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Ano  XII - Nº 185 Montreal, 17 de Julho de 2008 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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Notas de viagem

Viva o GPS

Por Carlos de Jesus

Antes do GPS, quando, em viagem, nos perdíamos, tínhamos de parar, consultar o mapa, ou esperar que uma boa alma nos viesse em socorro. É sabido que os homens não gostam pedir direcções. Preferem andar às voltas, à espera que um remoto e genético sentido de orientação lhes valha. Infelizmente, no mundo de hoje, com tanto carreiro de betão e tanta floresta de cimento, não há sentido de orientação que baste, nem mesmo com mapa e bússola. Por sorte, começa agora a popularizar-se o GPS, aquela caixinha mágica, que serve para nos tirar dos maus caminhos e nos guiar ao destino certo, sem palpites nem hesitações. O GPS é guia incontornável para o viajante deste século. Nem é preciso ser-se bruxo para prever que esta tecnologia, dentre em pouco, vai fazer parte integrante dos instrumentos de bordo de qualquer marca de carro.

Antes do GPS, quando, em viagem, nos perdíamos, tínhamos de parar, consultar o mapa, ou esperar que uma boa alma nos viesse em socorro. Com o GPS não é preciso pedir direcções a ninguém. Mesmo quando, por qualquer razão, somos obrigados a desviar-nos do trajecto previsto, lá está ele, na voz da Rita, clara e paciente, como a mais santa dos guias, para nos repor no caminho certo.

Toda a gente sabe que todos os caminhos vão dar a Roma. E o GPS também. Mas com uma vantagem, ele conhece não só todos os itinerários possíveis mas também os mais curtos, os mais rápidos e os mais baratos. Esta última característica não é de subestimar em países, como em Portugal, onde as portagens são fogo.

O GPS não é novidade para muita gente. Já a minha filha, há vários anos, se servia dele, nas suas andanças profissionais pelos Estados Unidos, o que, para mim, não deixava de ser misterioso. E continuou a sê-lo, até ao momento em que me decidi, por força das circunstâncias, a comprar um, poucos dias depois de ter chegado a Portugal, em Maio do ano passado.

O país tinha mudado tanto, que eu já nem era capaz de encontrar antigos e conhecidos endereços. Nem mesmo com a ajuda da Internet, onde os mapas do Google são duma grande precisão e clareza. Infelizmente o mesmo não se pode dizer dos serviços municipais encarregados da toponímia dos nossos trajectos. Mal se sai das auto-estradas, que, aliás, estão muito bem sinalizadas, e se entra numa localidade qualquer, é um ver quem me valha. As placas das ruas estão encobertas ou em locais onde não se esperava, quando existem, e até os nomes das terras são muitas vezes omissos à entrada das mesmas. Como havemos de nos localizar no mapa, nós forasteiros, quando, por vezes, nem os autóctones sabem dizer o nome da rua onde nos encontramos?

Valia-nos o telemóvel, nessas ocasiões, para avisar quem nos esperava de que estávamos perdidos. Aí, procurámos o cunhal de duas ruas bem identificadas ou, se o avistássemos, um comércio mais notório, para que o nosso anfitrião nos viesse buscar.

Foi assim que depois de algumas frustrantes e humilhantes desorientações me decidi a comprar a tão prometedora e misteriosa máquina de navegação, anjo da guarda dos pilotos timoratos do meu jaez.

Num belo domingo à tarde, daquele mês quente de Maio, num super, hiper, gigantesco, centro comercial, em Setúbal, numa loja, seguramente de propriedade estrangeira, onde, à entrada, em letras garrafais, avisam que "Aqui dizemos bom dia aos clientes", encontrei, sorte das sortes, um jovem vendedor, competente e, seguramente, apaixonado pela tecnologia que, depois de ficar a saber donde vínhamos e dos percursos que tencionávamos calcorrear, nos apontou para a máquina ideal, o TomTom. Um GPS que tanto serve para o carro, como para a moto, bicicleta, barco ou, até mesmo, para as voltas pedonais; que tanto nos indica o caminho, como toca músicas, passa vídeos e fotos. Um verdadeiro companheiro para o caixeiro-viajante, perdido nos caminhos da vida, ou para o turista acoitado num beco sem saída...

