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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 119 - Montreal, 15 de Junho de 2005

 
   
     
EDITORIAL  
PQ e CIA  
Por Carlos DE JESUS  

No último número falava da teoria do complot como argumento simplista para explicar o que nos parece incompreensível no campo das relações internacionais. Receio bem que o assunto desta semana caia também nesta categoria, mas não posso impedir-me de partilhar convosco uma teoria que, embora nada tendo do complot, pode facilmente se prestar a tal. Refiro-me à possibilidade de os serviços secretos americanos estarem envolvidos no movimento independentista do Quebeque. Estou a adivinhar exclamações de incredulidade da parte de alguns leitores, mas tal probabilidade não é tão inverosímil como à primeira vista parece.

Há dois factos históricos que militam por esta hipótese. O primeiro está na génese do Canadá. O segundo na voracidade com que os Americanos têm vindo a anexar extensos territórios dos seus vizinhos desde a sua fundação.

Quando em 1755 a Revolução Americana leva a cabo a independência dos Estados Unidos da América, os revoltosos não conseguiram convencer os súbditos ingleses dos territórios do norte, Ontário e Quebeque, a unirem-se a eles para formarem um único e novo país, nem pela diplomacia nem pelas armas. Em 1775 Montreal ainda acabou por ser conquistada pelo general americano Richard Montgomery, mas pouco depois, com o apoio dos canadianos franceses e com as tropas inglesas, os canadianos conseguiram expulsar os americanos. O Canadá que conhecemos hoje existe por conseguinte porque os seus primeiros habitantes não se queriam tornar independentes da coroa britânica. Mesmo se a Rainha da Inglaterra continua a ser a rainha do Canadá, o facto é que este país, graças a Pierre Trudeau, hoje já é politicamente independente e o vínculo dos canadianos à Inglaterra é cada vez mais fraco. Exceptuando o Ontário, onde se concentra a maior parte dos descendentes de origem britânica, na maior parte das províncias canadianas, devido ao afluxo de imigrantes de toda a parte do Mundo, os novos canadianos pouco ou nada têm de ingleses, a não ser pela língua que é a mesma falada pelos Americanos. Mesmo que, muitos deles, acalentam ainda o sonho americano. A esta fraca identificação nacional vem acrescentar-se o facto de que as relações comerciais, em todas as províncias, se fazerem mais de norte para sul do que de leste para oeste; e, como se a economia não bastasse, temos a americanização acelerada da cultura canadiana inglesa através da imprensa, mas sobretudo do cinema e da televisão. Os canadianos ingleses estão mais a par da política americana do que da política doméstica. Só a título de exemplo, enquanto que o Quebeque conta com sete revistas semanais dedicadas aos seus artistas, o Canadá inglês, com quatro vezes a população do Quebeque, não tem nenhuma. Isto é dizer que o panorama do «show business» canadiano se alimenta exclusivamente de fontes americanas.

No que diz respeito à expansão territorial americana, quer pelas armas, pela diplomacia, ou pelo dinheiro, os exemplos não faltam, desde o tempo da Luisiana até à integração das ilhas Hawaii, de Norte a Sul, do Alasca ao Novo México, passando pelo Porto Rico... Agora imaginem quanto os Estados Unidos não dariam para aumentar o actual território para mais do dobro, e receberem em troca apenas mais 10 por cento da sua população total. Com a anexação do Canadá, passariam a ser o maior país do mundo, em termos territoriais, e também um dos mais ricos em petróleo, gás natural, água e diamantes, para não falarmos senão das riquezas naturais mais cobiçadas em todo o mundo.

Como é que esta anexação seria possível? Ajudando o Quebeque a tornar-se independente!

No dia em que se criar a República do Quebeque, os movimentos separatistas do Oeste ganharão uma nova força e com alguns referendos bem apoiados pelos vizinhos do sul, não me parece ser difícil acreditar na criação de novos estados americanos sem ser preciso usar de força nenhuma. A força persuasiva da realidade social, económica e cultural é quanto basta. Claro que do lado do Ontário as coisas não iriam assim tão rapidamente, mas o tempo faria a sua obra.

Quanto ao Quebeque independente, face à desagregação do Canadá, num primeiro tempo tentaria desesperadamente aliar-se à União Europeia, nem que não fosse no campo da moeda única, mas o Atlântico e os novos estados americanos iriam fazer-lhe a vida dura. Fragilizado com a fuga dos capitais e dos imigrastes mais escolarizados, a nova república francesa da América do Norte teria de se inclinar perante o colosso do Sul e no fim acabar por obter um estatuto semelhante ao de Porto Rico para poder conservar o seu falar canadiano-francês.

Posto isto, não será grande a surpresa se um dia se vier a descobrir que a CIA andou a puxar os cordelinhos para que o Quebeque se separe do Canadá. O próprio Canadá não esteve ele já infiltrado no governo de René Lévesque, na pessoa dum dos seus ministros mais influentes, na pessoa de M. Claude Morin? Embora com objectivos contrários, evidentemente.


 
 

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