Sala cheia de público português e quebequense, unido pelo gosto pela leitura, escutou atentamente a intervenção do prof. Luís Aguilar sobre José Saramago e o seu romance O ano da morte de Ricardo Reis na passada quarta-feira dia 13 de Janeiro. De facto a sala polivalente do Consulado Geral de Portugal em Montreal revelou-se pequena para um auditório tão numeroso o que é sempre bom sinal.
A análise do romance O ano da morte de Ricardo Reis permitiu aprofundar o conhecimento de dois vultos maiores da Literatura Portuguesa - José Saramago e Fernando Pessoa.
Luís Aguilar iniciou a sua intervenção descrevendo em traços largos a biografia do nosso único Prémio Nobel da Literatura. De realçar o facto de a sua verdadeira carreira como escritor ter apenas começado quando Saramago já tinha 60 de idade, depois de largos anos dedicados ao jornalismo, à tradução e à militância política. Ignorado por uns e perseguido por outros, Saramago é bem o exemplo que «santos da casa não fazem milagres». Por essa razão deixa Portugal para passar a viver em território espanhol onde prossegue a sua notável e meteórica carreira como escritor. Aos que o criticam de não possuir mais que o Ensino Secundário como formação académica, Saramago argumenta ter recebido até agora 34 títulos de doutoramento honoris causa.

Em seguida, Luís Aguilar descreveu a personagem central do romance em apreciação. Ricardo Reis é um heterónimo de Fernando Pessoa. De facto, Pessoa é um caso extraordinário de criação não de personagens, mas de autores diferentes sob cujo nome escreve. Ele utiliza 72 heterónimos, dos quais os mais conhecidos são Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Ricardo Reis é, pois, um dos heterónimos e teria falecido em 1936 (data escolhida por Saramago), exactamente um ano após a morte do real Pessoa. Ricardo Reis era médico monárquico e teria vivido durante 16 anos de exílio no Brasil. Regressa a Lisboa onde nutre uma paixão mítica por Lídia. Em 1936 a ditadura cimenta-se em Portugal, o que constitui o cenário ideal para Saramago descrever o ambiente de uma sociedade que vivia num regime que perduraria 48 longos anos. É igualmente um período de charneira da história ibérica e europeia - o avanço do fascismo na Europa, que culminaria com a ascensão de Hitler, o desencadear da II Guerra Mundial e o início da guerra civil espanhola.
Saramago cruza neste romance factos reais e históricos com a ficção, o que de resto, é frequente noutras suas obras de vulto, como é o caso, por exemplo, do Memorial do Convento.
A sessão findou com um período de perguntas da assistência, que no final, estamos certos, irá prosseguir em suas casas a descoberta deste notável vulto da Cultura Portuguesa que dá pelo nome de José Saramago.
Está de parabéns o Círculo de Leitura Europeu, organizador desta quarta sessão que, ao que nos foi dado saber, excedeu as expectativas, batendo o número de assistentes.
Fica aqui uma sugestão para os interessados: no próximo dia 10 de Fevereiro, às 18h o Círculo de Leitura Europeu promove uma nova sessão, desta feita sobre a escritora holandesa Hella Hasse e o seu livro Le lac noir que terá lugar no Goethe-Institut de Montreal (rua Sherbrooke Est, 418). A apresentação do livro estará a cargo de Alice van der Klei, directora de comunicações da Fundação Metropolis Bleu e professora no Departamento de Estudos Literários na UQAM.