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Volume IX - Nº 120 - Montreal, 1 de Julho de 2005

 
   
     
Carta aberta ao Ministro dos Negócios Estrangeiros  
Por Fernando PIRES  

Antes de mais, como simples cidadão, vou ousar felicitá-lo pela integridade de ter aceite fazer parte de um governo socialista.

Não me enganarei se o seu percurso como ministro é servir Portugal; assim, como homem que não quer ser ultrapassado pela «evolução» dos tempos das sociedades de hoje e como português «comprometido» com o futuro de Portugal. Sei, Sr. Professor-Ministro, que poupava estes «elogios», mas entendo que devo fazê-los.

Pessoalmente identifico-me como um exilado económico: as causas porque o sou, o Sr. Ministro deve conhecê-las, e não precisa que lhe descreva a ditadura do antigo regime de Salazar e da pobreza à qual ele nos submeteu. Desde há quarenta e seis anos que me sinto psiquicamente (ou se quiser de alma e coração) ligado à Terra Mãe; e concretamente dentro dela, de visita, quando me é possível fazê-lo.

Qual o motivo que me levou a dirigir-lhe esta comunicação? Depois de ter satisfeito algumas necessidades vitais da minha existência, uma das minhas preocupações é, dentro dos meus possíveis, transmitir a minha língua e a minha cultura aos que me estão mais próximos, tentando também sensibilizar os jovens luso-descendentes que procuram identificar-se com a língua e a cultura do seu país!

Pai de quatro filhos, dois de idade adulta, e dois na adolescência, frequentando actualmente a escola portuguesa em Montreal, venho através desta carta pedir ao Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros para se debruçar sobre um texto em forma de requerimento, que foi publicado por um jornal da comunidade portuguesa de Toronto. O autor é o Sr. José de Almeida Cesário, deputado pela emigração do resto do mundo, datado do 20-05-2005, dirigido a V. Exa. e diz o seguinte: «se está nos seus planos promover um plano integrado de divulgação de Portugal, da sua cultura e da motivação para o ensino da nossa língua nos Estados Unidos da América e no Canadá...». Depois destas palavras do Sr. deputado José de A. Cesário, gostaria também de aqui mencionar, que não sou mandatário nem mensageiro do Sr. deputado, apenas me parece útil e importante de corroborar esta iniciativa, mantendo a minha convicção política e deixando ao Sr. deputado a sua. A questão que aqui se coloca é: como construir um plano que possa promover a língua e a cultura portuguesa nas comunidades portuguesas expatriadas? Qual a estrutura, e em que alicerces este plano deve assentar?

Antes fomos buscar especiarias à Índia, depois fomos buscar ouro e madeira ao Brasil, depois fomos para África, depois emigrámos, depois fomos bater à porta da Comunidade Europeia e agora? Estas últimas quatro décadas o mundo mudou, a concorrência é feroz e a OMC (Organização Mundial do Comércio) decerto que não nos vai salvar! Mas a língua portuguesa através das comunidades pode nos ajudar a vender vinho do Porto, azeite, conservas, etc. Até já nos ajuda actualmente a vender futebol!

Quem são os melhores embaixadores da língua e da cultura portuguesa nas sociedades de hoje à velocidade que funcionam as novas tecnologias e as comunicações? Que papel deve exercer o Instituto Camões no mundo de hoje?

Quem pode fazer a melhor promoção turística de Portugal e da sua língua no estrangeiro senão os portugueses que aqui vivem? Este governo do P.S. se quiser ficar na história das comunidades tem que procurar juntar sinergias no interior delas, que por vezes se perdem em capelinhas, clubezinhos, e ajudar a criar centros culturais que sejam dignos deste nome e que possuam uma estrutura coesa e unificadora de todos os organismos comunitários. Senão, não vamos lá. A promoção da língua e da cultura portuguesa não se pode fazer com forças dispersas.

Portugal, para além da sexta posição que ocupa nas Nações Unidas a nível linguístico, tem um potencial de mais de duzentos milhões de falantes de português que devem ser orientados para enriquecerem o seu património; onde as comunidades portuguesas podem ter uma função de influência como lobis nas sociedades onde estão inseridas.

Portugal deve investir em recursos humanos que possam criar riqueza para o País, porque no mundo de hoje se o capital pode e manda, existe também um poder cultural e linguístico que pode fazer frente a este último, se houver uma coordenação logística e pedagógica bem aplicadas. Por isso os alter-mundialistas dizem que «um outro mundo é possível».

Sei que dizendo isto posso ser considerado como ingénuo ou lírico, mas vale mais dizer, do que calar, porque quem se cala consente.

A orientação da filosofia do Instituto Camões tem que ser repensada se ainda o não foi, para poder responder aos desafios do Portugal de hoje e das comunidades portuguesas radicadas fora do país. Quanto à diplomacia portuguesa, em muitos dos discursos que circulam nas comunidades, alguns deles aparecem muitas das vezes amorfos, cheios de pleonasmos, de tautologias de ideias que precisam de debate. Para terminar, gostaria de pedir-lhe Sr. Professor-Ministro, de dar seguimento à afirmação do Sr. Secretário de Estado e das Comunidades Portuguesas, que na mensagem que dirigiu às comunidades portuguesas no dia de Portugal se leu como tal: «reavivar o compromisso do governo para pôr em prática um novo conceito de política para a ligação aos compatriotas que residem e trabalham fora do país». Esperemos então Sr. Professor que estas «palavras» não sejam mais palavras de «circunstância», como escreve o Sr. Secretário nesta mensagem, fazendo o Sr. Ministro prevalecer as suas palavras de que «nada deve ser deixado ao acaso» como o afirmou em 8 de Fevereiro de 1986 na Revista do Jornal Expresso (Freitas do Amaral: o método do professor).

Queira, Sr. Ministro, aceitar os meus melhores comprimentos.


 
 

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