Isabel dos Santos:
«Sou uma mulher de cultura.»
Por Jules Nadeau e Norberto Aguiar

No local da rue Gilford, Isabel dos Santos está ladeada por dois mandarins de experiência. À sua direita, Michel Prescott, 23 anos de vida política activa. Depois, Helen Fotopulos, presidente da Junta de Freguesia do Plateau Mont-Royal. Entre os seus anjos da guarda, a aspirante a política reafirma diversas vezes as suas raízes portuguesas e montrealenses. «Vivo cá desde há 15 anos e há 15 anos que estou no Plateau. Sou uma mulher de cultura. Estou implicada na comunidade através daquilo que posso fazer: o teatro. Trabalhei com crianças em português para que elas aprendessem a língua com prazer». A presidente Fotopulos confirma com um sorriso aprovador: «Fomos buscar uma activista da cultura».

Domingo à tarde. A nossa entrevista faz-se na mais rigorosa disciplina. Um único toque de telemóvel durante mais duma hora. O maior respeito pelo nosso jornal. Nada de fumo. Nem mesmo uma gota de café para distraimento.

A animadora Isabel dos Santos fala simultaneamente de «Lusofonia montrealense» para o seu bairro de Jeann-Mance, de «origens portuguesas» e de «modernidade», assim como da necessidade de chegar a um consenso junto de todos os quebequenses do país de Camões. Mesmo se ela nasceu no Continente, a diplomada do Conservatório Nacional de Lisboa preocupa-se com o Parque dos Açores, ligado às crianças, e insiste sem parar sobre a necessidade de estar à escuta de todos. Michel Prescott aproveita para refazer a história desse parque, e afirma: «Prometemos reorganizar este parque à moda açoriana. Está no calendário!»

A reorganização do boulevard St-Laurent? Uma questão complexa. Michel Prescott pergunta «que dosagem é preciso acordar à Comunidade Portuguesa visto o carácter multi-étnico da grande artéria. Também há a vontade de diversos interessados de todos os horizontes em sublinhar o carácter in, a culinária, a informática... desta rua por oposição às múltiplas origens étnicas.»

E a ideia do bairro português? Helen Fotopulos responde citando como exemplo os gregos de Montreal que têm dificuldade em se entenderem. Um estudo foi pedido. Alguns privilégios, também aqui, e um conceito post-Jogos Olímpicos de Atenas de 2004. «Uma ideia não muito tradicional... Que me entusiasma!»

Postos de trabalho na Função Pública? Contrariamente ao número um da Freguesia de Anjou, Luís Miranda, que privilegia a competência primeiro e antes de tudo, os nossos três candidatos presentes são muito favoráveis mas com nuances. Isabel dos Santos deixa facilmente adivinhar a sua opinião: «A Comunidade portuguesa já deu tanto a Montreal», ajuntando que os seus compatriotas são antes de mais «tímidos e gentis». Por vezes demais? Por conseguinte, ocupemos o nosso lugar!

Michel Prescott afirma mesmo que «40% dos postos de trabalho devem ir para os membros das Comunidades... a prazo». Mas esse «prazo» pode querer dizer dentro de 10 ou 15 anos. «É altura de apresentar candidaturas», diz, considerando que estamos a viver um novo período, onde haverá cada vez mais pessoas a passar à reforma. Helen Fotopulos sugere aos estudantes a apresentação de candidaturas aos empregos de Verão da Freguesia mesmo no período escolar, altura em que os postos a preencher são mais difíceis. Quantos representantes étnicos na Função Pública do Plateau Mont-Royal? Difícil encontrar números exactos no decorrer desta entrevista.

A poucos dias do dia 6 de Novembro, algumas setas foram naturalmente apontadas do campo Tremblay ao campo Bourque. Isabel dos Santos critica Pierre Bourque por ter recrutado uma outra portuguesa, Natércia Rodrigues, a fim de dividir o voto português do bairro. Michel Prescott critica o mesmo adversário que quis «voltar cinco anos atrás», em 1994, «ao tentar pôr de lado todos os meios de consulta existentes na Câmara». Habitação social e abordável? «Nenhuma administração fez mais do que nós, nem mesmo no tempo do RCM», concluiu orgulhosamente o ex-dirigente daquela formação política.

Por fim, Helen Fotopulos replica a Luís Miranda de Anjou que os aumentos de 6,5% para os quadros da Câmara não é outra coisa que responder à necessidade de ajustar os salários dos funcionários municipais relativamente ao sector privado a fim de poder continuar a ter pessoal qualificado.