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Ano  XI - Nº 163 Montreal, 1 de Julho de 2007 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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SEM “PORTUGAL NO CORAÇÃO”

Por Maria Manuela Aguiar

assim, de dentro para fora passava tudo, tudo servia para preencher as longas 24 horas de emissão, incluindo antigos “enlatados”, que repousavam sob o pó das prateleira: da “diáspora” para cá a nada se atribuía o dom de captar a atenção ou o interesse de telespectadores considerados mais exigentes e selectivos - ou apenas desinteressados das coisas e das gentes da emigração… A RTP - Internacional, que lhe preexistia há vários anos, nunca ousara quebrar esse “tabú”: assim, de dentro para fora passava tudo, tudo servia para preencher as longas 24 horas de emissão, incluindo antigos “enlatados”, que repousavam sob o pó das prateleira: da “diáspora” para cá a nada se atribuía o dom de captar a atenção ou o interesse de telespectadores considerados mais exigentes e selectivos - ou apenas desinteressados das coisas e das gentes da emigração…

A produção da RTP - Internacional, não por falta de consciência das suas insuficiências ou de vontade e capacidade profissional de as suprir, mas por uma crónica carência de meios, era pouca e pobre. E quando para responder a muitos protestos, numa segunda fase, tratou dar a conhecer a vivência das principais comunidades, essas peças iam para o ar na própria RTP - Internacional e não na RTP. Ou seja, divulgavam acontecimentos das comunidades a outras comunidades do estrangeiro, em circuito fechado, mas não aos portugueses do país… Se alguma excepção ia havendo era em emissões do canal dois e a desoras…

Neste quadro, o “Portugal no Coração” simbolizou uma mudança de 180º. Transformou-se no mais inesperado, no mais esfusiante, no melhor dos paradigmas de convivialidade dos portugueses do interior e do exterior, intermediado por jovens que se impuseram como revelações e nomes de primeiríssimo plano da televisão em Portugal: Malato e Merche. E não só eles: os músicos, a banda, os artistas “residentes” que os acompanhavam.

Em cerca de 90 minutos, nas tardes de segunda a sexta, o Portugal no Coração recebeu centenas de convidados de muitas terras e regiões, realizou reportagens em 19 países, levou o espectáculo, em dias de festa, a comunidades várias, a Paris, que lhe ofereceu para os “directos” os magníficos salões dourados da “Mairie” ou (facto inédito) a Torre Eifel, reconvertida em palco de grande espectáculo, o Luxemburgo, ou Genebra, Colónia, Montreux, Newark, onde traçou, com um ritmo e um colorido inesquecíveis, a imagem fiel de etnografia do nosso maior “10 de Junho”. Soube encantar, divertir, debater questões sérias, agregar comunidades distantes, unir os portugueses, transmitir experiências e lições de vidas, e, acima de tudo, criar laços de amizade num espaço do tamanho do universo da língua portuguesa.

De simples programa de televisão converteu-se em realidade comunitária vivida nos reencontros do quotidiano. Quase me atrevia a acrescentar, numa instituição, em que as comunidades de fora se sentiam representadas, presentes, tratadas como iguais. O que é, sabe-se, a utopia lusíada daqueles que estão longe do coração da Pátria. O programa fazia jus ao seu nome!

2 – Não se pense, porém, que foi fácil o percurso desta aventura televisiva. Bem pelo contrário! Arrancou numa conjuntura que adivinhava mais o fim do que o advento de coisas boas e duráveis na TV estatal.

O governo de Durão Barroso exigia contenção máxima para o imediato reequilíbrio financeiro da RTP e estava pronto a sacrificar o segundo canal e, se necessário, até o primeiro e a existência autónoma dos dois canais internacionais (RTP - Internacional e RTP - África).

Para presidir aos incertos destinos da televisão pública convidaram então um gestor de perfil austero e suprapartidário, embora pertencente ao principal partido da oposição.

Poucos acreditariam, então, que levasse a bom termo o mandato… Mas levou! Eu acho que foi a estrita necessidade de adoptar soluções de ruptura, cortes e despedimentos ou, em alternativa, de produzir bem e mais barato, que deu aos estúdios do Monte da Virgem as oportunidades que, de outro modo, jamais teriam tido.

