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rss  Vol. VII - Nº 117         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
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ESCRITORES DA LUSOFONIA

MIA COUTO

 

Vitória Faria

Por Vitória FARIA

Mia Couto, de seu verdadeiro nome António Emílio Leite Couto, é um dos mais conhecidos, se não o mais conhecido dos escritores moçambicanos. O nome literário foi-lhe dado pelo irmão mais novo incapaz de pronunciar «Emílio». Filho de Maria de Jesus e de Fernando Couto nasceu na cidade da Beira em 1955 e, como ele próprio diz, não tem uma «terra-mãe» mas uma «água-mãe» pois a cidade é frequentemente inundada pelo Oceano Índico. Começou a estudar Medicina ao mesmo tempo que se iniciava no jornalismo e acabou abandonando aquela para se dedicar inteiramente a este, onde chegou ao lugar de Director de Informação de Moçambique. Mais tarde tirou um curso de Biologia e é hoje a sua profissão, para além da de professor e de escritor. Ao ler a sua bibliografia é forçoso constatar que à carreira literária tem dedicado o melhor do seu tempo.

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O primeiro livro publicado foi um de poesia, em 1983, Raiz de Orvalho. Em seguida passou ao conto. Ao mesmo tempo que se preocupava com a divulgação da cultura local, usava uma nova maneira de falar, ou «falainventar» português. A intervalos regulares de três ou quatro anos publicou sucessivamente Vozes Anoitecidas (1986), Cada Homem é uma Raça, Estórias Abensonhadas, Contos do Nascer da Terra, Na Berma de Nenhuma Estrada e O Fio das Missangas, este último em 2003. Para além de alguns livros reunindo as suas crónicas que saem regularmente num dos semanários de Maputo, são vários os livros de novelas ou romances. Aqui vai a lista, a começar em 1992, Terra Sonâmbula, A Varanda de Frangipani, Mar Me Quer, Vinte e Zinco, O Último Voo do Flamingo, O Gato e o Escuro, Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra e A Chuva Pasmada, este último em 2004. Muitos destes livros estão traduzidos em diversas línguas (inglês, francês, italiano, espanhol, sueco, holandês) e do penúltimo romance da lista está a ser rodado um filme pelo realizador português José Carlos Oliveira. Recebeu vários prémios e o mais importante deles foi o Prémio Vergílio Ferreira (autor de que falamos no nosso número do primeiro de Maio) pelo conjunto da sua obra.

Mia Couto é considerado como um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos que escrevem em português. Ele interessa-se e trata dos problemas da vida quotidiana do Moçambique contemporâneo, mas ao mesmo tempo procura uma escrita poética, fazendo «a mestiçagem entre o português «culto» e as várias formas e variantes introduzidas pelas populações moçambicanas». É aquilo a que o autor chama «o prazer de desarrumar a língua». As questões reflectidas na sua obra dizem respeito aos graves problemas do povo moçambicano, um dos mais pobres e martirizados, que começa agora a sair duma guerra civil de 30 anos. Como há neste povo uma tradição de transmissão oral da cultura, Mia Couto combina a sua escrita de maneira a ligar a tradição oral africana à tradição literária ocidental. Ele afirma que é «da mesma forma que no seu trabalho de biólogo liga, no estudo da floresta, o saber ancestral dos anciãos sobre o espírito das árvores e das plantas à ciência da Ecologia».

Eis um texto de Mia Couto intitulado «Perguntas à Língua Portuguesa»:

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?

A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?

O mato desconhecido é que é o anonimato?

O pequeno viaduto é um abreviaduto?

Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.

Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?

Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?

Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?

O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

Onde se esgotou a água se deve dizer: «aquabou»?

Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?

Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?

Mulher desdentada pode usar fio dental?

A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?

As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: «finanças»?

Um tufão pequeno: um tufinho?

O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?

Em águas doces alguém se pode salpicar?

Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?

Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?

Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?

Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

 

Literatura
no
Mia Couto, de seu verdadeiro nome António Emílio Leite Couto, é um dos mais conhecidos, se não o mais conhecido dos escritores moçambicanos. O nome literário foi-lhe dado pelo irmão mais novo incapaz de pronunciar «Emílio».
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