Editorial
Por um Quebeque lúcido?
Por Carlos de Jesus

Por razões bem diferentes das que motivaram os doze do manifesto «Pour un Québec lucide» também penso que uma boa parte do Quebeque precisa de ver mais claro. A lucidez, pelos vistos, não é um produto com muita procura nos tempos que correm. E a continuar assim ainda vamos acabar por cair todos num estado de cegueira colectiva.

Desculpem-me se generalizo (tanto mais que ninguém tem a exclusividade nesta matéria) mas a coisa é mais grave aqui. Aqui neste Quebeque que se procura e se deixa embalar pelo canto das sereias.

Uma boa franja da opinião pública quebequense, particularmente a mais nacionalista, deixa-se levar facilmente, na minha opinião, pelos slogans de certas elites, das elites que «os afagam no sentido do pêlo». Elites que têm o mérito de ter sabido elevar a arte do slogan comercial à afirmação duma verdade incontestável. Elites que além de terem o verbo fácil e imaginativo, souberam ocupar todo o espaço mediático. Do tribuno populista à canção popular, passando pelo intelectual à go-go; da Rádio-Canada à «La Presse», passando pelo «Devoir»; dos Falardeau aos Loco-Locas, passando pelos Foglias, a arena da confrontação ideológica está em vias de morrer, submersa pela vociferação, pela intimidação intelectual, pelo slogan da verdade revelada.

Não admira que as sondagens nos revelem uma opinião pública que parece favorecer mais a facilidade das fórmulas todas feitas que a análise fria da realidade. A reacção da «inteligentzia» quebequense ao manifesto encabeçado por Lucien Bouchard, é uma prova do que avanço. Concordo que as soluções propostas no dito manifesto são discutíveis, mas os problemas que estão na origem são incontestáveis. O Quebeque tem uma dívida pública das mais pesadas de todo o Continente; a população está a envelhecer e a baixar; a produção industrial está ameaçada pela nova conjuntura mundial. A ameaça dum desastre social e económico já se vislumbra no horizonte das gerações actuais se não se buscarem novas alternativas ao modelo actual.

Face a esta constatação que ouvimos nós nas tribunas públicas? Que se trata dum velho discurso da direita ou, melhor ainda, um discurso neo-liberal. Os slogans! Sempre os mesmos slogans! No entanto a realidade está aí, à frente dos olhos de quem a quer ver. O Quebeque paga 7 mil milhões de dólares por ano só em juros sobre a dívida pública. (E estamos com sorte porque as taxas de juro estão baixas). Com uma taxa de natalidade das mais baixas, o Quebeque é ainda um dos campeões mundiais dos abortos e dos suicídios. A esta triste realidade vem juntar-se o facto de ter dois handicaps no que diz respeito à competição com os seus vizinhos canadianos e americanos relativamente à atracção de novos imigrantes a questão nacional e a questão da língua. E no campo económico, basta verificar que enquanto a produção asiática aumenta de 50 por cento desde o ano 2000, a produção têxtil do Quebeque baixou de 40 por cento no mesmo período.

Mas todas estas questões parecem levantar poucas preocupações na opinião pública. Pelo menos até agora. Os slogans continuam a martelar que a culpa é do governo. Que o dinheiro está em Otava, que se fôssemos independentes, seríamos mais ricos e felizes!

E há quem vá acreditando. Acreditando até ao ponto do absurdo. Dizem-lhes que são gente tolerante e de vanguarda. E vai daí estão prontos a eleger para o cargo de chefe do Partido Quebequense e eventualmente para primeiro-ministro dum país independente, um homossexual com uma história de problemas de droga.

Tenho alguma coisa contra um candidato a primeiro-ministro homossexual? Tenho, se o candidato não só se propõe a governar mas a construir um país independente. Tanto quanto sei que não são dos casais homossexuais que vão sair os filhos fortes da nação. Tenho alguma coisa contra os políticos que se drogam com cocaína no exercício das suas funções ministeriais? Não só contra os ministros mas contra todos quantos não têm a força de carácter, a fibra moral e a decência de se afastarem de tais drogas. Não se trata aqui de fumar um cigarro de marijuana, mas duma droga dura, que impede o julgamento lógico do drogado que o pode levar a tomar decisões irresponsáveis por um lado, e por outro a ter que lidar com bandidos, com os fornecedores das ditas drogas. Se isto é moralmente indigno, e um acto criminoso para o comum dos cidadãos, que dizer dum ministro? No entanto, a máquina dos slogans, a complacência da imprensa, a decadência moral dos seus líderes deixam passar isto como cão por vinha vindimada.

Falando ainda de slogans não posso terminar sem me referir ao novo slogan que começou a circular ultimamente, na sequência do inquérito do Juiz Gomery sobre o escândalo dos programas publicitários patrocinados pelo Governo Federal com que se abotoaram à grande e à francesa os publicistas e os amigos do regime. O novo slogan dos nacionalistas é que o último referendo lhes foi roubado pelo dinheiro de Otava. Já tínhamos a versão ainda vivíssima do referendo roubado pelo voto étnico e pelo dinheiro, mas o novo moto agora é que o «SIM» perdeu por causa dos milhões que Otava gastou em propaganda. Onde estão os jornalistas para virem repor a verdade dos factos? O referendo foi em 1995 e o programa dos patrocínios federais que degenerou em escândalo começou em 1996, ou seja, foi criado exactamente como resposta (mal inspirada) ao resultado desastroso do campo do «NÃO». E é assim, com slogans, que se tenta fundar um novo país?

Como muito bem se diz «lá em baixo», «com papas e bolos se enganam os tolos».