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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 114 - Montreal, 1 de Abril de 2005

 
   
     
Fernando de Lima  
Na memória de amigos espalhados por oito fusos horários  
Por Onésimo T. Almeida  

Providence - Rhode Island (USA)

A publicação da sequência de e-mails privados de amigos de Fernando de Lima tocados pela sua morte vai auto-explicada no conteúdo dos mesmos. Fica aqui como homenagem ao membro de uma grande geração literária açoriana que, de saúde já periclitante, ainda assim chegou a ter consciência da publicação de uma colectânea de escritos da sua juventude, altura em que se dedicou mais à actividade literária. O volume, com o título Dez Contos e Outros Escritos (Ponta Delgada, Impr. Coingra Lda., 2004), foi organizado por Eduíno de Jesus, que planeara, mas não chegou a escrever, um longo texto de introdução historiando a geração literária a que Fernando de Lima pertenceu. Os textos foram recolhidos por Filomena Medeiros, como projecto de aula na cadeira de Literatura Açoriana com o dr. Urbano Bettencourt, na Universidade dos Açores. Filomena Medeiros assina também a introdução. Graça Leite, filha de Fernando de Lima, escreveu um prólogo. A capa é um retrato a carvão de Fernando de Lima, da autoria do pintor Victor Câmara. Raul Leite de Melo foi responsável pela concepção gráfica.

Eduíno de Jesus sugerira
A Ceia do Mar, título de um dos contos, como título principal do livro, acrescido do subtítulo Dez Contos e Outros Escritos; este último, porém, é que veio a ser adaptado em exclusivo. O volume está dividido em várias secções: Contos, Diário de Verão, Crónicas, Perfis Literários e Páginas de Jornalismo.

O livro confirma a opinião de Eduíno de Jesus relativamente ao seu autor: É com Fernando de Lima que começa, na ficção açoriana, o neo- realismo. Bem cedo, aliás, como precoce se revela este autor. Fernando de Lima tem uma prosa forte, cortante. Não moraliza; mostra com golpes incisivos a sua perspectiva que dissecta por dentro situações e personagens expondo-as ao leitor. Mas sempre com sobriedade, cada palavra no seu lugar.

Impressiona que um moço entre os 16 e os 23 anos tenha escrito com esse nível e revelado estar tão enfronhado na literatura, conseguindo desenvolver com tanto à vontade as suas impressões e pontos de vista.

Não conheço na literatura açoriana, excepto no caso de Dias de Melo, livro em que o mar esteja tão presente. Mas Fernando de Lima acrescenta outra faceta: a da viagem e a da muito forte presença da América no imaginário ilhéu.

As crónicas e o resto têm mais a marca do tempo do que os contos. Mas resistem apesar de tudo. Uma leitura deliciosa que termina deixando o leitor com pena de não ter nas mãos um volume maior.

E que pesar este livro só ter saído agora.

Segue-se então a auto-explicada troca de emails entre Lisboa, Providence e Vancouver.

Onésimo T. Almeida From: eduinodejesus [eduinodejesus@netcabo.pt] Sent: Wed 12/29/2004 7:57 AM To: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Subject: Fernando de Lima Caríssimo, Acabo de me sentar ao computador, depois da minha primeira "italiana" do dia com a Luisinha, minha filha. Ia justamente dizer-te da morte do Fernando de Lima, quando li a tua mensagem. Tinha-o sabido quando já estava no hall, à saída para o café, pelo telefone. Foi o Fernando Aires que me disse. Como é que eu ainda tive ânimo para ir à minha "bica" do costume? Foi o melhor que fiz: Na rua não se chora. A minha filha foi comigo. Dissemos as graças, nossas, habituais: hoje foi acerca das pombas que, dizem, se aliviam ao levantar voo, da gentileza das caixas multibanco que dizem "Retire o seu cartão" antes de a gente as deixar (não vá a gente esquecer-se), do pão quente que íamos trazer do café (que até se chama "Pão Quente"). Enquanto isso o Fernando de Lima dormia algures, lá longe, numa capela mortuária. Merda! Agora restamos o Fernando Aires e eu do "núcleo duro" do grupo do Círculo Antero de Quental. O Eduardo Bettencourt de Ávila também lá está por Coimbra desembargador jubilado, mas há muito que se tornou nosso parente afastado. Deixou-se de literaturas. Telefona-me de vez em quando. Não vem às sessões da Casa dos Açores, porque tem medo de estar em Lisboa à noite. Enfim, gostava que o Fernando de Lima ainda cá estivesse mais um tempo e pudesse ter gozado melhor a publicação do seu livro. O Fernando Aires despediu-se ao telefone dizendo-me: "Aguenta-te". E eu respondi-lhe o mesmo.

Um grande abraço, Amigo.

Eduíno From: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Sent: Wed 12/29/2004 4:16 PM To: eduinodejesus [eduinodejesus@netcabo.pt] Subject: RE: Fernando de Lima Caríssimo: Telefonei ao Fernando Aires para lhe dar pêsames também. Foi ele que me pôs em contacto com o Fernando de Lima. Não me esqueço daquele magnífico dia passado na quinta do casal no Maranhão. Estava um dia esplêndido, a vista deslumbrante. O almoço, a conversa, o convívio deixaram-me com imagens de não esquecer.

