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Ano  XIII - Nº 194 Montreal, 18 de Dezembro de 2008 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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Crónica de Natal?

A crise e o sonho

Por Carlos de Jesus

Com esta crise será que o capitalismo vai conceder que é no meio que está a virtude? Toda a gente fala de crise económica, mas qual crise?

Neste sábado passado fui, como milhares de outros, a um centro comercial para comprar umas quantas bugigangas a que se dá o nome de presentes de Natal. Foi preciso andar às voltas para descobrir um lugar onde estacionar. Apesar de o centro ser um dos maiores que jamais tinha visto, estava tudo cheio. Famílias inteiras, com a criançada de olhos a brilhar, com tantas compras para o Pai Natal pôr na chaminé ou debaixo do pinheiro. Viva a sociedade de consumo!

Realmente, se houvesse uma verdadeira crise, não haveria tanta gente nas bichas das caixas com os carros a abarrotar de tantas coisas desnecessárias. Ou será que a crise ainda não nos bateu à porta? Penso que esta deve ser a verdadeira razão. Estamos ainda a viver como se nada fosse, mesmo se os extractos de conta me confirmam pesadas percas nos fundos de pensão. Mas para que é que havemos de entrar em pânico? Haja alegria. Haja esperança e tudo se há-de arranjar. A ver vemos, como diz o cego.

Infelizmente, por muito grande optimismo que tenhamos, penso que uma boa e verdadeira crise nos vai entrar pela porta no princípio do ano. O que se passa nos Estados Unidos não é uma imagem de espírito. As sopas dos pobres nunca estiveram tão concorridas como agora. E quando os principais clientes da produção canadiana fecharem a torneira das encomendas, muitas empresas daqui vão também enviar para o desemprego milhares de empregados. Então, sim, vamos ver os estacionamentos dos centros comerciais desertificados, as vitrinas apagadas e o fácies cabisbaixos.

Mas, como diz o ditado, não há bem que não acabe, nem mal que sempre dure. O que pouco dura são as lições que podemos tirar desta crise. Quando a grande depressão se abateu sobre os Estados Unidos e a Europa, nos anos trinta, todos os economistas eram unânimes a afirmar que uma tal derrocada nunca mais poderia voltar a acontecer porque os governos tinham desenvolvido instrumentos de controlo e medidas para prever tal situação. Afinal, o que estamos a viver, não é senão uma repetição do que foi o resultado dos anos loucos, da ganância, do lucro fácil, do «laisser faire, laisser passer» dos anos 70, tal como nos anos vinte.

O que há de salutar nesta crise, é que as teorias mercantilistas da direita, de que o mercado é o melhor regulador económico, o melhor criador de riqueza e quejandos, acabam por cair por terra como um castelo de cartas. Acaba a música e pára o baile. A vitória do capitalismo triunfante depois da queda do Muro de Berlim foi de pouca dura. A pátria dos capitalistas puros e duros acaba de se render à evidência. A economia, sem a intervenção do Estado, acaba por se suicidar na louca corrida ao lucro sem outra preocupação que a de enriquecer os ricos. Os pobres e a classe média que se arranjem. É a lei do darwinismo. Só os mais fortes têm o direito de sobreviver.

Esta crise veio provar que os ricos afinal não se podem enriquecer sem o trabalho dos outros. Ford, o grande industrial do automóvel, tinha compreendido isto. Que era preciso pagar bem aos empregados para que estes pudessem comprar carros. Com esta crise será que o capitalismo vai conceder que é no meio que está a virtude? Como aliás já antes os países nórdicos tinham compreendido com os regimes sociais-democratas, nos quais se deixa à empresa privada o campo da inovação, do risco e da iniciativa, e ao Estado o campo de administrar a justiça, promover a educação e a saúde, graças ao contributo de todos segundo os seus meios?

Esperemos que o próximo ano seja menos grave do que se anuncia e que os governos se aproveitem da crise para limpar a casa, para criarem as infra-estruturais, pontes, auto-estradas, caminhos-de-ferro, escolas e hospitais de que tão necessitados estão. E porque não criar a tão sonhada linha de TGV entre Montreal e Toronto e entre Montreal e Nova Iorque? E porque não criar uma ligação super rápida entre Montreal e Mirabel e voltar a pôr lá todos os voos? E porque não criar um serviço de mini-autocarros em Montreal que passasse todos os 10 minutos e assim fazer com que a gente deixasse de andar de carro? E porque não criar ruas sem carros? E porque não criar conselhos de bairro motivados para a ecologia, para a recuperação, para a segurança, o civismo, o ensino e a ajuda mútua? E porque não criar uma taxa de seguro automóvel ligada ao preço da gasolina? Quem mais anda (mais riscos de acidentes) mais paga? E porque não impor os radares foto nas estradas, nas intersecções, à volta das escolas? E porque não criar novos autocarros sexis, com ar condicionado e janelas panorâmicas para atraírem o máximo da clientela? E porque não criar linhas gratuitas aos fins-de-semana para as crianças e reformados? E porque não criar prémios para os melhores alunos, para as melhores empresas, para os melhores políticos, como já fazem os artistas entre si? Imaginem o Óscar do melhor ministro da Saúde! O Óscar da empresa mais socialmente responsável! E tantos outros.

Claro que tudo isto só pode sair da vontade política. A empresa privada não tem meios e muito menos motivação para se lançar num projecto desta envergadura. Mas os governos, a todos os níveis, podiam e deviam motivar as populações com projectos ambiciosos como o fez o Maire Drapeau quando decidiu criar uma ilha artificial no meio do São Lourenço com a terra do metropolitano. Dizer que se hoje um homem político viesse com esta ideia chamavam o 911 para uma ambulância o levar para o manicómio?

Mas como é Natal e estamos a chegar a mais um novo ano, deixem-me ao menos sonhar que alguém, um dia destes, vem com uma ideia destas.

Montreal,Qc, Canadá


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