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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 114 - Montreal, 1 de Abril de 2005

 
   
     
Miguel Rebelo:  
Pintura de tempo e de memória  
Ilda JANUÁRIO  

Às vezes faço viagens realmente boas a Montreal, "minha" cidade até 1982. São aquelas em que consigo combinar, com êxito, obrigações e o reatar de relações de longa data com novas experiências, recantos e (re)encontros. Foi o caso desta última vez. Subindo o Boulevard Saint-Laurent, a Main, e caminhando em direcção à "montanha", deixa-se para trás, mas não para longe, o bairro St-Louis, área tradicional dos lusocanadianos, sobre o qual escreveu, com cor e textura, Manuel Carvalho. Chega-se à Avenue du Parc, paralela à Main, onde se encontra o estúdio do pintor Miguel Rebelo. A Avenue du Parc corta a cidade de cima abaixo e ladeia "le Mont Réal", que deu o nome à cidade, hoje mais conhecido por "la montagne", polvilhado ainda de branco naquela primeira semana de Primavera.

Miguel Rebelo inaugurou, a 4 de Março, uma das suas exposições de pintura na galeria Han Art Canada Inc., em plena Baixa de Montreal, no 460 da rue Sainte-Catherine, onde estiveram expostos alguns dos seus trabalhos recentes até 31 de Março. Andrew Lui, director da galeria, e sua companheira Chloe Y. Y. Ng, a gerente, são sinocanadianos. Ele tem ligações artísticas e comerciais com a China, Toronto e os Estados Unidos. As suas línguas são o chinês e o inglês nesta cidade trilingue. Miguel ligou-se assim, indirectamente, ao Extremo Oriente e a Toronto, sem premeditar, ao aceitar a proposta de Andrew que foi um dos raros proprietários de galeria em Montreal a mostrar uma sincera apreciação pelos seus trabalhos. E que arriscou. Incluiu-o numa exposição colectiva e agora nesta, partilhada a meias paredes, com o pintor impressionista Gavin Afflek. Andrew possibilitar-lhe-á a participação à Feira Cultural de Toronto de 2005.

Miguel Rebelo tem uma alma complexa e rica, como convém a um artista. Expressa-se bem e com humor em português e em francês - é ele que explica a sua própria obra neste texto. O inglês é a terceira língua que o apanhou desprevenido ao regressar para a actual conjuntura sócio linguística do Quebeque, depois de uma estadia de três anos em Lisboa. Idioma que ele fala mas vai ter que aprofundar pois que a sua nova situação o leva a conviver com outros imigrantes no meio artístico restrito da pintura abstracta no Quebeque. Mais restrito e ingrato do que na Europa. Pelo que convém estar pronto para viajar para o Oeste canadiano, para além fronteiras e, quem sabe, ao Oriente um dia. Onde já expôs.

Miguel teve que regressar de Lisboa por razões pessoais e familiares em 2004. Afinal foi em Montreal, neste mesmo bairro de Outremont, que Miguel se tornou adolescente, o mais novo dos três filhos do Arquitecto João Correia Rebelo e de Natália Arruda Rebelo. Foi aí que se fez homem e constituiu família. Que descobriu ser a pintura o seu destino, talento que herdou de seu pai e de seu avô, o grande Domingos Rebelo. Este foi um artista do seu tempo, figurativo e impressionista. Miguel é-o do seu tempo, pintor abstracto.

Em Portugal, Miguel fez duas exposições na conceituada Galeria 111, em Lisboa e no Porto. Participou em feiras de arte em Lisboa e em Madrid, na famosa Arco. Nessa mesma Galeria participou numa exposição colectiva intitulada "Frente a frente: dez artistas portugueses e dez artistas estrangeiros". Manuel de Brito, dono e director da Galeria 111, é o proprietário da maior colecção de arte moderna de Portugal que estará patente ao público no futuro, depois do restauro do Palácio de Algés. Miguel foi também escolhido como um dos cinco pintores portugueses mais prometedores do novo século, numa exposição em Macau, patrocinada pelo Instituto Cultural dos Assuntos Cívicos e Municipais, em 2002. Além de talento, trabalha de maneira inovadora, tratando a superfície (a "tela") de maneira exaustiva, escavando-a como quem escava um sítio arqueológico, usando da maior delicadeza e concentração, retirando e repondo a da matéria de base -- sempre a pintura a óleo -- cuidadosamente, até obter uma superfície densa e profunda.

A cor de base é o cinzento chumbo, por agora. As pinturas não são totalmente abstractas. Há sempre uma chave de acesso a uma realidade - um remo, um olho, uma janela - que permite ao espectador penetrar nas metáforas visuais. A chave, ou tema, impõe-se pelas cores contrastantes; ou finca-se na monocromia. Trabalha unicamente de memória.

Como se chega à pintura abstracta? Miguel não acredita na utopia da modernidade e da vanguarda. O seu trabalho é um constante desejo de retorno a uma origem que, se calhar, já foi perdida. Acredita sim em ser actual e trazer à baila questões, interrogações e ambiguidades em que o passado se revela, afinal, tão importante como o presente. Estratos criados pela memória e o tempo.

A próxima grande exposição dos trabalhos de Miguel Rebelo em Montreal será no Centre Culturel d'Outremont em Dezembro 2005. O convite fica feito, desde já, a todos os apreciadores de arte abstracta. Website a visitar: http://www.galeria111.pt Comente para ijanuario@oise.utoronto.ca

 
 

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