidez - como uma nódoa de azeite ranço que nos causa ânsias. Como veem o boato é falso, pois aqui estou eu de novo. Para concluir esta entrada na matéria, apenas uma referência ao provérbio árabe «Os cães ladram, mas a caravana passa». Sim, andei por aquela velha Europa, particularmente a do Sul, de Portugal à Grécia, com passagem pela Espanha, França, Itália e Croácia. Facilidades que os cruzeiros democratizados nos proporcionam nos dias de hoje. Em Portugal estive pouco mais de um mês, com o cruzeiro de permeio. Acabaram por ser férias a mais. No fim já me cansava. Os convites para visitar amigos e familiares levaram-me a calcorrear meio Portugal. Por todo o lado me falavam da crise. Crise a todos os níveis. Da política ao económico, das instituições à corrupção. Mas também crise dos espíritos. Até os psiquiatras lançam alarmes públicos. «Através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, [ficamos a saber] que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida» - escreve num apelo patético às autoridades, o médico psiquiatra Pedro Afonso, no jornal o Público do dia 21 de junho, onde conclui com esta confissão: «Hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente». E, no entanto, no entanto... por tudo quanto era sítio por onde andei naquela santa terrinha, nunca vi um parque automóvel tão novo e tão bem fornecido. As autoestradas, apesar das portagens elevadas, até engarrafamentos tinham, os centros comerciais estavam cheios, idem para os restaurantes. Penso que o mesmo se verifica com os estádios de futebol, mas aí não meti o pé. Afinal onde é que está a crise? A crise deve estar na cabeça daquela gente que passou, no espaço de uma geração, de proletários e rurais a urbanos superconsumidores. A transição deve ter sido demasiado rápida e demasiado intensa. Não tiveram tempo, como no resto da Europa democrática, de assimilar as vantagens da vida urbana com as responsabilidades cívicas que se impõem. De onde virá essa taxa confrangedora de doenças mentais senão do stresse do fim do mês? Gente que não sabendo como gerir um orçamento, se lança a comprar casa e carro, não tanto para as suas necessidades vitais mas como forma de afirmação perante os vizinhos. No fim, não sei se era do cansaço físico de tantas comezainas, visitas e pernoitas em camas alheias que me esgotaram a paciência, se era o discurso monocórdico, a ladainha das lamentações chapa um. Lamentações que iam para além do político e do económico. Iam até aos confrontos geracionais - «Estas raparigas de hoje já não sabem cozinhar!». Aos conflitos maritais - Em dez anos a taxa de divórcio em Portugal aumentou 89% segundo os números difundidos pelo Instituto de Política Familiar (Agencia Lusa). Mas a pior de todas, para um emigrado antes do 25 de Abril, é ouvir da boca de certa juventude que Portugal precisa de outro Salazar. Depressa que quero regressar ao meu Canadá! Antes da partida o Norberto Aguiar tinha-me pedido que escrevesse uns artigos a partir de Portugal, sobretudo em relação à visita do Papa e à febre do Mundial. Recusei-me tanto num caso como no outro. Não queria compromissos e queria ter o tempo todo por minha conta. Ainda bem que o fiz. Direta ou indiretamente, a minha recusa levou-o a abordar dois colaboradores para se ocuparem do Mundial e foi com grande satisfação que os pude ler, lá longe, apenas pelo prazer de os ler e não por obrigação. Tanto um como o outro, Duarte Miranda e Arlindo Vieira, me surpreenderam. Do Duarte Miranda já lhe conhecia a prosa, sensata, refletida, a elegância do estilo com que nos brindava de tempos a outro. Mas surpreendeu-me o facto de ser tão versado em futebol - o que não admira pois sou completamente ignorante na matéria. O mesmo posso dizer do Arlindo Vieira - para quem a prosa e o estilo me eram completamente estranhos - e que soube encontrar no caleidoscópio das provas desportivas um anglo de visão extraordinariamente humano, de que a sua crónica deste número é um exemplo a não perder. Fiquei assim a saber, pelas penas destes dois colaboradores que o desporto-rei se pode conjugar em muitos outros tempos, para além do estafado Fado, Fátima e Futebol. Para eles o meu mais sincero bem-haja! (1) Um negro, em literatura, é o nome que se dá aos escritores anónimos que escrevem em nome de autores populares, a pedido destes, como se fosse do outsourcing... |
Acordo Ortográfico
Apesar das resistências encontradas na imprensa portuguesa em geral, o LusoPresse decidiu adoptar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa pelas razões que já tivemos a oportunidade de referir noutro local. Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova. Contamos com a compreensão dos nossos leitores. Carlos de Jesus Diretor |
| LusoPresse - 2012 | ||