A via de salvação de toda a RTP foi aí que começou, com “directos” de manhã ao fim da tarde…

De manhã, a “Praça de Alegria”, onde Goucha pontificara com “cachet” de vedeta, ressurgiu com uma dupla de apresentadores (“prata da casa”, Jorge Gabriel e a Sónia Araújo) que fez a diferença para melhor.

E, à tarde, depois do noticiário, o “Portugal no Coração” excedeu expectativas com os jovens que foram “descobertos” e apostas inteligentes da RTP - Porto.

Como antes o “Zip-Zip” ou o Herman, ou, agora, os “Gatos Fedorentos”, o “Portugal no Coração”, com o seu desejo de abraçar o mundo (português!) faz parte da história da nossa televisão. Esse lugar, ninguém lho pode tirar nunca mais.

Mas o que eu não quero, nem querem, sobretudo, os emigrantes, é falar deste programa no tempo pretérito…

3 – O risco é real. Lia-se, há dias, no “Público”: “RTP emagrece Centro de Produção do Porto”. A reestruturação que está em curso irá implicar a redução de emissões e, ao que se anuncia, o despedimento de tantos dos seus trabalhadores eficientes e dedicados, que são pagos com recibos verdes…

O “Portugal no Coração” está suspenso durante o Verão, justamente a época em que os emigrantes chegam e costumavam ter abertas as portas da “casa de família”, que era o estúdio do Monte da Virgem.

Se o programa recomeçar na capital, mesmo que mantenha a designação, não será o mesmo! Será uma espécie de “Lisboa no Coração” em que, como é habitual, Lisboa se toma por Portugal. Lá, em Lisboa, não notarão a apropriação do todo pela parte. Vão sofre-la, sim, os outros portugueses, os de longe.

É este o país que temos! Quem manda centraliza! Desertifica-se o país a sul e desertifica-se o país a norte. Por iniciativa do próprio Estado! A RTP é mais um exemplo lamentável a juntar a outros, aos encerramentos de escolas, de maternidades, de hospitais…

O “Centro de Produção” de Gaia subsistiu, numa conjuntura particular, só até que Lisboa pudesse voltar aos níveis normais de despesismo.

Agora, indiferente ao mérito das equipas que puseram no ar projectos viáveis e interessantes, mostraram criatividade, disponibilidade, competência - não superáveis por padrões lisboetas! - a administração da RTP acha que é a hora de as reduzir à expressão mínima.

Torna-se medianamente claro que a intenção da RTP nunca foi a de encorajar o pluralismo de pólos de produção, em boa complementaridade e cooperação, mas sim a de resistir a um “choque de austeridade”. Findo o qual, para prescindir do Norte, começa por abater a mais emblemática e popular das suas criações.

Há cerca de seis meses, quando o seu declínio, artificialmente provocado, era ainda impensável, José Lello (um dos poucos ex-Secretários de Estado das Comunidades Portuguesas que continua a acompanhar a evolução desse Portugal do exterior) dizia a Merche e a Malato que deviam tomar consciência da força e da dimensão afectiva que, com eles, o programa tinha ganho na “Diáspora”.

A RTP mostra não compreender, de modo algum, a importância dessa força, (feita, antes de mais, de sentimentos e simpatias) e está prestes a desbarata-la.

Um absurdo que nada justifica, nem a lógica da competitividade (com Malato e Merche, o “Portugal no Coração” esteve no topo das audiências!), nem como é óbvio, a lógica do serviço público, prestado num círculo alargado, em que cabiam todos os portugueses.

É outra razão que prevalece: o ímpeto de uma centralização voraz e obsessiva!

Terá, faltado a coragem de “deslocalizar” o programa no auge das audiências. Lisboa chamou a Lisboa Malato, primeiro, e, depois, Merche e substitui-os por um excelente profissional, que obviamente não está à vontade num papel que não é para ele…

E o Portugal no Coração “hibernou” muito antes da sua suspensão estival…

Os emigrantes estão longe demais para que se atenda o seu protesto…

Se o Norte tiver vozes que cheguem a 300 km de distância, devia falar agora. O “emagrecimento” do Centro de Produção do Porto não vai ficar por aqui: Seguem-se os noticiários da RTP - Norte e, depois… Será como canta Rui Reininho?

“… É a pronúncia do Norte.

É um prenúncio de morte…”.




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