Tribuna
Carta para o Céu
Por Manuel Calado

Meu caro Pai e irmão do Céu.

Desculpa a insistência do meu pedido.
Como sabes, já te escrevi há tempos
Mesmo sabendo que a resposta não viria.
A governação das imensas galáxias do teu reino
Não te deixam tempo para pensar
No estulto pedido deste simples «parafuso»
Da tua máquina divinamente complicada,
Desde o infinito universo às ínfimas partículas do meu ser.


Às vezes desejaria ter a fé lavada e simples de minha mãe:
Certa, convicta, conhecedora do desconhecido.
Sem desejo de discutir o indiscutível,
Feliz na sua certeza ensinada em gerações
De rezas, súplicas, pedidos e exorcismos.
Nunca uma nuvem de dúvida a empanar
O sol radiante da sua vida sem história.
Plena e total entrega à «cruz» da sua existência
De trabalho, sacrifício e humilhação.
Sem nunca perder a confiança de que
Aquele a quem pedia, não a esqueceria jamais.
A mim, deixaste um diabinho de longa rabasola
Pulando de contente dentro da arca da razão,
A bitola que me deste para medir o horizonte da vida,
Bisbilhotar a precisão do Universo que criaste
Desde os protões do átomo
Aos ínfimos contornos do X.
 

Apesar de saber que esta carta não terá resposta
Quero agradecer-te por não me teres dado
A fé abrasante, violenta, absoluta dos fanáticos
Que em teu nome vão incendiando o mundo
Desde as fogueiras da Inquisição
Aos guerreiros suicidas do Século Vinte e Um
Que, cobertos de sangue e de glória
Estão voando para Ti todos os dias
A dar-te conta dos seus feitos
Sujos do sangue, da carne
E da lágrimas dos inocentes.
 

Se Tu realmente ainda mandas no mundo
E te interessas pela nossa sorte
Não achas que seria oportuno mandar
Aos fanáticos que te adoram, um
Raio de luz que ilumine o seu bestunto?
Ou então, um «raio que os parta»?