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Volume IX - Nº 120 - Montreal, 1 de Julho de 2005

 
   
     
Escritores da Lusofonia  
JORGE DE SENA  
Por Vitória FARIA  

Jorge de Sena nasceu em Lisboa em 1919 e faleceu em Santa Bárbara, Califórnia em 1978. Filho único, tanto a família paterna como a materna, pertenciam à alta burguesia. Do lado do pai, comandante da Marinha Mercante, eram os militares e altos funcionários, do lado da mãe, grandes comerciantes portuenses. Segundo ele próprio, a sua infância foi muito retirada e infeliz. O seu sonho era uma carreira na marinha pois o mar desde sempre o fascinou. Contudo, apesar de ter feito um exame de admissão brilhante (primeiro classificado com notas altíssimas) após uma «viagem de instrução» no navio-escola Sagres, foi recusado por «falta de perfil».

Sendo forçado a escolher outra carreira, formou-se em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi por esta altura que se estreou nas Letras publicando o seu primeiro poema e um ensaio no jornal universitário.

Depois de ter trabalhado na Junta Autónoma das Estradas entre 1948 e 1959 partiu para o Brasil, onde fez um doutoramento em Literatura Portuguesa. Em 1965 mudou-se para os Estados Unidos, onde leccionou primeiro no Wisconsin e, a partir de 1970, na Universidade da Califórnia.

A partida para o Brasil deve-se à sua participação num golpe militar abortado, em 1959, tendo a partir daí passado a considerar-se um expatriado. Instalou-se em Assis, no Estado de São Paulo, onde iniciou uma carreira académica que lhe permitiu realizar certos projectos com que sonhava há longo tempo. Contudo, a intensa actividade jornalística e política que desenvolveu obrigou-o a partir mais uma vez, depois do golpe de estado que instalou a ditadura em 1964.

A convite da Universidade do Wisconsin estabeleceu-se em Madison, continuando a actividade académica e a publicação de obras em língua portuguesa. Em 1970 decidiu mudar-se para a Califórnia, continuando ainda mais activamente a carreira de conferencista. Em 1977 o Governo Português convidou-o como orador do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Por essa ocasião ele falou dos trinta anos passados «para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência».

A obra de Jorge de Sena é imensa e abrange todos os géneros: poesia, romance, conto, teatro, ficção, ensaio, crítica e tradução, além de correspondência e um diário. Isto é, um total de mais de cem volumes. Como se calcula, a obra está traduzida em muitas línguas, mesmo em «chinês». O primeiro livro publicado foi um de poesia, intitulado Perseguição (1942), quando ainda era estudante. É impossível citar aqui todas as suas colaborações em revistas, como prefaciador, director literário, crítico e conferencista. O mesmo dos títulos da sua importante obra. Citamos apenas alguns: Pedra Filosofal, Poesia (I, II e III), Quarenta Anos de Servidão, Andanças do Demónio,O Físico Prodigioso, Sinais de Fogo, Estudos de Literatura Portuguesa (I, II e III), vários ensaios sobre Camões.

Após a morte Jorge de Sena foi condecorado com a Ordem de Santiago de Espada. A viúva, Mécia de Sena, que além de lhe ter dado nove filhos foi a colaboradora de sempre, tem-se ocupado de fazer reedições, recolha de textos esparsos em diversos volumes e a publicação de inéditos. O mais importante deles é o romance Sinais de Fogo, que saiu em 1979.

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque o não merece.

Nem minha amada, porque é só madrasta.

Nem pátria minha, porque eu não mereço

A pouca sorte de nascido nela.

 

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta

quanto esse arroto de passadas glórias.

Amigos meus mais caros tenho nela,

saudosamente nela, mas amigos são

por serem meus amigos, e mais nada.

 

Torpe dejecto de romano império;

babugem de invasões; salsugem porca

de esgoto atlântico; irrisória face

de lama, de cobiça, e de vileza,

de mesquinhez, de fátua ignorância;

terra de escravos, cu pró ar ouvindo

ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;

terra de funcionários e de prostitutas,

devotos todos do milagre, castos

nas horas vagas de doença oculta;

terra de heróis a peso de ouro e sangue,

e santos com balcão de secos e molhados

no fundo da virtude; terra triste

à luz do sol calada, arrebicada, pulha,

cheia de afáveis para os estrangeiros

que deixam moedas e transportam pulgas,

oh pulgas lusitanas, pela Europa;

terra de monumentos em que o povo

assina a merda o seu anonimato;

terra-museu em que se vive ainda,

com porcos pela rua, em casas celtiberas;

terra de poetas tão sentimentais

que o cheiro de um sovaco os põe em transe;

terra de pedras esburgadas, secas

como esses sentimentos de oito séculos

de roubos e patrões, barões ou condes;

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço.

 

És cabra, és badalhoca,

és mais que cachorra pelo cio,

és peste e fome e guerra e dor de coração.

Eu te pertenço mas seres minha, não.


 
 

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