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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 118 - Montreal, 1 de Junho de 2005

 
   
     
Editorial  
O NÃO francês  
Por Carlos DE JESUS  

Pessoalmente não me inclino muito para as teorias do complot. Há quem explique tudo quanto não é explicável pela estratégia do complot. Sobretudo se o complot for atribuído aos americanos. O raciocínio é simples. A quem aproveita o crime? Em todo o caso, há quem tenha visto na vitória do NÃO francês à constituição europeia a mão escondida dos estrategas americanos que vão aproveitar-se da divisão dos europeus para continuarem a dominar o xadrez político, militar e comercial mundial.

Efectivamente, à primeira vista, a emergência duma entidade política unificada, com ministro dos Negócios Externos e tudo, como propõe o pacto da nova constituição, irá traduzir-se num bloco mais coeso para se impor tanto nas esferas das Nações Unidas como da Organização Mundial do Comércio (OMC), o mesmo é dizer para fazer frente à actual hegemonia americana. Mas um tal pressuposto não resiste à menor análise de quem se deu ao trabalho de seguir o debate francês. Os franceses escolheram o NÃO, não por terem sido manipulados por forças ocultas, mas porque os seus homens políticos e os líderes da opinião pública não foram capazes de lhes tirar o medo da nova Europa. Sim, a meu ver, foi o medo que ganhou na França. O medo do estrangeiro, sobretudo do turco, o medo da invasão dos trabalhadores polacos, o medo da deslocalização da indústria pesada para os novos países do leste. O medo de perderem as regalias sociais actuais mesmo com uma taxa de desemprego superior a 10 por cento. Numa palavra o medo da mudança.

Evidentemente que este NÃO não vai por em causa a construção europeia. Estou mesmo convencido que os americanos até vão tentar influenciar no sentido de fortalecer a unidade política europeia, porque assim passariam a ter apenas um interlocutor em vez de 25 quando chegar o momento de negociar uma posição de força face ao bloco China-Índia que se desenha. E vai ser este bloco asiático que vai despertar os franceses do NÃO para as consequências da escolha que fizeram no passado domingo. Unidos venceremos, desunidos perecemos foi um lema que infelizmente não encontrou eco à boca das urnas. Aliás, logo no dia seguinte ao voto francês, foi sintomático que a delegação chinesa encarregada de regularizar o diferendo europeu sobre a invasão dos têxteis e confecções chinesas tenha mudado de tom e se tenha mostrado mais intransigente quanto à redução das suas exportações para a Europa.

A constituição do bloco asiático com a China, a Índia e o Japão – que se adivinha a médio prazo – também já inquieta os americanos de há uns tempos a esta parte. Há mesmo quem já fale duma guerra provável entre o ocidente e o oriente, no contexto da qual é preciso incluir a guerra das estrelas para se compreender a insistência com que George Bush procura por de pé o sistema anti-míssil norte-americano.

E esta é realmente uma realidade com a qual vamos ter que aprender a viver. Se complots houver é no sentido de fortalecedor os blocos de interesses económicos dos quais, face à China e à Índia, o Ocidente terá de fazer corpo comum se não quiser ver o centro da influência mundial deslocar-se de 180 graus.


 
 

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