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Volume IX - Nº 113 - Montreal, 15 de Março de 2005

 
   
     
Do Aquém
Microcosmo de Homenagem
às mulheres de Soajo *
Por Fernando Pires

Esboço em forma de factos e imagens, interpretadas e descritas através dos tempos... Passou-se numa outra vida, no tempo da democracia ateniense e mais tarde no império romano.

É possível que os neurónios de uma loba-parteira ateniense se tenham «transmitido» a um lobete, que mais tarde acabou por uivar em plena Atenas, emitindo um sinal de uma nova democracia para uma nova geração. O lobete, convicto que era possível motivar a juventude ateniense pelo interesse da justiça na vida pública da cidade, tentou que as próximas gerações tivessem acesso a uma alimentação que não «farte» mas que alimente, podendo estimular a massa cinzenta cerebral. Inútil, infelizmente o lobete foi obrigado a beber cicuta.

Este uivo transmitiu-se mais tarde ao império romano, através de uma outra loba, que salvando dois lobetes gémeos os alimentou, e um deles, chamado Romulus, fundou Roma e foi seu rei legendário.

Mais perto dos tempos que correm, e especulando sobre outra espécie de lobos, é possível que a introdução do lobo ibérico na Península Ibérica, seja obra de Godos e Suevos (?). Se isso aconteceu, teria sido possível através da encruzilhada de povos que por aí passaram e permaneceram. Quem sabe? E dentro da mesma via, e sem imagens figurativas, que se os «soajeiros construíram» fojos para batidas e montarias ao lobo, foi para apanharem carnívoros que lhe davam cabo das rezes; isto sem «exclusão de sexo»! «Lobos e lobas soajeiros(as)», incontroláveis pelo ditador Oliveira Salazar, levaram-no ao ponto, a que ele só se deu conta quando o seu adversário político, A. Ribeiro, no seu livro enalteceu os lobos das serras do país. Para combater esta intolerância de «lobos», e não deixar medrar a democracia, o ditador «preparou» então o cerco ao lobo, nos anos 50-60 passando a «florestar» o seu habitat, e acabando com a pastorícia dos rebanhos, da qual lobos e lobas se alimentavam. Estes, roucos de uivar, e esfomeados, «atravessaram» fronteiras terrestres e de além-mar.

Anos depois, António de Oliveira Salazar, ainda mandou o seu emissário Américo Tomás a Castro Laboreiro investigar, se por aí ainda haveria lobos, mas o ex-Presidente da República quando aí chegou, encontrou apenas resíduos híbridos de um lobete (aliás um cão sabujo soajeiro) com o qual foi gratificado.

Hoje algumas das «lobas soajeiras» erram em vilas e cidades francesas e norte-americanas, desesperadas da falta do habitat do qual foram expulsas e obrigadas a caçar em terreno desconhecido! Conta-se, que um dia destes, uma boa mãe (loba), desesperada por um «cerco» que lhe fizeram num hospital, tentou por todos os meios escapar ao novo «fojo» urbano que lhe tramaram, resistiu, porque sempre se pensou (loba) livre. Está actualmente a recuperar energias da luta que travou para continuar a ser sempre aquilo que sempre quis ser. Loba sem controlo! Espera-se que apareçam novas lobas parteiras atenienses, e novos lobetes atenienses, que estejam à altura de uma melhor compreensão da cultura de outros habitats culturais.

Louvadas sejam as «mulheres lobas soajeiras» que cozeram fornadas de pão, carregaram à cabeça feixes de mato e de lenha, cavaram lavouras de milho, semearam e cavaram cestos de batatas, moeram rasas de milho, lavaram centenas de «coiros» dos filhos, roçaram carros de tojo e por aí adiante.

Decerto que o filosofo Sócrates e Manuel Tiago (aliás Álvaro Cunhal) tiveram (têm) as mulheres no coração. Este último escreveu um capítulo sobre mulheres do Soajo -Fronteiras.

Ficamos à espera que o actual império caia, e que apareça um novo Romulus que possa fundar uma nova Roma para que elas possam viver em cidades novamente democratas, e capitais de impérios religiosos com outras convicções, onde a humanidade possa sair mais enriquecida.

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P. S. Depois de ter submetido este despretensioso texto a uma mulher, ela fez um reparo crítico à utilização da palavra «parteira». Devo dizer que a palavra aqui utilizada não tem um sentido pejorativo.

* Nota da Redacção: a vila de Soajo está implantada numa das vertentes da Serra da Peneda, sobranceira ao Rio Lima

 
 

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