Mariza... é Transparente
Entrevista de Ludmila Aguiar

Já tínhamos assistido a espectáculos seus. O primeiro foi no Festival de Jazz e o segundo no Spetrum, no decorrer da sua última visita a Montreal. Agora tivemos a responsabilidade de a entrevistar depois de presenciarmos o seu, para nós, terceiro espectáculo. E como rezou o texto/reportagem inserido na nossa última edição, a sua prestação do dia 30 de Setembro voltou a ser pouco menos que divina.

A seguir fica o registo da nossa conversa com uma artista extremamente acessível.

LP – Transparente é decerto o disco menos tradicional que criou?

Mariza – Não diria que é o menos tradicional porque de facto é. Mas diria o mais pessoal. O facto de ter viajado muito e ter conhecido diferentes culturas também se reflectiu na música que fiz.

LP – O que representa este álbum?

Mariza – É um álbum sobre a minha personalidade cada vez mais forte e madura. É um disco mais optimista, mais natural... feito de maneira simples. O álbum foi gravado no Rio, portanto um ambiente simples, belo e relaxante. É um disco que me reflecte completamente e por isso é «transparente». Sou simplesmente eu, não tenho nada a provar.

LP – Neste disco faz homenagens a três fadistas, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Fernando Maurício. De que maneira estes grandes fadistas a influenciaram?

Mariza – Influenciaram bastante. Fernando Maurício é um grande professor. Nunca me esqueci o que ele me disse: «Nunca deixes de cantar!» (risos). Amália Rodrigues, comecei a ouvi-la muito tarde, devia ter 16 ou 17 anos. Ouvi Amália Rodrigues por curiosidade, na rádio. A tradição oral é importante. Amália foi um «ícone» mas nunca poderá haver outra Amália!

LP – Sempre foi um sonho trabalhar com Jacques Morelbaum. Como foi a experiência?

Mariza – A experiência foi sensacional! Já há muito tempo que ouvia as coisas dele, era fã. Era um grande sonho... trabalhar com o Jacques nem que fosse uma canção. Acabou por ser um álbum inteiro. O disco foi gravado no Brasil precisamente porque é lá que o Jacques tinha todo o seu ambiente. Havia uma energia formidável entre nós. Tenho muita admiração por ele. O Jacques deixou-me ser, expor os meus sentimentos. Foi tudo muito natural, pessoal. Deixou-me ser eu própria porque há certos produtores que não deixem os artistas serem. E isso foi muito importante para mim. Foi uma experiência maravilhosa e inesquecível!

LP – Iniciaste uma digressão através do mundo. Será que sentes ainda um nervosismo quando estás em palco?

Mariza – Sim. E agora fico mais nervosa porque as responsabilidades são cada vez maiores e mais exigentes. Os amigos, o público; gosto de me referir a eles como os meus amigos... sinto-me mais confortável. Eles não são exigentes... eu é que sou!

LP – Estiveste já em Montreal. Como é o público montrealense versus o público português?

Mariza – Não há diferença entre eles. A diferença é a língua mas a música reúne todos; a música é universal.

Mariza apresentou um espectáculo magnífico e magnético que valeu dois standing ovations. Não tenho mais palavras para a descrever, a sua música, o seu espectáculo... o seu fado. Espero que Mariza não deixe de voltar a Montreal!

Um must: Transparente de Mariza disponível na HMV!