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rss  Vol. IX - Nº 129         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020
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Cinco Tostões do Tio Augusto

Manuel Calado

Lembro-me do Tio Augusto Perrães. Era um homem baixote, que punha gatos em pratos e alguidares, e tocava sanfona. A sanfona era um velho harmónio que ele trouxera de Espanha, e gostava de tocar para quem o quisesse ouvir.

 

O Tio Augusto foi um das personagens que entraram e deixaram mócega na minha alma de menino. Era ele um dos andantes e pobres de pedir que periodicamente vinham assentar arraiais em nossa casa. Especialmente no inverno em que o tempo era chuvoso e frio. Por lá pernoitavam uma, duas ou três noites a fio, no palheiro e no celeiro das batatas e dos caixões de milho. Tio Augusto era da Bairrada, da terra de minha mãe, e esta era uma afinidade quase familiar que a levava a fazer-lhe uma cama mais confortável, com esteiras de tábua, sacos e mantas de farrapos. E eu, rapazinho dos meus sete ou oito anos, se tanto, tinha por ele, também, uma certa simpatia.

 

Meu pai, que não era apenas calado no nome, tolerava a presença do tio Augusto e dos outros pobres, mas não lhes dava muita trela. Minha mãe, com o seu instinto de enfermeira de Deus, é que tratava dos pobres, que no inverno se vinham aquecer à lareira da «cozinha velha». A cozinha velha, era o lugar onde ela cozinhava as paneladas de batatas, couves e milho, para dar aos porcos da ceva, que engordavam como elefantes, e aguardavam, pacientes, a hora da matança.

 

Tio Augusto, de dia, dava as suas voltas pelas terras da freguesia, consertando com os seus gatos milagrosos, tigelas, pratos, alguidares e as célebres frigideiras de barro negro, onde minha mãe cozinhava o carneiro das festas. Eu gostava de vê-lo trabalhar. Com uma sovela, fazia um furo de cada lado da quebradura, depois cortava um aramezinho que achatava com um martelo, colocava o gato num dos furos, e fazia um buraquinho do outro lado, encaixava, amassava um pouco de gesso, cobria o gato, e era nestes cacos remendados que os pobres comiam o seu caldo de couves e batatas.

 

Tio Augusto, depois das voltas pelas terras vizinhas, à noite vinha dormir à nossa casa. Mas quando o mau tempo o não deixava sair, ele ficava por lá vários dias. Eu, rapazinho, gostava de ouvi-lo tocar na concertina, as modinhas que ele havia aprendido em Espanha, onde vivera muitos anos e onde aprendera a arte. Não sei se tio Augusto tocava alguma coisa de jeito. Mas eu gostava do som do harmónio e às vezes, ele cantava também umas espanholadas. Nas suas andanças, tio Augusto entrava nas tabernas e bebia o seu copo, e às vezes chegava com a língua a pegar-se ao céu-da-boca. E gostava de sanfonar na concertina. Meu pai afinava, embora pouco dissesse, mas eu gostava da música. E então ele dizia a minha mãe: «olha, lá está o teu hóspede, quer ceia e cama». E minha mãe, que era uma verdadeira «coluna de Evangelho», lá ia com a sua humanidade toda, tratar do seu conterrâneo. Porque a terra onde se nasce, cria realmente uma afinidade difícil de explicar.

 

Lembro que o Tio Augusto, na sua pobreza franciscana, era generoso. Metia-me no bolso figos passados, e naquele dia deu-me cinco tostões! Eu recusei, disse que não queria, mas ele meteu-me os cinco tostões no bolso das calças quase à força. Cinco tostões, naquele tempo eram uma pequena fortuna. A única pessoa que me dava cinco tostões, quando eu, pela matança do porco, ia levar sarrabulho e febras aos vizinhos, era a prima Fernandina. Os outros vizinhos davam um tostão, às vezes dois, e era quando era. Mas naquela véspera de Natal, tio Augusto já com uns copinhos, estava contente, sentado à lareira da cozinha velha, e eu pedi-lhe para tocar na concertina. Mas meu pai que não gostava de dar muita confiança aos «hóspedes» de minha mãe, e como tinha umas visitas na cozinha nova, veio interromper o concerto, para meu desgosto. Disse ele que não queria ouvir mais música. Tio Augusto meteu a «gaita» no saco, e reduziu-se ao silêncio. Minha mãe, como era habitual, serviu-lhe comida, e no final, tio Augusto teve também as rabanadas tradicionais da noite de Natal. E eu, de tempos a tempos, ia admirando a moeda dos cinco tostões que o tio Augusto me havia dado. E lamentando que ele não pudesse tocar mais.

 

Lembro que nessa noite, estava lá um outro «hóspede», o Tio Francisco «rachador». A especialidade desta alma só, sem eira nem beira, era rachar lenha. Trazia com ele um lindo machado, com uma folha larga, espalmada, como os machados dos serradores. Tio Francisco tratava aquele machado, como se fosse o seu maior tesouro. E era. Esse homem ficava lá em casa semanas a fio, a rachar lenha. Um dia fiz-lhe perguntas sobre a sua vida. Tio Francisco, que era dum lugar chamado Apiada, disse-me então, que a mulher o deitara fora de casa, e que a única coisa que pôde trazer consigo, foi o machado. E era com o machado que ele andava de terra em terra, e em vez de pedir esmola oferecia-se para rachar lenha, apenas pela comida e dormida, e qualquer peça de roupa usada.

 

Nessa noite da véspera de Natal, numa pequena mesa à beira do lume, minha mãe pôs-lhes a ceia, e no fim, umas filhós para ambos. Não me recordo qual deles tirou mais do que o outro, e iam andando quase à pancada, até que minha mãe veio a correr, a fim de estabelecer a paz entre aqueles dois irmãos de S. Francisco, os seus «hóspedes».

 

Enquanto eu, apertava na minha mão de menino, os cinco tostões do tio Augusto da concertina…

Crónica
Lembro-me do Tio Augusto Perrães. Era um homem baixote, que punha gatos em pratos e alguidares, e tocava sanfona. A sanfona era um velho harmónio que ele trouxera de Espanha, e gostava de tocar para quem o quisesse ouvir.
5 Tostes do Tio Augusto.doc
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