O nome não me dizia nada, tanto mais que TomTom me soava caricato, bem pouco apropriado, sonoramente falando, para uma marca comercial dum produto da mais avançada tecnologia, capaz de fazer cálculos de triangulação satelitar em milissegundos. TomTom soava-me a nome de palhaço. Só a força de convicção do nosso vendedor, e uma rápida consulta no Google, me convenceram que aquilo era, na verdade, o guia ideal para me ajudar nas minhas andanças pela Europa, Estados Unidos e Canadá.

E assim se revelou. Nunca me perdi. Quer que fosse nos mais recônditos caminhos de cabras da Serra da Estrela, ou nas mais recentes auto-estradas, de norte a sul, sempre cheguei ao local desejado e à hora aprazada. A sua utilização por estas viagens por estas bandas, já confirmou a mesma precisão.

Em Portugal, das várias vozes disponíveis em Português, escolhi, como guia, a da Rita. Muito mais clara e agradável que a da Amália ou a do Eusébio, ou dum brasileiro qualquer. No Quebeque, escolhi uma voz feminina francesa, com sotaque internacional, embora a voz portuguesa também fosse capaz de ler a maior parte dos nomes franceses e ingleses com boa pronúncia. Nas deslocações ao resto da América do Norte, vou passar a usar uma voz americana, porque, apesar de poder escolher qualquer das 25 línguas disponíveis não existe uma língua canadiana inglesa.

No ecrã, fixado no pára-brisas do carro, a nossa posição no mapa, quer nos encontremos numa auto-estrada ou no mais obscuro beco sem saída, está claramente assinalada, e com precisão, como já disse. Deste modo, não há nada que justifique que nos percamos, nem mesmo no meio do maior emaranhado de nós rodoviários. Primeiro temos a voz da Rita que nos avisa, com a antecedência devida, de que a tantos metros, em tal rua, temos de voltar à direita ou à esquerda ou que temos de apanhar esta ou aquela saída da rotunda, e assim por diante. Em segundo, porque, no ecrã, não só a nossa posição está bem indicada no mapa, com as ruas transversais e respectivos nomes claramente visíveis, assim como o trajecto previsto está bem delineado e as curvas a dar, com uma flecha de cor diferente, serpenteando à frente do triângulo que nos representa na estrada, como se nos tivesse a guiar pela mão. Se, por distracção ou por um imprevisto obstáculo, não sigamos o caminho indicado, a Rita depressa calcula um novo trajecto e volta a pôr-nos na boa direcção. Tudo isto com uma infinita paciência, sem o menor ralho na voz...

Mas não é tudo. A Rita também é capaz de localizar, num abrir e fechar de olhos, caso precisemos, onde se encontra a bomba de gasolina mais próxima, o hospital, o restaurante ou qualquer outro sítio de interesse histórico, turístico ou comercial. E como se isto já não fosse suficiente, é ainda capaz de prever a hora de chegada, tendo em conta as diferentes limites de velocidade autorizados e o peso do pé do condutor no pedal das velocidades. Mesmo em longos trajectos, alguns com consideráveis engarrafamentos, a hora de chegada nunca diferiu mais de 5 minutos.

O GPS é de facto uma pequena maravilha para quem não quer perder o tempo nem o caminho. Tem no entanto um inconveniente que é, quando à chegada, nos perguntam, por onde viemos, o sermos obrigados a responder com um "não sei. Vim por onde a Rita me disse..."

O GPS é realmente um instrumento destes tempos. O importante não é a viagem, é a chegada.

Montreal,Qc, Canadá


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