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Volume IX - Nº 119 - Montreal, 15 de Junho de 2005

 
   
     
(Jornal de Letras)  
Nomes sem Nihil Obstat  
Onésimo Teotónio Almeida  

Via e-mail, dois jornalistas de Lisboa solicitaram-me com urgência algum meio de contactar familiares de D. William Levada, arcebispo de S. Francisco, nomeado por Bento XVI como seu substituto na Congregação para a Doutrina da Fé. A Califórnia fica tão longe de Providence como Providence de Lisboa, mas vista do lado de lá do Rio Atlântico a América é um país, ou uma simples província, não um continente. Arranjei-lhes contactos na Califórnia e alguns dados biográficos. Não sei como se houveram. (A D. Levada tinha eu, por sinal, aludido num artigo no ex-O Jornal, em 1986, entre um elenco de nomes, quando pretendi demonstrar a um muito conhecido sociólogo português que a lista de descendentes notáveis entre as comunidades açor-americanas não era tão magra como ele julgava.) Um dos jornalistas que agora me abordaram, intrigado com tal sobrenome, perguntou-me se ele não seria de origem madeirense. Enviei-lhe o endereço do portal do arcebispo, onde vem esclarecido ser Levada uma americanização de Oliveira. Céptico, o jornalista insistiu: Mas como é possível?

Muito simples: Levada é a transcrição fonética da pronúncia americana de ‘liveira (o /O/ inicial é com frequência elidido na linguagem corrente: ‘leveira’, e o /d/ intervocálico é também comummente confundido a nível fonético com o /r/ em posição idêntica).

Estranho? De modo nenhum. Nos barcos baleeiros muitas vezes os tripulantes arrecadados nos Açores tomavam o nome do capitão. Por isso muitos viraram Clark. Noutros casos, à chegada aos EUA, o escriba na alfândega simplesmente transcrevia o que ouvia, ou consultava um dicionário e registava a tradução inglesa. De resto, em grande número de situações, a iniciativa da mudança pertenceu aos próprios imigrantes. Como no momento da nacionalização é possível (ainda hoje) escolher-se qualquer nome, não havia regras. Por isso, nas primeiras levas de emigração (mais precisamente, durante o primeiro século e meio), milhares deles não se coibiram de apagar o seu rasto no mar imenso americano. Nome que terminasse em vogal era latino e, a olhares anglo-saxónicos do século XIX, não caía bem. Quanto mais cedo se libertassem do porco labéu de PIGS, melhor. (PIGS significou primeiro: Polish, Irish, Greek and Slavic. Gerações mais tarde, com as alterações demográficas na emigração, passou a significar Portuguese, Italian, Greek, and Spanish). Agora só aos poucos os vamos descobrindo, às vezes apenas por fortuitas coincidências. A minha lista vem crescendo há anos: Medow era Mendonça; Sylvia e Silver foram Silva; Branco deu White; e Reis, Reese e King. Alguns Oak vêm de Carvalho, Smith de Ferreira, Simmons de Simões, e Oliver, de Oliveira; Martin, de Martins; Sears ou Soars, de Soares. Vários Thomas vieram de Tomé; Pavan e Peacock, de Pavão. Há Andrews que provêm de Andrade ou André (como apelido). Ferry era Faria; Rogers pode ter sido Rosa ou Rodrigues. Snow, Neves; e Wolf, Lobo. Botelho deu Butler; Rodrigues, Rodericks; e Duarte (em apelido), tornou-se Edwards. (Nas Flores, uma família Duarte fez-se Edwards nos Estados Unidos, nome retrovertido para Eduardo, sempre como sobrenome, no regresso dos descendentes aos Açores). Govey, teve origem em Gouveia; Jason, em Jacinto. Machado gerou vários Marshall, como o David Marshall que nos forrou o tecto aqui em casa, e se me dizia dos quarto costados oriundo de portugueses da minha ilha. Muitos Lawrence foram Lourenço em português, como Mandley, Mendley ou Mandley haviam sido Mendonça e Leighton, Leitão. Lewis pode ter provindo de Luís, como o escritor das Flores Alfred Lewis, autor de Home is an Island, publicado pela Alfred Knopf, de New York, em 1951. Morris foi adoptado por muitos Maurícios, e Roche ou Rock vieram de Rocha. Francisco deu Francis. Um tal Avalon fora Ávila.

Há ainda as baralhações de letras, as metáteses. Basta consultar uma lista telefónica da Nova Inglaterra para se ver a criatividade ortográfica. Qualquer nome tem variações acrescentadas. (O mais comum em Almeida, por exemplo, é dar Almedia). Essa trocas não resultaram necessariamente de simples analfabetismo. Os americanos têm dificuldades fonéticas com os nossos nomes, como nós com os deles. Por isso, num romance publicado na Califórnia encontrei há dias uma personagem de nome Tony Caravahlo.

A famosa filósofa americana Martha Nussbaum, que agora começa a ser citada em Portugal e já foi minha colega na Brown, dedica um dos seus livros a uma tia ‘De Quintal’. Aliás, há justamente o problema do ‘de’. ‘Depina’ é obviamente proveniente de ‘de Pina’. Mas quem vai adivinhar que ‘Desa’ foi pura e simplesmente ‘de Sá’, alterado no tempo em que os americanos não queriam saber de acentos?

Não posso jurar que um tal João Câmara tenha americanizado o nome para John City Hall, porque essa cheira a humor. (Aí sou também culpado por já ter posto a circular derivações fictícias em estórias várias). Os que acima vão, porém, são casos fidedignos e devidamente documentados. A listagem vai assim a seco, porque os exemplos mais curiosos já os contei em crónicas e não vou repetir-me. (Alguém se lembrará do sobrenome do poeta Art Cuelho, por exemplo?)

Às vezes nem tradução havia, como no caso de um tal Bruce Adams que, depois de palração minha numa biblioteca me veio dizer que, para não ser identificado na escola como português, o pai lhe americanizara o nome por inteiro, pouco tempo depois de virem para os EUA. Nunca chegou a saber como se chamava na outra banda do mar.

O meu colega James Van Cleve, filósofo respeitabilíssimo, jurou-me que no Midwest, onde português é mesmo avis rara, na escola lhe haviam ensinado que John Philip Sousa, o das marchas militares (ou desportivas, em Portugal), tinha aquele estranho apelido, completamente desconhecido na região, porque chegou a este país sem família e sem tão pouco saber o seu último nome. Quando começou a compor as patrióticas marchas passaram então a chamar-lhe S.O.U.S.A, abreviatura de “Son of USA”, que acabou ficando apelido. Verdadeiro não é, sabemos nós. Bene trovato sim.

Terminarei com a história do frustrado imigrante de apelido Pires, que ouvia os americanos pronunciarem-no como Paires. Passou então a escrever Paires, mas eles liam Peres. Achou que assim seria mais português e passou a grafar Peres. Aí os americanos liam Pires. Deixou pois ficar Peres para poder finalmente ouvir o seu doce, original Pires.

Em Portugal não fomos menos criativos. Nos Açores, o flamengo von de Hurtere deu Horta e Dutra. Van der Hagen, deu – não me perguntem porquê – Silveira. O meu amigo Eduíno de Jesus, que sabe destas coisas, ouviu que se trata de uma tradução. E o que menos falta em português são estropiações de nomes de origem estrangeira. A propósito de criativo, sabem daquele luso-americano num party em Hollywood? Chega James Bond, que cumprimenta um por um todos os presentes, no seu habitual estilo: - Bond, James Bond... Chegada a vez do nosso luso, a reacção foi pronta: - Well, Manuel.


 
 

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