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rss  Vol. IX - Nº 129         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 23 de Outubro de 2020
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Adivinha-Chuvas

Ferreira Moreno

Por Ferreira Moreno

Novembro despediu-se com chuviscos arreliantes e Dezembro apareceu logo em cena com «carretos» de aguaceiros fustigantes. Foi então que, num lampejo de magia, a persistência da chuva «desatracou» o tema p’rá crónica de hoje. Nada mais, nada menos, do que a curiosa expressão usada pelo saudoso «Mestre» Carreiro da Costa, na série «Tradições, Costumes & Turismo» em Dezembro de 1972.

No caso presente estou a referir-me, evidentemente, ao expressivo título «Adivinha-chuvas», ou seja, aqueles fenómenos e factos que, segundo a crença popular, constituem autênticos prognósticos adivinhando, até certo ponto e medida, a chegada da chuva. Por exemplo, sabemos que as nuvens, conforme a sua configuração e natureza, aparecem-nos frequentemente como prenúncios de chuva próxima...

É, porém, vasto e largo, este aspecto de crendices populares e sugestivas, a que devemos acrescentar os chamados adágios meteorológicos. Tanto assim que, já no distante ano de 1850, o Padre João José Amaral havia apontado, como «sinais» de chuva próxima, as seguintes particularidades:

A ferrugem caindo da chaminé; a água borbulhando nos charcos; os patos esvoaçando inquietos; as abelhas entrando precipitadamente nos cortiços; as ovelhas teimando em quedarem-se nas pastagens; os morcegos tolhendo-se nos seus esconderijos; os bois arrebanhando-se e as vacas sorvendo o ar; os carneiros ou as cabras marrando-se entre si; os porcos espalhando a comida; os gatos lambendo-se e escovando as cabeças; os cães raspando a terra, comendo erva ou uivando.

Ainda hoje recordo com interesse tudo quanto aprendi escutando os «antigos», cuja inata perspicácia os habilitava a descobrir as «mudanças» do tempo. E isto só pela inspecção do céu, pelo andamento das nuvens e dos ventos, pelo grito dos animais, pela visão ao nascer do sol e no momento de mergulhar sob o horizonte!

No seu precioso livrinho «Ao Espelho da Tradição», o bondoso e ilustre Padre Ernesto Ferreira escreveu que o nosso povo «vivendo da terra e do mar, e isolado numa ilha, tendo em baixo a imensidão das águas e em cima a cúpula do firmamento, muito naturalmente é levado a ler nos elementos as mudanças que sofre o tempo».

Convém recordar que, antigamente, a maioria da nossa gente não frequentava escolas e observatórios, possuindo tão-somente o tesouro de conhecimentos advindo pela tradição de sucessivas gerações. É certo que, por vezes, surge a superstição a ofuscar o bom senso, mas ao fim e ao cabo são merecedoras do nosso interesse e admiração todas estas expressões do sentimento popular, visto basearem-se quer na experiência pessoal quer na observação local.

Rocha Peixoto, em «Etnografia Portuguesa» (Edição de 1990), confirma o que acima deixei dito ao afirmar; «Decerto que com alguns destes e outros prognósticos nem sempre condiz a realidade ulterior dos factos. Mas em muitos a experiência assegura a certeza, tanta e precisa como a tem o aldeão, e o serrano principalmente, quando se orienta».

Eis umas ligeiras «amostras», relativas à chuva, extraídas do velho livrinho «Adágios Portugueses», publicado em Lisboa em 1923, da autoria do Padre António Delicado:

«Se não chover entre Março e Abril, venderá El-Rei o carro e o carril; A vindima molhada acaba cedo aliviada; A Inverno chuvoso, Verão abundoso; Março ventoso e Abril chuvoso, do bom colmear farão astroso; Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março mulinhoso, Abril chuvoso e Maio ventoso, fazem o ano formoso; Sol na areia, chuva no nabal; Manhã ruiva, ou vento ou chuva; Verão fresco, Inverno chuvoso, estio perigoso; Sol roxo, chuva a olho; Não hei medo ao frio nem à geada, senão à chuva porfiada; Tempo traz tempo e chuva traz vento; Chuva de trovão em partes não».

Do segundo volume «Adagiário Popular Açoriano», do Dr. Cortes Rodrigues, apenas transcrevo os seguintes ditados: «Aranha por fora, não tarda a chuva à porta; Chuva goteira, mulher trameleira, põem um homem na rua; Candeia a espirrar, nuvens a chorar; Calor em tempo frio, chuva por castigo; Barra vermelha, chuva na orelha; Gato doido, chuva de moio; Gaivotas pelas portas, chuva pelas grotas; Lua com circo, traz chuva no bico; Mosca impertinente, chuva de repente; Nascente anuviado antes do Sol nado, dia molhado; Sapo a cantar, toupeira a minar, deixa chover e senta-te ao lar».

E p’ra não me alongar mais, termino já esta crónica com este derradeiro conselho: «O tempo, a chuva e a maré, não esperam por ninguém!».

Crónica
Novembro despediu-se com chuviscos arreliantes e Dezembro apareceu logo em cena com «carretos» de aguaceiros fustigantes. Foi então que, num lampejo de magia, a persistência da chuva «desatracou» o tema p’rá crónica de hoje.
Adivinha-chuvas.doc
 
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