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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 115 - Montreal, 15 de Abril de 2005

 
   
     
Comentário Económico do Totta
O Preço do Petróleo e a Economia Mundial
Artigo cedido pelo Banco Santander Totta

O petróleo, recentemente, voltou a atingir novos máximos históricos, acima dos 57 dólares, no caso do tipo de petróleo de referência para os EUA (o West Texas Intermediate - WTI), e dos 56 dólares, para o tipo de petróleo de referência para a Europa (o Brent).

Embora só ligeiramente acima dos máximos registados em Outubro de 2004 (de 55 e 50 dólares, respectivamente), face aos níveis do início do ano, esta nova fase de subida dos preços já ultrapassa os 40%.

As explicações para esta subida são as mesmas que têm sido apresentadas ao longo do último ano, e prendem-se com receios de uma eventual incapacidade de os produtores de petróleo, sejam a OPEP, sejam outros países (que no seu conjunto produzem cerca de 60% do total), satisfazerem um novo forte crescimento da procura.

Desde o início do ano, a Agência Internacional da Energia tem vindo a rever sucessivamente em alta a procura mundial de petróleo, para um crescimento total de 1.8 milhões de barris/dia (ou um total de 84.3 milhões de barris/dia). Este aumento da procura resulta da conjugação de dois factores fundamentais. Um forte dinamismo da economia mundial, com destaque para a China, que tem sido a principal responsável pelas revisões em alta da procura, e também dos EUA. Adicionalmente, a vaga de frio que se abateu em Fevereiro/Março resultou num crescimento da procura sobretudo de combustíveis para aquecimento.

Esta evolução reflectiu-se, em termos de dados relativos aos EUA, numa mais forte redução dos stocks de gasolina e de outros produtos destilados, o que aumentou os receios de perturbação de fornecimento ao maior consumidor mundial de petróleo. A paragem de uma refinaria, no Texas, na sequência de um acidente, aumentou as pressões sobre o preço do petróleo.

Posteriormente, o preço viria a corrigir ligeiramente, mas mantém-se ainda bastante próximo dos máximos. A OPEP, que tinha anunciado uma redução de quotas em Dezembro de 2004, reuniu extraordinariamente, para aumentar, de novo, a produção, para cerca de 29 milhões de barris/dia, tendo posteriormente anunciado que estava disponível para novos aumentos da produção, se necessário. A OPEP dispõe de uma capacidade adicional de cerca de 1.5 milhões de barris/dia.

A análise detalhada dos níveis de stocks de crude e de produtos destilados, nos EUA, revela que, apesar de uma maior redução ao nível destes últimos, estão em níveis historicamente elevados. Os stocks de crude estão mesmo ao nível mais elevado desde meados de 2002.

Como reage a economia aos preços do petróleo? A subida do preço do petróleo tem um duplo impacto sobre a economia. Por um lado, esse aumento do preço pode ser visto como um imposto lançado sobre as famílias e as empresas, reduzindo o seu rendimento disponível e os lucros, e assim resultando numa desaceleração do consumo privado e do investimento. Há, ainda, um efeito ao nível da confiança dos agentes económicos, que agrava o efeito anterior.

Por outro lado, a subida do preço do petróleo tem um impacto imediato sobre a inflação, através dos preços da energia e combustíveis. Se a situação se prolongar, as empresas tentarão passar esses custos mais elevados ao consumidor, repercutindo-os nos preços dos bens que produzem. Este efeito de transmissão é o mais preocupante, na medida em que poderia ser acompanhado de pedidos de aumentos salariais mais elevados, assim gerando uma espiral inflacionista, à semelhança do que ocorreu quando do primeiro choque petrolífero, em 1974.

Vários estudos empíricos calculam que o impacto de uma subida do preço do petróleo em 10 dólares é de uma redução do crescimento económico em 0.3 pontos percentuais (pp), e de uma subida da inflação em 0.2pp. No entanto, no passado, os choques petrolíferos resultaram de uma redução da oferta e não de um forte crescimento da procura, como actualmente. Assim, é possível que o impacto sobre o crescimento seja mais limitado.

A reacção do banco central, em termos de taxas de juro depende da prioridade que aquele assuma, assim como das condições económicas. Sendo a estabilidade dos preços a primeira preocupação de um banco central, normalmente o objectivo seria de evitar o surgimento de pressões inflacionistas, ou seja, haver uma maior pré-disposição para subir as taxas de juro.

Em 2004, as dúvidas sobre a economia mundial eram ainda significativas, pelo que os bancos centrais consideraram que não havia, por parte das empresas, espaço para a repercussão dos preços da energia sobre os preços dos restantes bens, como veio a acontecer. Assim, não houve necessidade de uma subida mais acentuada das taxas de referência. De igual modo, as taxas de juro de longo prazo também não reflectiram uma deterioração excessiva das expectativas de inflação.

Ao nível dos mercados accionistas, a reacção a uma subida do preço do petróleo pode ser duplamente negativa. Por um lado, maiores custos da energia, e na ausência de capacidade de os passar aos clientes, leva a uma redução dos lucros. Adicionalmente, se o banco central responde com uma subida das taxas de juro, as empresa enfrentam custos financeiros mais elevados, também afectando os lucros.

No entanto, na medida em que a actual situação se caracteriza por um forte crescimento da economia mundial, e, no caso dos EUA, por ritmos de crescimento acima do potencial, as empresas poderão não ser tão afectadas, com fortes crescimentos da actividade respectiva.

 
 

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