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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 120 - Montreal, 1 de Julho de 2005

 
   
     
Editorial  
Ideologias  
Por Carlos De Jesus  

Tenho um horror visceral às ideologias.

Sejam da direita ou da esquerda, de inspiração religiosa ou ateia, as ideologias e os seus ideólogos arrepiam-me.

Numa frase: tenho horror a todos os ismos.

Capitalismo, Comunismo, Socialismo, Fascismo, Neoliberalismo, Nacionalismo, Patriotismo, Federalismo, Nazismo, Corporativismo... no meu dicionário são palavras carregadas de ideias destruidoras.

Prefiro os que se dizem benfiquistas, ou portistas ou sportinguistas, ou fadistas – não obstante o paroxismo de certas paixões clubistas – porque não há nenhum ideólogo do benfiquismo, nem do sportinguismo, nem do portismo e ainda muito menos do fadismo para nos tentar catequizar como salvador do mundo.

Tenho no entanto muito respeito pelos que se afirmam cristãos, ou judeus ou muçulmanos ou budistas; porque a fé num princípio criador é praticamente universal, muito embora a manifestação dessa fé se materialize por vezes em antagonismos mortíferos. Mas aqui temos mais a ver com as condicionantes da geografia e da história do que com os preceitos dos seus fundadores espirituais. Se o credo religioso é a resposta simples às questões fundamentais do homem: quem sou, donde venho, para onde vou? O credo ideológico é a resposta simples aos problemas complexos da temporalidade humana, isto é, à difícil arte da vida em sociedade.

Desde o conceito de propriedade individual à empresa colectiva, de soberania nacional aos tribunais internacionais; da gestão dos recursos naturais aos direitos humanos; da exploração das crianças à prostituição; do controlo das actividades industriais poluidoras ao desenvolvimento durável; da mundialização à alter-mundializaçao; do direito do trabalho e do direito do capital; da medicina nacionalizada à medicina privatizada; da tecnologia espacial à manipulação genética, da herança à hipoteca intergeracional... os problemas são incontáveis, enormes e complexos. E, como tal, não há respostas simples; há tentativas, há soluções imperfeitas que funcionam em certas latitudes mas que falham noutras. E é aqui que os ideólogos e as ideologias se enganam e nos tentam enganar, declarando terem encontrado a solução perfeita para tudo e para todos.

O fenómeno dos ideólogos da engenharia social não é recente. De Platão, com a sua República, a Marx com o seu Capital; de Hitler com o seu Mein Kampf a Mao-tsé-tung com a sua Cartilha Vermelha, os exemplos não faltam infelizmente. Todos falharam mas a história repete-se porque a experiência alheia não aproveita senão ao próprio e, as mais das vezes, tardia e desoladoramente.

Vêm estas considerações a propósito dum certo nacionalismo quebequense que mostrou o seu verdadeiro rosto no passado dia 24 de Junho, em Montreal, Festa do São João e Dia Nacional do Quebeque. Um certo número de artistas independentistas resolveram fazer uma festa só para eles, com entradas pagas. As razões que invocaram e a maneira como agiram servem de exemplos flagrantes para demonstrar a cegueira que causa a solução ideológica.

Como é do conhecimento público, o actual governo do Partido Liberal, declaradamente anti-independentista, fez questão de que os organizadores da Festa Nacional do Quebeque organizassem uma festa aberta a todos, de modo a que os elementos separatistas não se aproveitassem do evento, como no passado, para fazerem uma festa militante em prol da independência do Quebeque. Visto que o actual governo foi democraticamente eleito e que já houve dois referendos sobre a separação do Quebeque nos quais a maioria exprimiu a sua vontade de permanecer na federação Canadiana, é mais que natural que este evento devia estar aberto a todas as correntes políticas e servir de coesão social para que todos os habitantes do Quebeque se sintam quebequenses. Esta atitude é tanto mais respeitável quanto a organização do evento foi entregue, como no passado, à Sociedade São João Batista, apesar de ser um movimento declarada e militantemente independentista.

Houve portanto duas festas para o grande público de Montreal. Uma paga pelos impostos de todos e aberta a todos gratuitamente, e houve outra, a pagar, declaradamente independentista, destinada a um público jovem, onde o refrão era: «Libertem-nos dos Liberais».

Na primeira havia gente de todos os quadrantes, de todas as idades, de todas as origens, unidos pelo amor da terra onde nasceram ou imigraram. Na segunda havia a exclusão. Exclusão dos que não podiam pagar, exclusão dos que não são independentistas. É caso para lhes perguntarmos: É assim que querem fundar um país novo? Para correrem com todos os que não pensam como vocês ou não são da vossa cor?

É a isto que nos leva o nacionalismo ideológico. O nacionalismo que se reclama dum Quebeque livre. Livre para quê? Para deitar as mãos a um estado sem partilha? Considerando que o Quebeque, já hoje, como província, tem mais campos de soberania que os países da União Europeia e que conta com um peso desmesurado no poder central, qual é o objectivo dos ideólogos independentistas senão o de conquistar o poder absoluto sem contrapeso de nenhum organismo federal? Só por cegueira ideológica se pode acreditar que o Quebeque não é livre. E isto faz-me medo. Porque este nacionalismo ideológico é o nacionalismo da exclusão. É o nacionalismo é da supremacia da raça. É o nacionalismo que se vai fechar ao mundo, que vai criar novas fronteiras, novos passaportes, novos exércitos, novas moedas, novas embaixadas, nova polícias, novos denunciantes, novas vinganças, novos ajustes de contas, novas separações, novos divórcios, novas guerras fratricidas!


 
 

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