Editorial

Os paradoxos

Por Carlos de Jesus

Na semana passada o mundo – se excluirmos a América do Norte – esteve com os olhos virados para dois acontecimentos relacionados mas opostos. Um na Suiça, o outro, no Brasil. O da Suiça, mais precisamente na chiquérrima estância de turismo alpino de Davos, reuniu os principais líderes da economia mundial – se excluirmos a América do Norte e a Europa... O do Brasil, ao sabor da música e da dança dos trópicos, em Belém, juntou tudo quanto – sem excepção – há de militante e de esquerdismo contra a globalização e o liberalismo económico.
O acontecimento passou praticamente despercebido por estas bandas, limitando-se a sublinhar a presença apagada do ministro das finanças canadiano Jim Flaherty. O mesmo podemos dizer dos Estados Unidos, não fora a presença de Bill Clinton que, aliás, não tem nenhuma relação com o governo Obama senão por ser o marido da nova secretária de estado.
As figuras gradas em Davos, este ano, ao contrário do passado, não vieram dos Estados Unidos e da Europa, mas da China, da Rússia e da Índia. Foram as economias emergentes, que são afinal as mais ameaçadas pela atual crise económica, quem acorreu mais numerosa e insistente para se encontrar uma solução.
Afinal, os grandes arautos do liberalismo económico – leia-se os Estados Unidos e a Europa – fecharam-se em copas. Cada um coçando-se para dentro. Obama quer criar milhares de empregos urgentemente na construção de estradas e pontes, mas impõe que o aço e o cimento sejam americanos. É o antigo reflexo do protecionismo económico. Comprar em casa.
Os alemães, franceses, espanhóis e ingleses preparam-se a fazer o mesmo. E lá se vão as grandes virtudes do mercado internacional que criava riqueza e progresso para os países mais pobres.
Com a crise económica é também o liberalismo económico que entra em crise. Ao contrário do que afirmavam os seus detratores, a globalização levou muito progresso e muitas oportunidades de emprego para um grande número de nações pobres. Que o digam os que agora gritam fome em Davos. E são essas mesmas nações que acreditaram no sistema que vão ser agora as mais atingidas. São eles que agora, em Davos, pedem mais cooperação e mais liberalismo nas trocas comerciais.
Paradoxalmente, as vozes dos altermundialistas em Belém, continuando a dar eco às palavras de ordem de «abaixo à mundialização e ao capitalismo» acabam por se alinhar com a América e a Europa que nacionalizam bancos e indústrias e se fecham ao comércio mundial, destruindo assim os fundamentos da mundialização.
Esperemos que a crise sirva ao menos para que a esquerda, sempre à procura de soluções simplistas, idealistas e utópicas, reveja o seu catecismo e procure, pragmaticamente, apontar mais para a correção do sistema do que para o seu aniquilamento. Como disse Obama recentemente num discurso dirigido aos países árabes, «os povos julgar-vos-ão pelo que sois capazes de construir e não pelo que sois capazes de destruir».
Esperemos também que a crise traga os valores humanos para o primeiro plano e crie uma rejeição do espírito puramente mercantilista, do lucro e da ganância, que têm sido as alavancas do progresso do capitalismo e a casca de banana da sua derrocada. Que as fronteiras se abram cada vez mais à livre circulação das pessoas, dos produtos e dos serviços é o que podemos desejar para que a crise passe o mais depressa possível.
LusoPresse - Edição do dia 15 de Fevereiro de 2009