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Ano  XIII - Nº 194 Montreal, 18 de Dezembro de 2008 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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Editorial

Pequena e grande política

Por Carlos de Jesus

Os Conservadores recuaram, tacticamente, mas se não fosse com o beneplácito da Governadora-Geral que aquiesceu a suspender o parlamento federal até ao início do próximo ano, os dias de Harper estavam mesmo contados De todas as análises que tive a oportunidade de ler e ouvir, a propósito das últimas eleições gerais do Quebeque, a que me parece mais objectiva e factual é a do jornalista Vincent Marissal do jornal «La Presse», de Montreal.

Através dos dados fornecidos pela Direcção-Geral das Eleições do Quebeque, ficamos assim a saber que tanto o Partido Liberal como o Partido Quebequense não ganharam senão umas migalhas à Acção Democrática do Quebeque. O grande derrotado foi sem dúvida alguma o partido de Mario Dumont. Para onde foram então os votos que este perdeu? A pergunta é legítima, a resposta também: não foram para ninguém. Como os números deixam ver bem claro, os eleitores da ADQ resolveram ficar em casa.

Em 2007, o Partido Liberal do Quebeque foi buscar 1.313.664 votos. Em 2008, 1.362.801. Ganhou portanto uns 49 mil votos. Pelo seu lado, o Partido Quebequense, em 2007, teve 1.125.546 votos e em 2008, 1.139.185 ou seja um ganho de 14 mil votos. A perca de votos da ADQ, quase 700 mil, equivale praticamente ao número de eleitores que este ano se absteve de votar.

Como vivemos numa democracia parlamentar representativa, a carta eleitoral deu o poder aos liberais que assim vão poder governar maioritariamente durante os próximos quatro ou cinco anos. A não ser que a ADQ, com a demissão do seu chefe, se desintegre e os sete deputados órfãos, fagocitados pelo PQ, possam, numa conjuntura inesperada, ajudar a derrubar o governo antes da data prevista.

Mas, conhecendo como conhecemos o calo do actual primeiro-ministro Jean Charest em termos de politiquices, é muito provável que seja ele a tomar a dianteira para namorar os adequistas desamparados. Dentro de pouco o saberemos.

A não ser que a tão anunciada crise económica que nos espreita se abata mais depressa e mais forte do que o que se espera e que os nossos homens e mulheres políticos se decidam a meter mãos à massa para evitar o pior e ponham de lado estes jogos de bastidores que tão pouco dignificam as classes dirigentes.

Como se não bastasse a opereta política de mau gosto que foram estas eleições que acabámos de viver na bela província do Quebeque, temos ainda o melodrama que se tece presentemente nos bastidores de Otava.

Todos temos ainda bem presentes a onda de choque, o tsunami político, que foi a notícia da formação do triunvirato dos partidos da oposição, incluindo o Bloc Québécois, para derrubarem o partido Conservador de Stephen Harper, no seguimento do projecto de lei que este se propunha fazer adoptar para dizimar os seus oponentes e se afirmar como dono do país.

Os Conservadores recuaram, tacticamente, mas se não fosse com o beneplácito da Governadora-Geral que aquiesceu a suspender o parlamento federal até ao início do próximo ano, os dias de Harper estavam mesmo contados. E ainda bem que assim foi. Deste modo, os liberais numa posição de equilíbrio instável em termos de liderança e de finanças, puderam reunir as condições para escolher um novo chefe sem terem de passar pelo processo dispendioso e divisivo da realização dum congresso para a escolha dum novo chefe.

Michael Ignatieff sucede assim ao mal-amado Stéphane Dion como líder máximo do Partido Liberal do Canadá e, ao que parece, não está muito apressado a dar continuação à coligação para correr com os conservadores. O que me parece também bastante avisado.

Ignatieff tem duas tarefas muito importantes à sua frente antes de poder tomar o poder em Otava. Uma, dotar o partido duma política coerente, social-democrata-ecológica, para fazer frente aos desafios do descalabro económico e financeiro que assola o mundo inteiro. O segundo, reconquistar o coração e os espíritos dos Quebequenses que as quezílias entre nacionalistas e federalistas têm vindo a alienar ao longo das últimas décadas e que são a lenha com que os bloquistas se têm vindo a aquecer.

Creio que Michael Ignatieff é o homem apropriado para esta missão. Primeiro, porque não pertence à antiga escola dos Chrétien, Martin e Dion que, quer queiramos quer não, estão, no espírito de muitos quebequenses, intimamente ligados às manigâncias dos patrocínios publicitários que deu no escândalo que fez derrubar o último governo liberal. Segundo, porque pertence a uma estirpe quase vilipendiada a sul da fronteira canadiana, a dos intelectuais na qual se recrutavam antigamente os grandes estadistas. Sim, não é com profissionais da política, sejam eles advogados ou diplomados de ciências políticas e sociais que se fazem homens de governo de estatura para poderem ver mais longe que a ponta do seu nariz. O mais de que são capazes é ganharem eleições com slogans e promessas ocas. Em tempos difíceis e complexos, precisamos de gente que está habituada a pensar, a analisar e a tomar riscos. De gente que é capaz de apostar num plano de conjunto para todo o país, que vai muito além do imediato duma eleição. De gente que é capaz de comunicar esta vontade e esta necessidade aos cidadãos eleitores e de lhe granjearem a adesão. Penso que Ignatieff é desta têmpera. Só espero que não me engane.



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