Carta para Belzebut
Manuel Calado

Tenho escrito para o Céu, não cartas anónimas mas todas assinadas, carimbadas, legais,
em envelopes de vento e de luar…
Mas de lá, ainda nada chegou,
que eu possa ler, aprender e decorar.

Com todo o respeito, ao Dono do Mundo eu disse
o que ia cá dentro, no tacho fervilhante das ideias.

Fiz perguntas inquietas. O porquê e o porque não
de coisas que acontecem sem explicação,
por contrárias que são aos ensinos da verdade,
da bondade e da compaixão…

Porque motivo a Mãe-Natureza nos castiga com tanto rigor,
imitando os terroristas-suicidas do Islão…
com ciclones e maremotos, cheias, fogos, razias e terramotos…

E depois das tropelias do Katrina
até o nosso presidente,
que é bom, caridoso e a Deus temente,
veio dizer que era preciso rezar e agradecer ao céu,
a vida dos que escaparam, fugiram, debandaram
abandonando barcos e redes, a casa
e o colchão da cama…

E o fiel da balança do meu eu ficou à deriva, sem saber
se protestar, se gritar, ou de joelhos rezar e agradecer
por a desgraça não me ter batido à porta…

E os outros?

Os irmãos que morreram, fugiram ou tudo perderam?

Por isso, esta carta de hoje vai para Belzebut,
o rei dos infernos, o malandro, o execrando, o vagabundo
sem alma nem coração, que tenta e rebenta
e ri de nós, e anda por aí à solta, com rabo, chifres e forcado,
fumando charuto com os ricos e os nobres,
tentando as mulheres dos magnates
e queimando as casas dos pobres!

Será que ele vai responder às perguntas que lhe faço?

- Ora então diga lá, senhor Diabo
se Deus não pode fazer mal, que é todo amor,
decerto é você, seu malandrão,
pai do vento, do fogo, da chuva e do trovão,
que anda por aí semeado a dor…

Só um ente maligno como tu,
com ventos, Ritas e Katrinas
pode ser tão empedernido e tão cru…

Cá fico aguardando uma resposta…
senão, vou perder a aposta…