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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 115 - Montreal, 15 de Abril de 2005

 
   
     
Editorial  
Nuvens negras no céu canadiano  
Por Carlos de Jesus  

O nosso futuro, como canadianos, nunca esteve tão ameaçado como agora. Se os homens políticos federalistas não assumirem as suas responsabilidades como homens de estado, o país que conhecemos está condenado a grandes sobressaltos, para não dizer a um possível desmembramento.

No campo federalista temos um partido condenado à Oposição, não só pelas revelações escandalosas feitas perante a Comissão de Inquérito Gomery, como pelo cansaço do eleitorado canadiano. A notícia dos sete deputados liberais que tencionam abandonar o partido para se juntarem à formação de Stephen Harper é mais um prenúncio da derrocada que espera o Partido Liberal nas próximas eleições, o mesmo é dizer a chegada ao poder dum Partido Conservador completamente desligado do eleitorado quebequense.

No campo provincial temos o primeiro ministro mais impopular da história política do Quebeque segundo as sondagens vindas a lume nas últimas semanas, o mesmo é dizer a eleição a breve prazo dum Partido Québécois com um referendo pela independência no primeiro ano do mandato.

Mesmo se tal se confirmasse, esta não seria a primeira vez que teríamos um governo conservador em Otava e um partido secessionista em Québec. Mas esta seria a primeira vez em que o movimento independentista contaria com um sentimento anti Quebeque da parte do ROC (Rest of Canada) para despertar a fibra nacionalista dos federalistas indecisos, e o campo federalista contaria com bem poucos arautos honestamente convincentes e convencidos para ripostarem às pretensões dos independentistas. Os poucos que restavam acabam de ser queimados pela Comissão Gomery.

E assim estão reunidas as condições «ganhantes» pelas quais o ex-primeiro ministro Lucien Bouchard tanto ansiava para ser o primeiro presidente da República do Quebeque.

É claro que ainda estamos a dois ou três anos das próximas eleições do Quebeque. Na vida política isto é uma eternidade e muitas coisas podem acontecer para mudar o curso da história. Mas a tendência não promete melhorar, dum ponto de vista federalista, antes pelo contrário. Se do lado canadiano inglês, com as revelações da Comissão Gomery, se assiste a uma ressaca anti Quebeque e anti Liberal, do lado Quebequense, mesmo entre os mais federalistas, há também um sentimento de revolta, não só pelo desvio dos fundos públicos, como pela forma como os políticos se propuseram comprar a adesão dos cidadãos ao federalismo, isto é, à força de propaganda publicitária. Como se a ideia dum país se pudesse vender como uma marca de margarina. É caso para nos perguntarmos se os «salvadores do Canadá» não serão os seus coveiros. E a esta cólera palpável que se lê nas tribunas dos jornais e se ouve nas linhas abertas da rádio e da televisão, vem juntar-se o descontentamento pelo partido federalista em Québec. Para sairmos deste imbróglio político não há muitas soluções. Mas há duas hipóteses possíveis. A primeira vai resultar do resultado das eleições em Otava, este ano ainda. Os Liberais vão perder o poder mas os Conservadores, sem o Quebeque, não vão ganhar uma maioria para governar. Vai ser preciso um governo de coligação. Isto é, uma coligação entre o Partido Liberal e o Novo Partido Democrático. Embora se trate duma coligação de partidos centralizadores, os dois vão ser obrigados a fazer um verdadeiro debate sobre o federalismo canadiano e a reintegrar o Quebeque na Federação, visto que esta província nunca assinou a Constituição canadiana. A segunda hipótese virá do Quebeque onde Jean Charest, sob a pressão popular, vai ser obrigado a deixar o lugar a alguém com mais carisma, como o actual ministro da Saúde, Philipe Couillard. Se estas duas hipóteses não se concretizarem, vai ser difícil encarar outra alternativa que não seja a da secessão do Quebeque. O futuro o dirá.


 
 

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