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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 116 - Montreal, 1 de Maio de 2005

 
   
     
Fumo Branco na Sixtina  
Papa Bento XVI  
Manuel Calado  

O fumo branco apareceu no topo da chaminé da Capela Sixtina, e os milhares de fiéis da Praça de S. Pedro exultaram. «Habemus Papam» - anunciou o porta- voz da Santa Sé. Os três sinos de bronze da sineira vaticana começaram a tocar em seguida, anunciando a Roma e ao mundo católico, que um novo pontífice acabava de ser escolhido. Não era mais o cardeal Joseph Ratzinger quem falava, mas o Papa Bento XVI., colaborador íntimo de João Paulo II, e chefe da Congregação da Doutrina da Fé, ex-Santa Inquisição, de malfadada memória dentro da igreja de Cristo, o mesmo que mandou «dar a outra face».

Ao que parece, o Papa Bento, não possui as qualidades mediáticas e carismáticas de João Paulo, o «Popular», que foi actor e desportista, e era dotado de grande apetência e capacidade de contacto directo com o povo. Bento XVI, segundo foi dito, não possui essa qualidade carismática. É um intelectual, teólogo brilhante e filósofo, mas mais tímido do que o seu antecessor, de quem era assessor dilecto e, nos últimos tempos, mentor e responsável pela direcção da Igreja.

É ainda cedo para fazer uma apreciação correcta acerca das qualidades e objectivos do Papa Bento. Mas tem-se como certo que ele será um continuador do rumo traçado pelo papa falecido, de quem era intimo amigo e conselheiro. Filho de agricultores duma pequena vila alemã, Joseph Ratzinger, fez parte da Juventude Hitleriana, e enfileirou, por algum tempo, nas forças militares de Hitler, mas um dia desertou, e foi o melhor que fez. Estudou, foi professor universitário e considerado um teólogo liberal, em face do papel da igreja no mundo. Nos livros que escreveu, demonstrou uma capacidade de discernimento e de inteligência que o impuseram à consideração de Roma. E daí a posição de alto relevo em que foi colocado por João Paulo II, sendo considerado o cérebro da Igreja nos últimos tempos da doença que incapacitou física e mentalmente o falecido Papa.

Observadores responsáveis dentro da própria igreja católica, julgam que Bento XVI será pura e simplesmente um continuador do mandato apostólico de João Paulo II. O teólogo liberal Joseph Ratzinger, terá encarnado a figura conservadora de Bento XVI? Crê-se que ele seguirá a mesma linha conservadora do pensamento do seu antecessor. E se tal acontecer é provável que venha a entrar em conflito com muitos elementos liberais da Igreja americana.

Existem dentro da sociedade americana, elementos teológicos e sociológicos, que anseiam por uma reforma. O objectivo seria estreitar a lacuna que existe entre a palavra da fé oficial e as exigências sociais e económicas duma sociedade em constante movimento. Há concepções doutrinárias que já não se ajustam muito bem aos tempos que correm. Entre elas, o casamento dos padres, a valorização da mulher dentro da Igreja, a limitação da natalidade, a união de pessoas do mesmo sexo, etc. Tudo isto enquadrado numa sociedade cada vez mais individualista, mais voltada para a posse do capital, e menos protegida pela segurança social que um dia existiu.

Os observadores estão dando importância à escolha do nome do novo Papa. Porquê Bento XVI? Terá esta escolha algo a ver com o reinado de Papa Bento XV, considerado um pontífice reformador? Se foi esta a ideia que presidiu à escolha, «Temos Papa». Não há dúvida que a Igreja Católica na América, tem-se actualizado um tanto ou quanto. Uma grande parte dos católicos não mais aceita na sua totalidade, a doutrina emanada de Roma. Milhões de mulheres católicas, vão à missa, crêem Deus, mas aceitam sem discussão nem drama de consciência, a limitação artificial da natalidade. Depois, com os desmandos dos padres violadores de crianças, a falta de vocações e a diminuição do número de paroquianos, estão sendo encerradas centenas de igrejas em toda a América. E esta é uma crise grave. Muitos católicos acreditam que o casamento dos padres, ajudaria a eliminar os humanos desvios dos padres pedófilos. A ordenação de mulheres, contribuiria também para humanizar o ambiente estritamente machista da igreja. Crê-se que a influência da mulher na igreja, não apenas como organista, cantora ou enfeitadora dos altares, seria benéfica e acabaria com essa espécie de segregação que actualmente existe. Porque na verdade, são as mulheres e não os homens quem mais frequenta os actos do culto. E se as mulheres são prestáveis como «ovelhas», porque não hão-de sê-lo como pastoras?

Diz-se que o novo papa era liberal, quando jovem e professor universitário. Mas com os anos, parece ter ficado mais conservador. Este é um fenómeno que ocorre também na política. Há alguns que entraram na política como democratas liberais, e à medida que foram envelhecendo, foram perdendo o viço e as ideias que um dia perfilharam. A sociedade, cada vez mais individualista, cada vez mais nas mãos de uma minoria de felizardos, precisa do peso moral da Igreja, para humanizar a sociedade e moderar o apetite dos poucos que se sentam à mesa do banquete.

E para cúmulo deste estado de coisa, vemos a mais rica e poderosa nação do mundo, por razões político-religiosas, reunir à pressa o seu Congresso e o seu Presidente, para salvar uma pobre vida vegetativa, cuja alma já tinha voado para outras paragens, e não se reúne com a mesma presteza, para tratar da saúde de dezenas de milhões de crianças e idosos sem seguro de saúde, que não vão ao médico e não compram remédios por falta de recursos ou têm de mandá-los vir de fora do país. A igreja e a direita radical dão foros de cidadão ao embrião, mas quando o embrião se transforma em criança e nasce, os caridosos «defensores da vida», como eles dizem, desaparecem. O governo não os conhece e reduz-lhes os benefícios. Isto não é cristianismo. Compete à Igreja não pactuar com este estado de coisas, para não ter de encerrar igrejas às centenas, numa sociedade onde os velhos estão cada vez menos seguros quanto ao seu futuro.

Uma nota final. Bento XVI, quando cardeal assessor e influenciador de João Paulo II, foi o primeiro agente da Cúria Romana, a intervir directamente numa eleição presidencial nos Estados Unidos, ao mandar que os bispos americanos negassem a comunhão ao candidato presidencial democrata, senador John Kerry e outros democratas católicos. Será esta a posição política que assumirá no futuro o novo Pontífice?


 
 

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