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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 120 - Montreal, 1 de Julho de 2005

 
   
     
New Bedford, Massachussets(U.S.A.)  
 PRIMAVERA DE AGONIA  
Manuel Calado  

Nesta Nova Inglaterra de surpresas meteorológicas, esta primavera tem sido um desastre, com chuva, névoa, frio, vento. E com todas estas armas do seu arsenal, nos tem brindado a Prima-Dona do Tempo. E eu, que já muitas loas cantei em seu louvor, estou com ela um tanto agastado. A terra está alagada e fria, os tomateiros que plantei estão amarelentos e encolhidos, e os zuquinis e pepinos, estão procurando sobreviver e nada mais.

No entanto a irmã minhoca está gorda e esperta, e a relva está verde e crescida. Os poucos pássaros que por aqui andam em busca de amor e de construir o ninho, não largam o comedouro que pus lá fora com sementes várias e pão de milho esfarelado de que eles gostam. Olho-os da janela da cozinha, e alguns mais egoístas tentam apoderar-se sozinhos do comedouro, e expulsam à bicada os outros pássaros. O Criador das coisas parece ter deixado em todos os seres da natureza, um resquício das mesmas taras básicas com que dotou todos os seres vivos do seu reino. Exactamente como certos espécimes do reino humano, que só querem o seu prato cheio e não se importam com mais ninguém, assim os animais exibem as mesmas tendências para defender apenas a sua barriga.

No restaurante do Miguel, onde vou diariamente tomar café e comprar o «Times», dou sempre uma palavrinha à Dona Maria, a cozinheira, que há dias me deu um saquinho com feijão de trepar vindo de Portugal. Disse ela tratar-se de vagens longas e largas e «tenras como manteiga». E digo-vos que fiquei logo com vontade de comer um prato de bacalhau com batata graúda e as vagens verdes e tenras dos feijões da dona Maria que, tanto ela como o marido, também pertencem ao clube dos cultivadores. E até o Miguel, que veio lá de cima, da terra das amendoeiras e do vinho do Porto, está também cultivando este ano o seu quintalinho, pois quem veio da terra não pode esquecer a mãe que o criou. Mas nem tudo tem sido mau. Apesar do frio e da chuva, as primeiras couves que plantei, já deram folhas para o primeiro caldo, que ontem fiz e que ficou uma delícia. Tirei apenas uma folha de cada couve e foi o suficiente.

Para a panela foi tudo o que havia em casa, além das couves. Feijão rajado, batata, cenoura, milho doce, ervilha, brócolos, um pedaço de carne de vaca com osso e tutano, para dar substância, um cubo de carne em vez de sal, um raminho de hortelã, à lá Sopas do Espírito Santo, tudo regado com um copo do «Sol da Vinha», e não vos digo nada. Dirão os puristas da arte de cozinhar: Mas isso nem é caldo de couves com feijão à portuguesa! E na verdade não é. E um caldo à Calado. E falta-lhe ainda abóbora doce, feijão verde e zuquini, que não tinha em casa.

Há uns três anos a esta parte, se não estou em erro, trouxe cá a casa a rapaziada do PT e do Canal Vinte, para saborear um dos meus caldos clássicos, e todos se disseram satisfeitos com o pitéu. O colega Eurico Mendes, às vezes costuma também gabar-se da sua habilidade culinária. Ainda não tive ocasião de a apreciar, pelo que nada posso dizer. É certo que os cozinheiros, assim como os amantes da pesca e da caça, costumam dizer muitas mentiras. Uma vez, lá na minha parvónia, estava um caçador duma terra vizinha, a gabar-se das suas habilidades de pontaria, dizendo que numa caçada no Alentejo, matara l0 perdizes, 25 coelhos, uma dúzia de faisões, dois porcos-bravos e outra caça miúda. Um vizinho meu estava a escutar, com a boca muito aberta, fingindo que estava admirado com a estória do caçador, e no fim sai-se com esta: «O senhor é mesmo cuma eu». Pergunta o caçador fanfarrão: «Então o senhor também é caçador?» «Nan senhor, responde o homem. Mas dizem por aí que sou muito mentiroso».

E este é o meu solilóquio de hoje. E termino com um apelo à Dona Primavera. Para que se não esqueça dos habitantes desta Nova Inglaterra, que este ano ainda não viram um ar da sua graça.

Primavera de águas mil

No fulgor do mundo eterno

Não és Maio, és Abril

Com cara de frio inverno


Trazes névoa, chuva e vento

Não te vejo com flores

Dos lavradores és tormento

Não inspiras os cantores


Os pássaros estão sem voz

Não cantam de madrugada

Pois não te esqueças de nós

Ó Primavera encantada.


 
 

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