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Ano  XI - Nº 156 Montreal, 15 de Março de 2007 Notícias e comentários da comunidade lusófona
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O debate dos chefes

Por Carlos de Jesus

Quem pensasse que ia sair esclarecido da escaramuça oratória dos três actores da política profissional, deve ter lamentado o tempo perdido, pois todos saíram do espectáculo com as mesmas dúvidas e certezas com que para lá entraram. Esta tradição televisiva das campanhas eleitorais, muito norte-americana, começou em 1960 com o debate entre Kennedy e Nixon, o qual foi difundido em simultâneo na rádio e na televisão. No dizer dos historiadores, o resultado do dito foi totalmente o oposto entre ouvintes e telespectadores. Para os primeiros, que não vendo as imagens, só podiam julgar pelo que cada um teve a dizer, o vencedor foi Nixon. Para os segundos, levados pelo bronzeado e pela gesticulação teatral dum Kennedy, tal como um senhor do palco, foi Nixon o derrotado. Os resultados nas urnas vieram provar que os segundos tinham razão.
Não admira pois que no debate desta semana, muita pouca gente tenha saído deveras esclarecida para fazer uma ideia em quem vai votar no dia 26, mas que, no fim, se tenha perguntado, quem ganhou ou perdeu como se se tratasse dum pugilato à trois.
No dia seguinte, nas parangonas da imprensa, rádio e televisão, não faltaram comentadores para atribuírem medalhas à performance de Mario Dumont, Jean Charest e André Boisclair. Do ouro ao bronze, como numa prova desportiva, os resultados variavam segundo as simpatias políticos dos interessados, donde se pode concluir que o debate só deve ter servido para confirmar os que já estavam decididos nas suas decisões e a manter os indecisos nas suas indecisões até à boca das urnas.
O último assunto do debate tratava do futuro político do Quebeque o qual devia ser, afinal o único ponto a discutir visto que dele dependem todos, seja a Saúde, a Educação ou a Economia.
Quando sabemos que o Parti Québécois, com possibilidades de ganhar, tem vindo a prometer fazer um referendo sobre a independência do Quebeque, logo no primeiro mandato, quer dizer que todas as energias vão ser postas a catequizar os eleitores para as vantagens desta opção. O tempo, o dinheiro e a energia que deverão por na gestão do estado será relegado às urtigas para se concentrarem na opção da sua principal razão de existir, a separação do Quebeque do resto do Canadá. Aliás André Boisclair não se coibiu de sublinhar o seu leimotiv nesta matéria afirmando que vai percorrer as regiões como primeiro ministro do Quebeque para lhes provar as vantagens de viverem num país independente.
Com um tal programa, Jean Charest, o federalista por excelência, tinha ali lenha para alimentar o debate, mas por razões que os seus estrategas lhe devem ter soprado, achou por bem manter a discussão sobre a constituição num tom morno e sem a veemência a que nos tinha habituado noutras ocasiões.
Um facto, todavia, merece ser sublinhado nesta campanha. A subida inesperada da Acção Democrática do Quebeque de Mario Dumont, a ponto de haver quem pense seriamente que vai haver um governo minoritário, o que seria um facto inédito desde há pelo menos 100 anos. Embora a ADQ seja o partido de um homem só e o único partido declaradamente conservador de direita, o que vai contra toda a tradição centro-esquerda da liderança política do Quebeque dos últimos 40 anos, a verdade é que Mario Dumont conseguiu manter em vida um partido moribundo, sem organização nem dinheiro, apenas motivado pela ideologia do «bom senso» como os republicanos de Bush ou do antigo primeiro ministro do Ontário Mike Harris. (Como diria o outro para todos os problemas complexos há uma resposta simples. O problema é que é uma resposta errada!)
Os seus contendores neste debate bem tentaram provar que ele não tinha o arcaboiço dum primeiro-ministro, mas, a avaliar pela vox-populi do dia seguinte, o facto de ter sido o alvo dos ataques só serviu para aumentar a sua estatura política e enfatuar o seu narcisismo.
Se até aqui as frentes sindicais conseguiram desacreditar a ideologia da ADQ e relegar este partido para um papel de figurante, a verdade é que a nova estratégia de Dumont, a de se atacar aos imigrantes e de por as regiões contra Montreal (a impura), parece estar a dar bons resultados. Infelizmente, no debate de terça-feira, os outros dois chefes, tanto Charest como Boisclair, também não fizeram nenhum esforço para defender Montreal. É sabido que a metrópole do Quebeque, apesar de ser o coração económico da província, é a enteada da madrasta. A carta eleitoral está assim feita que as regiões, embora pouco povoadas, têm mais deputados que os meios urbanos, a tal ponto que um voto das regiões vale dois votos de Montreal. Mas não será para tão cedo que um partido político se vai atrever a corrigir esta injustiça porque são os quebequenses impuros1 que são as principais vítimas.
O debate não ficou por aqui, em empate. Os próximos dias vão ser cruciais, sobretudo após o anunciado budget federal que vai aí com um manancial de presentes eleitorais para Charest e Harper.
A caça ao voto vai-se intensificar a olhos vistos.
1 - Visto que os nativos de origem francesa se consideram entre si «des pure-laine» nós somos por conseguinte «des impures-laine»

Montreal,Qc, Canadá


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