Luís Miranda, um apaixonado da sua Anjou...
Mas descontente pela fusão
Por Jules Nadeau e Norberto Aguiar

«Será que os nossos serviços se deterioraram nos últimos dois anos em Anjou?», lança-nos Luís Miranda que sabe muito bem que um de nós vive no seu «château-fort». O grande orgulho deste político de 25 anos de experiência na Função Pública é de continuar a manter os serviços de proximidade como antes da fusão. «Não se passa uma semana que eu não dê uma volta pela cidade. Um eleito deve ser responsável!»

No seu escritório eleitoral das Galerias de Anjou, os pormenorizados mapas mostram os 140 km de ruas para 40 mil residentes. Uma meia dúzia de trabalhadores eleitorais debruçam-se sobre a lista de eleições de 30 mil nomes, dos quais 25% são de origem étnica, dentre eles 900 portugueses.

Muito seguro de si, o homem de camisa azul e de colarinho aberto baseia toda a sua argumentação no facto de que um partido político local, como Équipe Anjou, e um presidente de Freguesia como ele são muito mais capazes de servir o cidadão que uma «grande burocracia como a da Câmara Municipal de Montreal com o seu 1,8 milhões de população». «Vejam Bóston com as suas 214 municipalidades», lança-nos o político anjoense ao mesmo tempo que sublinha o desinteresse dos cidadãos pelas grandes cidades.

Luís Miranda, que queria limitar a duração da entrevista, jubila portanto ao despejar o saco contra o desperdício e o absurdo da fusão. Os exemplos abundam. (1) As taxas recuperadas em Anjou passaram de 66 a 100 milhões de dólares para contentar o enorme apetite de Montreal. (2) As taxas das Galerias de Anjou subiram de 6 a 10 milhões de dólares por ano, que são refilados aos comerciantes agora menos prósperos e que pagam os seus próprios serviços. (3) Os quadros de Montreal viram os seus salários aumentados em 6,5% o que os põe em fúria por causa do seu pequeno aumento de 2,5%. (4) O salário do director-geral da Freguesia de Anjou passou de 104 000 para 116 000 dólares com menos trabalhadores municipais e foi ainda aumentado de 6,5%. (5) Por fim, é preciso pagar os «cols blues» a 19,50$ à hora para cortar a relva no próximo Verão em vez de pagar estudantes a 9,50$. Em suma, onde está a economia de escala? E os anjoenses pagam eles próprios os milhões do seu Parque Industrial (620 empresas), o segundo depois do de St-Laurent.

Postos de trabalho para as gentes das Comunidades? Aqui, a resposta surpreende. «É preciso que essa gente ocupe o seu lugar. Mas é preciso dar provas», diz Luís Miranda que lembra ter sido engajado como bombeiro num grupo de 67 escolhidos em 1000 candidatos, em 1974. A competência deve primar. «E o que é que se faz com as mulheres, que são 50% da população?»

Homem dos Açores que aqui chegou muito jovem, esquina das ruas Beaudry e Ontário, adaptou-se desde logo à vida montrealense. «Chegámos. Agora integremo-nos!», decidiu o seu paternal. Luís Miranda admite que foi a política que o encaminhou para a sua comunidade de origem. E por isso agora fala muito melhor o português. «Ao envelhecer, diremos que as raízes sentimo-las um pouco mais... E hoje sinto-me orgulhoso que os meus filhos tenham pedido a nacionalidade portuguesa».

Mais açoriano ou mais anjoense? Mistério tão profundo como o da Atlântida. Mas uma coisa é certa, terminada a entrevista e feita uma pequena análise, fácil é constatar que este homem tem uma verdadeira paixão pelos 16 quilómetros quadrados de território que administra. De resto, ao repetir a escuta da micro-cassete, uma frase sobressai: «A política apaixona-me. Ainda tenho muito para fazer!»

As suas previsões para o dia 6 de Novembro? «Gérard Tremblay vencedor, mas minoritário. Pierre Bourque perderá por cinco pontos».