A segunda vez que o vi foi em casa, já depois da trombose. Metia dó. Mas ficam-me aquelas imagens do Maranhão. Já fui comprar um postal para enviar à Natália.

Ainda bem que disfarçaste conversando com a tua Luisinha. Não adianta choramingar os mortos. Eu agarro-me às boas lembranças que deles tenho.

Abraço.

onésimo From: eduinodejesus [eduinodejesus@netcabo.pt] Sent: Thu 12/30/2004 7:07 AM To: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Subject: Ainda o Fernando de Lima Continuo sem aceitar muito bem a morte do Fernando de Lima. Morto ele já estava, claro; mas estava ali. Agora onde está? Bem, está entre nós, os poucos amigos que tinha. Quem sabe se, quando nos juntarmos a ele um dia destes, não o iremos encontrar desembaraçado daquela detestável afasia em que estava encarcerado para podermos falar dos velhos tempos do Bar Jade, das raparigas do Eden, das tabernas de Santa Clara, e da revista que íamos publicar, das reformas dos costumes literários da cidade que íamos fazer? Quem sabe?

Eduíno From: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Sent: Thu 12/30/2004 9:17 AM To: eduinodejesus [eduinodejesus@brown.edu] Subject: RE: Ainda o Fernando de Lima Não sei que dizer-te. Lembro-me da morte do Santos Barros dez dias depois de ele ter passado dez dias aqui na minha casa. Lembro-me da morte do Professor Vince Tomas, com quem eu almoçava duas vezes por mês e que fora meu professor de Estética e de Nietzsche. Recentemente, o nosso querido Emanuel Félix. Para não falar de familiares.

Não há consolo a dar a ninguém. Nisto estamos completamente sós.

Aliás, cada vez tenho menos conselhos para dar a qualquer.

Só te peço é que tu estejas aí do outro lado do ecrã por muitos e muitos anos para a gente ir conversando e colorindo um pouco os dias, salpicando-os com a fragrância da amizade.

Se quiseres, podes curtir a memória do Fernando de Lima contando-me coisas dele. Basta simplesmente que desenvolvas o que enuncias nestas linhas que hoje me enviaste. Assim, acabarei por ter em privado aquilo de que privaste os leitores do seu livro. Seria uma razoável compensação.

Fico a aguardar. Choraminga, pois, mas trazendo-mo à vida na memória das tuas histórias.

Um abraço do onésimo From: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Sent: Fri 12/31/2004 7:10 AM To: eduinodejesus [eduinodejesus@netcabo.pt] Subject: FW: Desabafo Meu caro: Chegou-me há momentos este mail do Eduardo Bettencourt Pinto sobre o Fernando de Lima e achei que deveria reencaminhá-lo para ti. Vou aliás dizer isso ao Eduardo.

Um abraço e, mais uma vez, Boas Entradas.

Onésimo From: Eduardo Bettencourt Pinto [ebpinto@telus.net] Sent: Fri 12/31/2004 12:48 AM To: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Subject: Desabafo Meu caro Onésimo: Recebi hoje a triste notícia de que o meu primo, Fernando Lima, faleceu. Não consegui transmiti-la à minha mãe. Eram amigos de infância. Praticamente cresceram juntos. E ela, fragilizada do tombo que deu, não suportaria muito bem uma perda destas.

Estive em Novembro em Ponta Delgada, de corrida. Não tive coragem de ir vê-lo.

Estou assim.

Horroriza-me a degradação física. Não poderia vê-lo sentado na sua própria angústia, sem vida, sem palavras, a olhar o mundo através dos quebrados vidros do Tempo. Ele não aceitaria essa comiseração. Mas até que ponto falhei com a minha cobardia? Quando se torna em insensibilidade a obediência aos nossos mais poderosos fantasmas? O certo é que o homem do fim já não era ele, mas outro, usando o seu corpo antigo, enquanto o espírito vogava por labirintos de luz e treva, já em busca de Deus.

Ele era um homem de Letras, que fez a sua vida no meio da água, que foi a voz de um passado que passou por mim. Apesar disso, conhecera-o pouco. Eu havia partido há muitos anos, ainda de calções; regressava à ilha atado a frenéticos laços de circunstâncias históricas que me ultrapassavam, me confundiam. Eu chegara com a febre de partir, esse sempre foi o meu destino. E assim nos despedimos, estranhos um do outro, para a eternidade.

Tenho pesar de não termos sido amigos, de nem sequer nos termos conhecido como família. A existência dos seres humanos é uma coisa muito estranha. Quando partem aqueles que são do nosso sangue e da nossa intimidade, algo de nós se apaga, um lampejo no coração, um degrau sob o pé. E mesmo assim persistimos nesta nossa eterna incongruência de não dizermos uns aos outros o quanto significamos mutuamente nesta breve passagem sobre a terra, de que somos apenas frágeis e silvestre flores de um campo de contradições e oportunidades irrecuperáveis.

Um abraço grande.

Eduardo From: eduinodejesus[eduinodejesus@netcabo.pt] Sent: Fri 12/31/2004 7:52 AM To: Almeida, Onesimo [Onesimo_Almeida@brown.edu] Subject: Ano Bom Caríssimo, Que belo esse desabafo do Eduardo Bettencourt Pinto. E que pena ficar (se o deixarmos) inédito. Não haveria forma de o fazer sair - sei lá! - com uma introdução tua, por exemplo, no SAAL?

Um grande abraço.

Eduíno

 
 

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