Editorial

Portugal en lumière

Por Carlos de Jesus

Portugal, como convidado de honra do «11ème Festival de Montréal en lumière», veio como que aquecer a meteorologia deste final de fevereiro que nos brindou com temperaturas clementes, para grande desespero dos verdadeiros amantes da neve e do gelo. Raramente o nosso país, sobretudo a sua gastronomia, os seus vinhos e os seus artistas tiveram tanta projeção como a que lhe proporcionaram a grande imprensa, a rádio e a televisão daqui, nas duas línguas nacionais.

Sublinhemos que este projeto se realizou à revelia do governo português que depois de ter prometido uma comparticipação financeira se recusou, dando como testemunha a crise económica mundial.

Como tanta coisa é diferente neste país de adoção em relação ao que me viu nascer!

Sim, a crise é mundial! Mas, enquanto aqui a crise é também uma oportunidade de se criarem empregos, renovarem as estruturas, fomentar a construção e a renovação, tanto da propriedade privada como pública, abrindo a bolsa do erário público para compensações financeiras a quem se queira arrojar em empreendimentos que possam minimizar o desemprego, Portugal fecha as portas a uma ocasião única de promover as suas exportações, sobretudo vinícolas, e de promover o turismo por estas bandas. Como se explica, senão por uma visão de vistas curtas, de quem nunca passou de pobre ou remediado e que pensa que é fechando os cordões à bolsa que se conjura o futuro.  

Não fora a feliz e oportuna iniciativa de Carlos Ferreira, o proprietário do já famoso Restaurante Ferreira Café, da rue Peel, e a rara vitrina, o escaparate em bandeja de prata que «Montréal en lumière» oferece aos seus convidados teria sido proposta a outros menos timoratos. Felizmente que tivemos aquele homem, que embora já não fosse criança quando abordou estas paragens, foi cá que aguçou o seu espírito inventivo e empreendedor. Foi ele que se arrojou a meter as mãos à obra e levar a cabo esta iniciativa, como bem explicou a Inês Faro, na sua reportagem de 4 de fevereiro. «Aqui as coisas acontecem. Do lado de Portugal está sempre tudo à espera que as coisas aconteçam. No fim tenho o pressentimento que vai dar tudo certo, mas podia ser mais relaxe» - confessava Carlos Ferreira à nossa jornalista, naquela reportagem.

E, como bem previu, tudo deu certo. Podemos orgulharmo-nos que os que vieram cá representar a nossa gastronomia, os nossos vinhos e os nossos cantares foram bons embaixadores do que Portugal tem de melhor a oferecer naquelas matérias. Afirmo-o sem que me tenha sido possível a tudo assistir, tudo provar. Afirmo-o também pelas penas e pelas vozes que li, vi e ouvi nos órgãos de comunicação da província, e mesmo nas páginas deste jornal que tanto relevo tem dado ao evento.

Aliás, aproveito a oportunidade para agradecer publicamente a todos os nossos generosos colaboradores que têm feito a cobertura do festival ao longo de vários números e particularmente pelos seus numerosos artigos incluídos nesta edição. Bem hajam.

Por outro lado, se algum eco nos chegou da imprensa portuguesa, foi graças à correspondente da Lusa, em Montreal, que os foi alimentando do que se estava a passar, sem que todavia nenhum jornal, do meu conhecimento, se tenha dignado dar mais atenção do que a reprodução resumida dos despachos da Lusa.

Isto é bem sintomático do que vai pelo país, mais interessados nas histórias de alcova ou de escutas - da pequena política - a imprensa mantém o povo cloroformizado com estórias de sopeirices em vez de se atacar às causas do atraso sistémico do país.

LusoPresse - Edição do dia 4 de Março de 2010