Editorial

A verdadeira tragédia do Haiti

Por Carlos de Jesus

A recente tragédia do tremor de terra de grande magnitude em Haiti teve o condão de comover o mundo inteiro. Por um lado, devido ao facto deste país ser um dos mais pobres da Terra, pelo outro, devido ao impacto destruidor e às consequências, ainda difíceis de avaliar, tanto para as populações como para o meio ambiente. Destas consequências, a mais evidente e imediata, embora os dados sejam difíceis de coligir - visto não haver registo civil digno desse nome - é o número de mortes, de estropiados, de órfãos. Só de mortes, fala-se entre 150 mil e 300 mil. A estes números desoladores virá juntar-se, previsivelmente, o número sem conta dos que serão afetados pelas febres tifóides, a malária, e outras epidemias originadas pelos cadáveres em putrefação que ainda não foram enterrados ou descontaminados.

Esta não é a primeira vez que aquele país é assaltado pela fúria dos desastres naturais. A destruição provocada pelos furacões Hanna e Ike, em 2008, ainda não tinha sido reparada quando se deu este sismo.

E também não é novidade para aquele povo que, em presença de tais desastres, a comunidade internacional acorra com promessas de cooperação e assistência.

Não admira pois que as grandes potências doadoras já comecem a organizar a sua agenda benemérita. É vê-las quem mais promete. Mas os resultados são escassos até agora.

A primeira cimeira teve lugar aqui, em Montreal, na passada segunda-feira, com a presença do primeiro-ministro do país sinistrado, Jean-Max Bellerive e delegações do Canadá, Estados Unidos, Brasil, Espanha, França, Organização dos Estados Americanos, ONU, Banco Mundial e Cruz Vermelha Internacional.

Face à desolação que nos chega a toda a hora, em todos os boletins de notícias, não admirava pois que a tónica desta cimeira fosse a coordenação do auxílio imediato às vítimas mais necessitadas - as que esperam tratamentos médicos, que não têm água potável nem alimentos, ou que dormem ao relento. A reconstrução, embora urgente, não é a mais importante por agora. Mas não! A cimeira, ao fim de uma maratona de discussões à porta fechada só conseguiu chegar a uma conclusão - que vão ser precisos dez mil milhões de dólares e dez anos de esforços para reconstruir o Haiti. Os que gritam de dor, de fome, de sede e desespero, que esperem.

Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros da República Dominicana anuncia outra cimeira, a realizar-se em São Domingo, a 14 de Abril. A ONU, que tem a tutela da segurança na terra de Dany Laferrière, para não ficar atrás, realiza igualmente uma conferência internacional na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, nos dias 22 e 23 de Março. Todas com o mesmo objetivo, ajudar a reconstruir o Haiti.

Entretanto, são as ONG (Organizações Não Governamentais) que se ocupam de dar assistência direta aos sinistrados. E é aqui que, no meu entender, se corre o maior risco de ainda mais estropiar aquele país.

Não duvido que os beneméritos destas organizações se entreguem de corpo e alma a aligeirar o sofrimento das vítimas e a reconfortar os sobreviventes. Mas a ação destas organizações, por mais desinteressada e profícua que seja, acaba por sapar o papel do Estado. A tal ponto que muitos haitianos preferem receber ajuda dos estrangeiros que das próprias instituições do país.

Aquele país - ou qualquer outro país - só pode aprender a auto governar-se quando tiver um aparelho de Estado com as suas instituições atuantes na saúde, instrução, obras públicas, finanças, etc.

O que temos assistido no Haiti, desde a revolução pela independência, tem sido uma luta pelo poder, entre fações divididas por estratos sociais, cada qual apostado em tirar o maior proveito pessoal em prejuízo da comunidade. O que se pode compreender quando se trata de uma população de escravos, das mais diversas etnias, que se proclama independente sob o comando de filhos mestiços dos antigos mestres e que prolongam as mesmas tradições de tirania e abuso de classe. O que no tempo dos franceses era o domínio do negro pelo branco, passou a ser o domínio do escuro pelo mais claro.

Este estado de coisas tem de mudar. Mas para isso são precisos mais de dez anos, porque tudo passa pela Educação e pela Justiça. Dois pilares que terão de ser apoiados pelos cooperantes estrangeiros, mas não substituídos por eles.

As ONG têm um grande papel a desempenhar na reconstrução do Haiti, ou melhor na reconstrução da sociedade haitiana, mas o auxílio tem que ser canalizado para que seja o Estado a distribuir, a educar, a liderar o país. Sem Estado não pode haver um governo estável e democrático. Sem democracia não podem ser destruídas as barreiras sociais que têm mantido aquele país tão dividido e corrupto.

Há quem fale de tutela da ONU. Talvez esta seja a melhor solução, por muito que custe ao espírito nacionalista dos Haitianos. Uma tutela, como a que já está a ser feita pelo Brasil, em termos de policiamento. Mas desta vez em termos de se criarem as verdadeiras instituições de que o Estado do Haiti urgentemente precisa, não só para aprender a recompor-se dos desastres naturais mas para criar um futuro mais decente para todos os seus filhos.

LusoPresse - Edição do dia 4 de Fevereiro de 2010