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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 116 - Montreal, 1 de Maio de 2005

 
   
     
Editorial  
1 de Maio, dia dos trabalhadores. Mas que trabalhadores?  
Por Carlos de Jesus  

Quis o calendário que este número do LusoPresse caísse no Primeiro de Maio. Dia dos trabalhadores e de todas as causas que militam por um mundo mais justo ou, pelo menos, um mundo mais equilibrado entre os interesses dos investidores e dos trabalhadores. O dia 1 de Maio é também uma efeméride particular para mim. Foi num Primeiro de Maio, do ano de 1973, que pela primeira vez pisei as terras do Canadá, em Toronto, mais precisamente. O facto de ter chegado ao país naquela data foi um revelador imediato de que me encontrava em país bem diferente daquele donde vinha.

Em Portugal vivia-se ainda o pré 25 de Abril. O mesmo é dizer que se vivia o 1º de Maio na clandestinidade, para alguns, ou, para outros, menos numerosos mas mais corajosos, na confrontação aberta com o regime. Naquela manhã, a família e os amigos que tinham vindo despedir-se de nós à Portela não puderam ir além do parque de estacionamento, visto que o acesso ao aeroporto estava vedado por um cordão de tropas e de polícia de choque que só deixava passar os passageiros com bilhete e passaporte escrupulosamente verificados por um oficial de metralhadora em bandoleira. Que melhor cena de adeus poderia ter tido eu para não me arrepender de sair de Portugal. Largar o país e a repressão policial naquelas condições foi extremamente significativo. Estava não só a libertar-me dum regime retrógrado e repressivo, mas a deixar para trás um país em que criticar uma farda, do general ao contínuo, era subversivo. Criticar a gente política era impensável. Soube mais tarde que naquele mesmo dia, em plena Avenida da Liberdade um pide tinha abatido um manifestante que ousara distribuir panfletos alusivos ao Primeiro de Maio!

Imaginem, seis horas depois, aterrar em Toronto, numa morna segunda- feira à tarde de fim de Inverno, num dia de trabalho normal para os canadianos, no meio de gente pacata, entregue aos seus afazeres, que ignorava completamente que, àquela hora, havia quem morresse para celebrar o dia mundial dos trabalhadores!

O facto de o Primeiro de Maio não se celebrar neste país do Canadá como um dia feriado, surpreendeu-me bastante. Pensava, na altura, como o penso ainda hoje, que todos os países deviam honrar a memória da morte dos trabalhadores americanos que tinham perdido a vida por terem reclamado condições de trabalho mais decentes, como por exemplo a de terem um horário de 48 horas por semana. Isto hoje parece-nos mais do que a normalidade. Mas na altura, e infelizmente ainda hoje em muitas partes do mundo, pedir uma semana de trabalho decente para que a vida não seja uma escravatura, ainda é revolucionário.

Vim a descobrir mais tarde que não eram só as leis do trabalho que eram bem diferentes das que havia em Portugal. Em muitos casos, para surpresa minha, algumas eram até inferiores. Como por exemplo de, na altura, ser absolutamente legal despedir uma mulher por estar grávida. Como, ainda hoje, ser absolutamente normal, que a grande maioria dos trabalhadores tenha apenas duas semanas de férias por ano, e muitas vezes serem obrigados a gozá-las em estações diferentes. Ou, ainda, que seja legal despedir um trabalhador com 20 anos de casa ou mais, à beira da reforma, com uma ridícula indemnização pecuniária. Ou, pior ainda, que o patrão fuja com a caixa de reforma dos empregados e que os tribunais sejam incapazes de sancionar os bandidos.

Mas não foram só as leis laborais, com algumas melhorias nos últimos anos se diga em abono da verdade, que mais me chocaram. O meu grande choque, como antigo militante do sindicato dos bancários, foi vir encontrar um tipo de activismo sindical mais próximo das organizações mafiosas do que dum verdadeiro movimento de solidariedade e desenvolvimento social em prol das classes obreiras.

Estou a lembrar-me da Comissão Cliche que foi preciso criar para acabar com o crime organizado que comandava os sindicatos da construção. Estou a lembrar-me da escandaleira que foi a construção do Estádio Olímpico, em que toda a gente se governou à custa dos nossos impostos, empreiteiros e sindicatos mão na mão. Estou-me a lembrar, agora mais recentemente, a ameaça do sindicato dos colarinhos azuis de Montreal de que vão pôr a cidade a ferro e a fogo para obterem o que não conseguiram pelos tribunais nem pela arbitragem. Isto só para não falarmos das endémicas faltas por doença e outros quejandos que fazem de Montreal uma cidade mais devastada que Beirute. Mas pior que tudo ainda é a ganância das centrais sindicais, sempre prontas a guerrearem-se entre si para irem buscar a adesão dos trabalhadores da função pública, já sindicalizados de longa data, mas cujas cotizações são mais chorudas, e deixarem completamente abandonados à sua sorte (má sorte) os trabalhadores do sector privado. Aqui sim, na empresa privada, é que há necessidade de haver um movimento sindical que faça frente aos patrões gananciosos e defenda os trabalhadores. Aqui sim, é que um verdadeiro espírito sindicalista se devia implantar. Aqui sim é que há injustiça e exploração. Mas não. É na função pública onde os «capitalistas» são os contribuintes e os patrões, outros funcionários públicos, que os sindicatos exercem a sua actividade de extorsão. É na função pública - a qual não pode recorrer ao lock-out - que os líderes sindicais se fazem mais valentes, roubando o erário público e desprezando os contribuintes que lhe pagam os salários. Quando a gente vê, como era uso até não há muito tempo, os motoristas dos autocarros esperarem pelo Inverno para fazerem greve e enviarem para o desemprego os mais frágeis da sociedade que nem carro têm para ir para o trabalho... é caso para nos perguntarmos se o nome sindicato é o mais apropriado para esta mentalidade corporativa? Quando a gente vê, como foi o caso ainda recente do dirigente sindical dos empregados da SAQ, se governar com o cartão de crédito do sindicato enquanto os outros empregados faziam os cem passos, a menos 20, para forçarem o patrão (uma vez mais o governo e os nossos impostos) a aumentar-lhes as regalias, de longe superiores às dos postos equivalentes na empresa privada, é caso para a gente se perguntar quando é que um político, com eles no sítio, vai ter a coragem de fazer o que Reagan fez com os controladores aéreos. Fecha-se a porta e abre-se de novo com nova gente! Tenho a certeza que nesse dia a população anónima e explorada dos pagadores de taxas que somos nós, virão para a rua a festejar. Infelizmente pouco há a esperar destes pusilânimes que nos governam.

 
 

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