ESCRITORES DA LUSOFONIA
FERNANDO NAMORA
Por Vitória FARIA

Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova em 1919. Tendo-se licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1942, foi na sua terra natal que abriu o primeiro consultório. Mais tarde, seria médico noutras localidades da Beira Baixa, no Alentejo e finalmente no Instituto de Oncologia em Lisboa.

Fernando Namora

Os casos de médicos que dão em poetas ou romancistas não são raros na nossa literatura. O de Fernando Namora é um dos mais brilhantes. Antes mesmo de acabar os estudos, e enquanto dirigia o jornal académico do Liceu, escreveu o seu primeiro livro Almas sem rumo, em 1935. Em 1938 é a publicação do primeiro livro de poemas Relevos e de As sete partidas do Mundo, o qual ganhou o Prémio Almeida Garrett.

Os livros seguem-se ano após ano. Em 1940 outro livro de poemas, Mar de Sargaços, no ano seguinte Terra e, no ano em que começa a exercer a sua carreira de médico, outro romance, Fogo na Noite Escura.

Em 1943 muda-se para Tinalhas (Castelo Branco) e escreve uma primeira novela Casa da Malta., a qual será publicada dois anos mais tarde.

No ano seguinte a sua primeira e única exposição individual de pintura, em Castelo Branco. O seu talento já tinha sido reconhecido em 1938 ao ser-lhe atribuído o Prémio Mestre António Augusto Gonçalves.

Em 1946 passa a residir no Alentejo, em Pavia e publica o romance Minas de San Francisco.

Três anos depois é a vez do seu mais famoso livro, directamente inspirado da sua vivência quotidiana de médico de aldeia, Retalhos da Vida dum Médico. O livro obtém o Prémio Vértice e, muitos anos mais tarde, será adaptado para a televisão.

Os livros seguem-se a um ritmo um pouco mais moderado, mesmo assim espantoso para quem não abdica de nenhuma das facetas da sua carreira. Assim, em 1950 publica A Noite e a Madrugada, em 1952 Deuses e Demónios da Medicina e recebe o Prémio Ricardo Malheiros pela nova versão de Minas de San Francisco. Seguem-se O Trigo e o Joio (1954), O Homem Disfarçado (1957), Cidade Solitária e As Frias Madrugadas, colectânea de toda a obra poética (1959) e em 1960 Domingo à Tarde, galardoado com o Prémio José Lins do Rego e levado ao cinema. E a série continua. Em 1971 sai Os Adoradores do Sol, no ano seguinte Os Clandestinos e recebe o Grande Prémio Sopem. Segue-se o livro Estamos no Vento e mais um volume da série Cadernos de um Escritor intitulado Nave de Pedra.

Em 1977, para comemorar os 25 anos da primeira edição, sai uma edição especial dos Retalhos da Vida de um Médico, ilustrada pelo pintor Júlio Resende.

Nos anos oitenta publica Rio Triste (82), que ganha o Prémio Fernando Chinaglia, Nome para uma Casa (poemas), Sentados na Relva, mais um volume dos Cadernos de um Escritor e URSS, Mal Amada, Bem Amada. No mesmo ano (1986) é adaptado ao cinema Resposta a Matilde.

Em 1988, ano do 50 ano de vida literária, publica Jornal sem Data e é agraciado com a Grã Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique.

O ano seguinte é o da sua morte em Lisboa.

A longa enumeração da obra de Fernando Namora não é exaustiva. Para além das obras de poesia e dos romances citados, há ainda volumes de contos, memórias e impressões de viagem.

A sua obra, profundamente marcada pelas experiências humanas da sua vida de médico, revela uma grande capacidade de análise psicológica, e ao mesmo tempo uma grande carga poética. Fernando Namora foi traduzido e publicado em toda a Europa, nos Estados Unidos, no Brasil e Canadá, e mesmo em certos países africanos.

Pequeno extracto do romance O Trigo e o Joio, publicado em 1954 e adaptado ao cinema:

A vila é uma rua. Vem do alto dos eucaliptos pedindo licença à planície para lhe interromper o sono, atravessa uma encruzilhada de estradas para onde corre o aceno de Espanha ou do mar e, bruscamente, num ímpeto de ousadia, trepa ao planalto ao encontro de uma igreja que foi coito de moiros e abades, e ali se fica, arrogante, a desafiar o pasmo da campina. À volta da igreja, as casinhas brancas, com altas chaminés que lhes furam o dorso atarracado, fecham-se num reduto que a voracidade calma do trigo não consegue romper. As mulheres vêm ansiosas às portas saber quem chegou, caçar uma novidade em primeira mão ou inventá-la, se for preciso; os homens vestem samarrões de pele de ovelha e falam e caminham lentos, austeros; os garotos correm aos sítios em que a bolota cai das árvores no regaço do mato, pela graça de Deus. Ao longo da rua há tabernas, onde o rumor brando da vida se encrespa, às vezes, em redemoinhos. Muitas tabernas. Os camponeses, depois do trabalho, sentam-se junto do balcão, apoiam os cotovelos no mármore da mesa, e ouvem. As palavras fatigam. E, por isso, um homem que saiba atirar com uma frase bem recheada e oportuna preenche uma boa hora de cogitações. Às vezes, à vila, chega gente vária. São pedras atiradas a um lago adormecido.