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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 120 - Montreal, 1 de Julho de 2005

 
   
     
Crónica da ILHA DOS AMORES  
QUEM TEM VERGONHA DE FALAR DO 25 DE ABRIL?  
Melhor dizendo: Ensinar sobre o 25 DE ABRIL!    
Alcina  CARDOSO  

Pois é, como diriam os brasileiros, “verdade verdadeira” é que 31 anos passados sobre o Golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 e comemorando-se este ano o trigésimo aniversário das PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES em Portugal, após 40 anos de ditadura fascista, acho que os Portugueses continuam com grandes problemas de memória. Será?

Será a memória o problema? Ou será a eficácia da cultura de 40 anos de fascismo, que as Governações entretanto vigentes não conseguiram alterar?

Os que fizeram o 25 de Abril são hoje sexagenários, pelo menos. Os que na altura eram mais jovens têm hoje 50 anos. Os que actualmente têm 40 não têm consciência política do que se passava em Portugal, exactamente, há 40 anos. Os mais novos nem sabem o ano em que ocorreu o 25 de Abril, quanto mais o que ele significa!

Razões? Fazem-se anualmente “comemorações” mais ou menos institucionais, instituiu-se a data como Feriado, mas e o ensino escolar e cívico de “como era antes do 25 do Abril”? Ou não existe, ou são tentativas envergonhadas, rasgos avulso de descrição histórica com qualitativos escassos e tímidos de chamar as coisas pelos nomes.

Será que ainda subsiste o medo de “ofender” alguém? Será que ainda subsiste o medo de falar do regime anterior? Acho que sim! É verdade que sobre a política actual se fala e discute bastante, as pessoas não têm medo. Mas explicar como era antes? Tende-se a minorar o peso do mal, ou não se fala no assunto, ou valoriza-se alguns aspectos, como por exemplo o da segurança. Mas que segurança e a que preço? O pesado preço do medo, do medo de falar, do medo de agir. Mas que eficaz foi essa política! Ainda hoje se sente essa herança.

Não chega dizer que foi o princípio para a democracia e a abertura de porta para a Europa. São evidentemente um ensinamento pela positiva. Mas há factos que importa explicar melhor aos que não sabem o que significa a falta das liberdades individuais, pela simples razão de nunca a terem vivido. E esperamos que não a vivam. E não é preciso viver as dificuldades para as saber valorizar. Mas é preciso que alguém que as tenha experimentado as relate e historie e identifique todo o processo.

Depois, há que ensinar. Há que ensinar aos jovens portugueses o que significa Liberdade, Democracia, Eleições Livres… tudo isso que para eles hoje é tão natural e tão óbvio e que justo e só há 31 anos não existia em Portugal.

O significado de liberdade de expressão, ou o da sua ausência. O significado e actuação de uma Polícia Política – nós por cá tivemos a PIDE. O significado da total arbitrariedade social no trabalho, a ausência de regalias, de direitos…

Isto para não falar no estado em que ficou a nossa economia fechada e monopolista, para não falar num Governante que defendia que afinal as crianças não precisavam assim tanto de ir à escola, precisavam era de trabalhar… que vergonha… e em que miséria económica e cultural nos deixou! Isso sim é, no mínimo, vergonhoso!

Seria então bom pensar que tudo isso está mais ou menos esquecido, adormecido, por ter funcionado a memória selectiva, isto é, por estarmos tão bem hoje, que já quase esquecemos o que passámos mal no passado… que as consequências desse mal já estão debeladas. Mas não estão!

Ainda estamos a corrigir o passado. Ainda não garantimos (e estimulamos) devidamente a Educação, não conseguimos uma política eficaz de Habitação, não conseguimos garantir o acesso condigno aos cuidados de Saúde.

Facto novo, mas recorrente dos antigos, não estamos a conseguir assegurar uma política de integração social dos emigrantes no nosso País.

Então porque há vergonha de explicar, de ensinar claramente o que significa a falta de liberdades, a ausência de democracia, as consequências que se produzem e como elas são difíceis de resolver.

Comemoremos e festejemos muito, mas muito mesmo o 25 de Abril, que tão importante foi! Mas ensinemos o conteúdo do seu significado. Façamos do 25 Abril um alimento para a nossa auto-estima como Povo. Estou certa que conseguiremos melhor que os nossos jovens, que serão os nossos Governantes no futuro, ganhem a atitude de quem tem que efectivar uma importante missão: a de participar activa e correctamente na mudança de mentalidades e na “ainda” construção deste País.


 
 

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