logo
rss  Vol. VII - Nº 117         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContacto arrowÚltima hora arrowClima
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Crónica da ILHA DOS AMORES

OS PORTUGUESES NA ESTRADA

Carro meu, carro meu, diz-me quem conduz melhor do que eu?

Por Alcina CARDOSO

Lisboa, Capital Nacional

Como faremos para mudar esta pergunta?

Este é certamente um interessante tema de meditação. O mais importante: analisar, identificar a origem do problema. Só assim o conseguiremos resolver.

Alguns falam de mentalidade, de cultura de estrada, de falta de civismo.

Tudo isso é bastante mau e dá de nós, portugueses, uma imagem muito má, para além das consequências ruinosas que todos pagamos um pouco.

Será que a nossa mentalidade é assim tão deformada? Será que a nossa educação não nos leva a uma atitude cívica em geral que, consequentemente, se reflectirá na estrada?

Problema cultural? Ou de ausência de cultura? E quem diz cultura, diz educação.

Mais uma vez temos uma questão educacional, que vira – erradamente – cultural e que, a meu ver só se resolve se combatermos uma «cultura do obscurantismo e do medo» que herdámos do Salazarismo. Pois é, mais uma vez o Salazarismo.

Este aparente conflito na qualificação de um povo de quem tão depressa se diz que é do mais afável, simpático e acolhedor que há, como de quem se diz não ter civismo e ser, entre outros não lisonjeiros qualificativos, um povo assassino na estrada. O mais selvático da Europa.

Porquê estas contradições? Pobres de nós portugueses… Há muito que nos baralharam os valores e, entretanto, ainda não conseguimos reposicioná-los!

Comecemos por uma política que durante 40 anos dificultou o acesso à educação: é mais fácil governar ignorantes, com certeza! No vazio do conhecimento e do treino de raciocínio é mais fácil enganar, é mais fácil fazer acreditar num falso conceito de autoridade, implementar o equívoco entre respeito e autoridade e vice-versa.

Continuemos com o que também nos foi trazido pelo Salazarismo na economia: uma política monopolista e protectora, se não incentivadora, de interesses corporativos. De entre outras gravíssimas consequências, herdámos a arbitrariedade dos empregadores, a exploração dos trabalhadores e a resultante aniquilação do significado de competência e do reconhecimento da mesma. A meu ver, sendo este o berço daquilo que se designa como motivação profissional, não existindo, não há objectivos, não há projectos, não se desenvolve a auto-estima.

Este povo passou a fazer «coisas» apenas por necessidade. Há mais, mas ainda são poucos os que perseguem os seus objectivos numa relação saudável entre ambição e prazer, construindo assim a sua realização profissional.

Quanto aos valores da família, também que dizer? A promiscuidade entre estado e igreja, a falta de formação escolar, o baixo poder económico – se não pobreza – o que originou?

Falsos valores! Chamando amor ao que não é amor, os valores da família do Estado Novo foram contraditórios, inconsistentes e preconceituosos.

Portanto, aos Portugueses ainda lhes falta algo tão importante e que se chama: Realização Pessoal.

Não são felizes no seu ambiente familiar; não são felizes na sua vida profissional.

Só se faz porque se precisa e o que não se faz é porque se tem medo.

Sem realização pessoal, acredito que o nosso problema é, de facto, a falta de auto-estima como povo. E a prova está que, quando os portugueses se integram noutra cultura, num País com elevado nível de auto-estima, são os melhores cidadãos, os melhores empregados, das melhores comunidades imigrantes. E tenho a certeza que não o fazem por medo. É por respeito; e depois, com o retorno positivo que recebem, passam a gostar «disso», passam a esse comportamento pelo prazer (= também a conjunto de benefícios) que lhes traz. E pronto, está iniciado o processo de construção da auto-estima.

Agora, o que fazem cidadãos sem objectivos, sem projectos, sem auto-estima, sem felicidade? Tudo o que está errado e não propriamente porque são maus seres humanos e maus cidadãos.

Enquanto não deixarmos de fazer porque entendemos que é errado e não por medo, enquanto não houver escapatórias para a necessidade de afirmação pessoal, enquanto a primeira coisa que se faz quando sai uma nova Lei é ver como contorná-la, pode alterar-se o Código da Estrada, pode aumentar o valor das multas, que, em Portugal, continuaremos a ter estes condutores que se empenham em conduzir mais depressa que outro, em prevaricar sem ser «apanhado». Continuaremos a ter carros transformados a fazer competição em vias públicas e a matar os que não conhecem essa mórbida adrenalina, ou dela apenas têm medo. Precisaremos, por isso, de um polícia para cada condutor.

Acredito nos mecanismos de controlo do respeito pelas regras. Eles são essenciais. Mas acompanhados de políticas económico-sociais e de uma acção efectiva na formação dos Portugueses.

Crónica
yes
Carro meu, carro meu, diz-me quem conduz melhor do que eu?
Portugueses na EstradaALCINA.doc
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020