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rss  Vol. IX - Nº 129         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020
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Dia – Crónicas

Roubo civilizacional

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Com uma avó nascida em Providence, tenho família espalhada há muito por estas terras.

E bem para norte. A Diana, filha de um primo, trabalha numa livraria do aeroporto internacional de Toronto.

Há anos. Intrigada, pediu ao pai para me perguntar a razão de nunca encontrar um português na livraria,

sabendo ela haver tanto tráfego luso naquele aeroporto.

Propus ao pai a explicação de os portugueses serem poliglotas afamados. Certamente, por não esperarem

deparar na livraria com empregados falantes da sua língua, usavam o inglês e o francês, que falam sempre com

fluência, a ponto de ela nem sequer notar.

Não sei se a Diana terá sido convencida. Pelo menos bem poderá quedar-se na dúvida e assim não há-de ficar

com má impressão da cultura dos seus antepassados. É uma mentira étnica, daquelas a que os emigrantes têm de

recorrer para não andarem a acumular recalcamentos deprimentes por se sentirem sistematicamente a perder

nestes confrontos com outras etnias. Mas ao pai, o Eddy, contei uma das minhas estórias favoritas, de quase

vinte anos:

Um empregado da Brow veio ter comigo. Semblante preocupado e ar de quem precisava. Em português: Tinha

um grande favor a pedir-me. Sabia que eu era o autor de um livro, Ah! Mònim dum corisco!..., e queria que lhe

vendesse um exemplar.

Desconversei. Comprar um livro que eu supunha divertido não era caso para tanta compunção. Teve de

explicar-se: trabalhava há anos na universidade e limpava o gabinete de um professor que tinha muitos livros

portugueses. Ele, que gostava muito de ler mas não tinha possibilidades de acesso a obras portuguesas em terras

de emigração, começou a levar para casa de cada vez um dos livros do tal professor. Lia-o depressa e voltava a

pô-lo exactamente no sítio de onde o tirara. Deixava passar uns dias e repetia a aventura. Mas sempre com

medo não fosse apanhado.

O processo funcionou durante anos até um famigerado dia em que levou para casa o tal livro. Alguém em casa

começou também a ler, ao que parece gostou e passou a palavra ««porque o livro era de rir»». De repente, não se

soube mais do paradeiro dele. ««Já lá vão duas semanas. Procurei tudo quanto era sítio para comprar um,

telefonei para Portugal, mas nada. Até que me enchi de coragem e vim confessar, pedindo-lhe pelo amor de

Deus que guarde segredo.»»

Eu não tinha exemplares para oferecer. Cedi-lhe o único de que dispunha, mas não lhe prometi resistir a contar

a história ao meu colega – percebi logo de quem se tratava. Ficasse ele descansado, pois nada aconteceria.

Rogou-me insistentemente para não dizer, mas garanti-lhe que George Monteiro era um grande amigo e até

acharia imensa piada ao caso.

O Eddy concordou na raridade não representativa do caso. (Um jornalista luso-americano costuma dizer

existirem dois negócios no mundo de antemão condenados à falência: vender frigoríficos no Alaska e vender

livros às comunidades portuguesas).

Mais atarantado ainda ficou quando lhe disse que o senhor era cabo-verdiano. Bem negro. E falta agora contar

lhe que, na semana passada, quando nos encontrámos na escola para uma reunião de pais – temos filhos da

mesma idade no secundário – me informou todo orgulhoso da intenção do seu rapaz mais velho de vir para

Brow fazer estudos de pós-graduação. Acaba este ano a licenciatura em Engenharia no MIT.

Pode parecer história do Readers’Digest, mas vai sem ficção nenhuma. Para estragar clichés.

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Com uma avó nascida em Providence, tenho família espalhada há muito por estas terras.
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