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Volume IX - Nº 113 - Montreal, 15 de Março de 2005

 
   
     
A grandiosa ponte de Bruno da Ponte*
Por Onésimo T. Almeida
Providence, Rhode Island (USA)

Um antigo colega meu Professor de Psicologia na Universidade de Brown hoje aposentado, Lewis Lipsitt, colecciona nomes de pessoas que coincidem com a profissão que têm em vida. Lembro-me de John Price, que foi director de Finanças na Brown; de um tal Mark Fortune, que trabalhava na Lotaria do Estado de Rhode Island; e de um Juan Huezo, que era coveiro. Recordo-me desses de entre uma lista já avantajada.

Bruno da Ponte tem ponte no nome e a verdade é que ele caberia na colecção do psicólogo Lipsitt. Para as letras dos Açores ele tem sido de facto uma verdadeira ponte entre as ilhas e o Continente. Até surgir a Salamandra, os únicos autores açorianos editados na metrópole eram quase apenas os que aqui viviam e nesta sociedade se integravam. Não apareciam na cena pública como açorianos mas como portugueses. Foi assim com Antero, Câmara Lima, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus (ele próprio motor dessa extraordinária aventura que foi o lançamento da colecção "Arquipélago" em Coimbra), Cristóvão de Aguiar, João de Melo ou Vasco Pereira da Costa.

Os Açores, como toda a gente sabe, conheceram praticamente apenas edições de autor, mesmo quando a chancela era da localmente famosa Livraria Andrade, de Angra, que editou o primeiro livro de Nemésio.

Nunca nenhuma iniciativa privada conseguiu algo que se assemelhasse ao empreendimento de Bruno da Ponte. Houve, nos anos 80, graças à intervenção de Álamo Oliveira, a Colecção Gaivota, que deve ter rondado as 80 edições.

Mas as bênçãos do financiamento pertenciam à SREC. Os institutos regionais (o Instituto Histórico da Ilha Terceira, o IAC, o I. Cultural de Ponta Delgada, o Núcleo Cultural da Horta, a Universidade dos Açores) têm publicado muitos livros, mas nenhuma dessas instituições conseguiu o feito de Bruno da Ponte. Registe-se, em abono da justiça, a actividade editorial privada da Signo e até do Jornal de Cultura, que dinamizaram bastante - sobretudo o primeiro - a actividade editorial açoriana. Todavia ninguém conseguiu em quinze anos editar 120 livros de 52 autores, quase todos açorianos, 11 dos quais a viver na América do Norte ou mesmo luso- americanos (o caso de Frank Gaspar, Katherine Vaz e João Teixeira de Medeiros), sendo os poucos livros de não-açorianos todos de temática açoriana. Dias de Melo é o camisola amarela com 14 à sua conta, seguido de Vamberto Freitas, Daniel de Sá e Álamo Oliveira, todos com seis cada.

Poucos autores açorianos contemporâneos não têm um livro seu na colecção Garajau, da Salamandra. Que me recorde, nessa lista de ausências estão João de Melo, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Victor Rui Dores, Adelaide Freitas, Vasco Pereira da Costa, Emanuel Jorge Botelho e a geração mais nova, nomes como Nuno Costa Santos, Joel Neto, ou Alexandre Borges.

Se não há, no panorama editorial português, nenhuma região com tantas edições (Pedro da Silveira orgulhava-se de, na Europa só a Islândia poder comparar-se ao dinamismo editorial açoriano), ninguém conseguiu o palmarés de Bruno da Ponte.

Mais do que adjectivos, contam os números e os factos. Basta a eloquência deles. Dispenso-me de adjectivá-los.

Os Açores ficarão mais isolados com o desaparecimento da Salamandra. Muitos autores, é certo, passarão a ser editados por outras editoras mesmo continentais. E nisso haverá até algumas vantagens em termos de desinsularização. Mas o que não teremos mais (eu, pelo menos) será o prazer de olhar para aquela lista de cento e tantos livros no final dos volumes da Salamandra, uma espécie de comunidade virtual, e dizer orgulhosamente aos nossos circunstantes: Vejam lá o que naquela terra se publicou numa década e meia apenas! Haverá alguém que no sector cultural privado aponte feito mais elevado? Voltei à ponte metáfora com que comecei. Fecho com ela. Merecido sobrenome esse que nos tornou, a todos os seus editados, menos ilhéus.

Obrigado, Bruno, da dita. E parabéns à Casa dos Açores do Norte e ao José Manuel Rebelo em particular, pela iniciativa desta mais que justa homenagem.

----- * Texto lido numa homenagem a Bruno da Ponte na Casa dos Açores do Norte, Porto, a 18 de Fevereiro de 2005 * Texto lido numa homenagem a Bruno da Ponte na Casa dos Açores do Norte, Porto, a 18 de Fevereiro de 2005.


 
 

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