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rss  Vol. VII - Nº 117         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
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Editorial

Políticos sem envergadura

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Mais que não fosse, o inquérito da Comissão Gomery tem vindo a provar que este país tem realmente falta de homens políticos de envergadura. E isto, tanto no que diz respeito aos indivíduos postos directamente em causa pela dita comissão, como pelos actuais dirigentes em exercício. Se há uma ressalva a fazer, ela vai para Ed Broadbent, do Novo Partido Democrático (NPD) que se comprometeu a anular o seu voto no caso de o deputado conservador atingido pelo cancro não estiver em condições de votar e dando a este a oportunidade de voltar à clínica para continuar os tratamentos.

Mas este gesto isolado não basta para passarmos a esponja pela extraordinária pequenez com que os actuais dirigentes políticos, tanto em Otava como em Quebeque, nos têm presenteado.

No Quebeque tivemos a comissão de inquérito sobre o fiasco da Gaspésia, um empreendimento onde o Governo provincial e federal esbanjaram 265 milhões de dólares dos nossos impostos, sobretudo devido ao compadrio entre classe política e sindical do tempo do Partido Québécois. Mas como sempre, o Quebeque tem o segredo de pôr os seus escândalos debaixo do tapete -- com a conivência da classe jornalística -- , e embora o fiasco ainda seja maior, em termos financeiros, do que o dos patrocínios do governo federal revelados pela Comissão Gomery, tudo se passa como se fosse de menor importância. Tivemos mesmo o triste espectáculo do ex-primeiro ministro, Bernard Landry, a «rasgar a camisa» em público com a complacência benevolente habitual dos órgãos de comunicação enfeudados «à causa». Isto é, o homem – como ele tão pomposamente se mostrou ao pavonear num filme de propaganda à sua pessoa – não só não tem a coragem de assumir os erros da sua governação, claramente demonstrados pelo relatório final do Juiz Robert Lesage, como vem ainda denegrir o papel da comissão e do seu presidente, querendo assim confirmar que tudo em política não passa de compadrio e jogos de bastidores. Claro que em termos de politiquice, o actual primeiro-ministro Jean Charest também não lhe fica atrás. Enquanto «o diabo esfrega um olho» passou de Conservador a Liberal. Ou passou mesmo? A coberto do Partido Liberal, não é uma política conservadora que está a pôr em prática?

Em Otava, temos um partido minoritário, completamente ruído pelas dissensões internas e maculado pelos escândalos revelados na Comissão Gomery. Um partido dirigido por um homem que parece mais interessado no poder do que na governação responsável do país. Se assim não fosse, ele teria feito uma coligação desde o início e não se punha a governar sem o apoio do parlamento. Agora, empurrado para as eleições, abre de par em par as portas da casa forte dos nossos impostos para distribuir milhões à direita e à esquerda, para tentar comprar o eleitorado, como nos bons velhos tempos, em que se comprava um voto com uma caixa de cerveja. Por outro lado, temos os outros dois principais partidos da oposição, os Conservadores e o Bloc Québécois, cujas doutrinas económicas e sociais são diametralmente opostas mas que estão prontos a dormir na mesma cama para deitar abaixo o actual governo minoritário de Paul Martin.

A atitude dos Conservadores é mais ou menos compreensível. Querem aproveitar-se da maré de descontentamento provocado pelos escândalos denunciados na Comissão Gomery e conquistar o poder, mesmo embora minoritários e sem nenhum deputado do Quebeque. Menos compreensível, é a atitude do Bloc Québécois, que nunca poderá aspirar a governar o Canadá, que dificilmente poderá aumentar o número de deputados que já fez eleger e que se alia de facto aos «tories» para deitar a baixo os Liberais. Com que objectivo? Para impedirem que o orçamento, definitivamente inspirado pelos sociais-democratas do NPD se concretize? Para provarem que o país do Canadá é ingovernável quando são eles os mais tonitruantes no circo parlamentar? Com que objectivo, pergunta-se, senão numa óptica de «terra queimada» de que se deve regalar o seu chefe, Giles Duceppe, do tempo em que pregava as doutrinas maoístas da extrema-esquerda.

Onde é que está o bom senso desta gente? Vamos gastar mais 300 milhões de dólares noutra campanha eleitoral para eleger outro governo minoritário, provavelmente outra vez Liberal, e para voltarmos à mesma casa onde nos encontramos hoje. Com que coragem é que o Bloc Québécois pode vir apregoar que é um «parti propre» quando mostra ser capaz de tudo para atingir para fins?

Resta-nos esperar que o eleitorado do Quebeque seja politicamente mais maduro do que aqueles que supostamente o representam.

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Mais que não fosse, o inquérito da Comissão Gomery tem vindo a provar que este país tem realmente falta de homens políticos de envergadura. E isto, tanto no que diz respeito aos indivíduos postos directamente em causa pela dita comissão, como pelos actuais dirigentes em exercício.
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