No Quebeque
«Imigração já representa dois terços da sua população»
Reportagem de Norberto Aguiar, em Quebeque

A Semana Quebequense dos Encontros Interculturais (SQRI), cujo tema este ano foi Juntos e diferentes para construir o Quebeque de amanhã, levada a efeito um pouco por toda a província de 2 a 9 de Outubro, teve o seu ponto culminante no dia 6 de Outubro, na Assembleia Nacional, na cidade de Quebeque.
Com efeito, depois de ter dado o mote à Semana Quebequense dos Encontros Interculturais no domingo, dia 2, nas belas instalações da Grande Biblioteca Nacional, a ministra da Imigração e das Comunidades Culturais do Quebeque, Lise Thériault, recebeu no Salão Vermelho da Assembleia Nacional mais de 200 imigrantes de diversas procedências, para lhes dar as boas-vindas e ao mesmo tempo sublinhar a importância da sua integração na sociedade de acolhimento. A bela e simpática ministra, na mesma altura, quis ainda reconhecer o valor acrescentado da Imigração para o Quebeque através da vitalidade cultural, económica e demográfica que trazem os seus membros.

Com o Salão praticamente cheio de novos imigrantes, suas famílias mais chegadas, professores de colégios e universidades onde alguns deles já estudam o idioma francês, alguns políticos liberais – este ano não vimos ninguém da Oposição --, a cerimónia começou com algum atraso, por via da demora dum dos autocarros vindos de Montreal. Deviam ser 14h30 horas quando o animador/apresentador da festa, também ele de origem estrangeira – argelina, se não estamos em erro – deu início à cerimónia de entrega de diplomas de «Boas-vindas». Foram mais de duas horas de Senhora e Senhor um Tel..., subida até à tribuna, recebimento do diploma, mais a foto para a posteridade e... regresso à cadeira reservada. No entremeio, as palmas e o rasgado sorriso da ministra Lise Thériault, acompanhados do inevitável Merci!

«A contribuição da Imigração é hoje bem real e ela ainda será maior com a diversificação do Quebeque. A Imigração já representa 63% do crescimento da população activa do Quebeque e nós prevemos que ela represente a totalidade dentro de 10 anos», declarou Lise Thériault a dado passo do seu discurso de introdução à cerimónia de «Boas-vindas» aos Novos Imigrantes.

No documento posto à disposição dos jornalistas, é possível saber que os imigrantes que chegam neste momento ao Quebeque são cada vez mais jovens, mais qualificados e 54% deles já têm conhecimentos da língua francesa. «Trata-se de uma mais-valia», acrescentou a ministra anjoense.

Por outro lado, reconheça-se, o Governo tem vindo a facilitar a vida dos novos imigrantes, criando melhores condições à sua chegada. Por exemplo, o Governo lançou, em 2004, um plano de acção chamado de «Valores divididos, interesses comuns», que favorece o acompanhamento dos recém-chegados em termos das diligências juntos das Ordens Profissionais, e outros diversos organismos, muitos ligados ao processo de aprendizagem e da regulamentação de competências. Além disso, o Governo criou ainda um outro programa, este virado para a procura de emprego, apelidado de «Programa de ajuda à integração dos imigrantes e das minorias visíveis na procura de emprego (PRIIME)» e que tem respondido precisamente às necessidades daquelas pessoas.

A ministra da Imigração e das Comunidades Culturais terminaria o seu discurso dizendo que «A Imigração é uma responsabilidade dividida, a que todos os actores, governamentais, privados e comunitários devem meter ombros a fim de que ela seja vista como um verdadeiro projecto de sociedade. É o futuro do Quebeque que está em jogo».

No fim da cerimónia, os jornalistas montrealenses tomaram o autocarro em direcção a Montreal na companhia dos assessores da ministra, entre os quais se incluía a nossa gentil, nunca será demais repetir, compatriota Anabela Monteiro.

À falta de portugueses
Samuel Silva, o «nosso imigrante»
Por Norberto Aguiar, em Quebeque
[Foto aqui]
Podia considerar-se português, mas não o fez: «Sou francês», disse o nosso interlocutor por escassos 15 minutos.
Estávamos numa de esperar que entre os 200 e tal imigrantes aparecesse algum português... ou brasileiro. Por que não um angolano? Afinal, nicles.
Quando foi soletrado o nome de Samuel Silva, para mais de tez branca, logo nos saltou a ideia de que, «é este!». Logo ali procurámos não o perder de vista. Esperámos até ao fim da cerimónia.
Estava a um canto. Falava perfeitamente francês. Estava acompanhado de dois magrebinos, também senhores dum francês impecável.
– Posso falar consigo?, atirámos.
O jovem sorriu e concordou, abanando a cabeça.
– Estamos numa cerimónia de imigrantes e você, chamando-se Samuel Silva... Não chegámos a acabar a frase, quando o jovem atalhou: - Não é a primeira vez que me fazem esta observação. Eu sou francês, não sou português. No entanto, as minhas origens serão certamente portuguesas, segundo me dizem. Parece que tem origem na Primeira Guerra. Um português terá ficado por França e por lá casou. Eu sou dessa relação. Mas não sou português.
Intrigado, ainda tentámos ir mais longe.
– Mas você acaba por ser português duma certa maneira...
– Olhe, sou francês e o que tenho de português é o que lhe disse. Posso-lhe dizer apenas mais uma coisa. Esse português trisavô chamava-se Adriano.
Não quisemos insistir mais com um jovem – 30 anos – que tão simpático se estava a mostrar para com a nossa curiosidade. Mudámos então de assunto e fomos sabendo que ele era imigrante independente, que tinha chegado ao Canadá a 31 de Agosto último e que estava vivendo em Limoulou, perto de Quebeque. «E já trabalhei no México», disse, ao selar uma conversa que se estendeu depois aos dois simpáticos magrebinos.