www.lusopresse .com

  Este espaço está reservado para si !
514-272-0110

www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 112 - Montreal, 1 de Março de 2005

 
   
     
Em louvor do pirolito  
Por Ferreira Moreno  
Oakland, Califórnia  

Adquiri, há pouco, um moderno «disco compacto» curiosamente intitulado «Fados do Fado - Guitarradas», e numa das faixas (track em inglês) topei com um arranjo musical da autoria de Martinho d'Assunção, a que deu o nome simbólico de Pirolito.

Ora lembro-me que, nos meus tempos de criança, havia uma bebida não-alcoólica e bastante refrescante que tinha por nome «pirolito». A sua popularidade era incomensurável, embora se tratasse dum simples refrigerante gasoso, adicionado com o sabor e cor de laranja, tangerina ou morango.

A laranja da porta nova
Ela é doce, sabe bem;
Muito gosto eu de dançar
Com um par que dança bem.

Tangerina que cai na água
De madura vai ao fundo;
Mal empregada menina
Andar nas bocas do mundo.

Morangos, lindos morangos,
Morangos que eu desejo;
A tua boca é uma rosa,
Morangos são os teus beijos.

Mandei buscar à botica
Remédio p'ra uma ausência;
Mandaram-me um pirolito
E que tivesse paciência.

Uma particularidade que, certamente, também contribuía p'rá popularidade do pirolito, era essa da típica configuração da garrafa com uma bola de vidro no gargalo. Na rua Direita da «minha» Ribeira Grande, mesmo em frente do edifício dos Correios, estava localizada a Fábrica dos Pirolitos, cujo proprietário toda a gente tratava por «Senhor Afonso dos Pirolitos». Era o filho, mais o Manuel Calufa, quem o ajudava nesta empresa. E numa furgoneta percorriam a ilha de S. Miguel, fazendo a distribuição das caixas abarrotadas com pirolitos.

Euclides Cavaco, um continental dos arredores de Coimbra, mas radicado noCanadá desde 1970, saudou a memória do pirolito da seguinte maneira:.

Parei no tempo e sonhei,
Memórias de pequenito
E recordei com saudade,
O tempo do pirolito.

Era encanto das crianças,
P'la fascinante bolinha,
Que tentavam com o dedo,
Remover a borrachinha.

P'rós mais velhos era luxo,
Na festa ou no arraial,
Porque era depois do vinho,
A bebida principal.

Eram grossas as garrafas,
Giras e muito pesadas,
De todas as que existiam,
Eram as mais engraçadas.

Esta visão do passado encerra com esta quadra nostálgica:.

Seria doce voltar
A ser criança, admito
P'ra poder, sem sonhar
Ver de novo um pirolito.

O meu bom amigo Ricardo Melo, nos seus apreciados «Instantâneos» (Diário Insular, Angra, 16 de Abril, 2003), fez a devida referência ao pirolito da seguinte maneira:

«Entre as coisas que se bebem, sem fazer mal a ninguém, há muito que há memória dum modesto pirolito, um refrigerante gasoso popular, agora quase que em extinção, desde que ou lhe perderam o gosto as novas gerações, ou sumiu-se o refresco que tirou a sede a muita gente.

Verdade é que nesta ilha lembrança disso deve haver de certeza, de que o desenho da garrafa era robusto e tinha uma bola de vidro no gargalo que, comprimido ia dentro libertando o refresco que tinha cor da água a menos que lhe dessem cor, nomeadamente o vermelho.

Pirolito era bebida desse tempo, não tinha álcool nem fazia mal a ninguém, ainda que uns tantos p'ra reinar com os demais bem lhes faziam crer que o pirolito tinha álcool, pondo-se os mais brincalhões a dizer que bebessem pouco, não fossem cambalear e estatelar-se no chão desafiando as iras paternais, coisa que bem poucos tentavam naqueles tempos de pouco álcool p'ra rapazes, boas medidas p'rós homens, em especial numa adega, onde se faziam provas e se provava também o vinho, muito naturalmente entrando na dança uns pirolitos p'ra desenfastiar e matar a sede.

Pirolitos por certo que ainda há como há outras coisas, mas saudade dos pirolitos com bola é coisa que ainda agora palpita nos corações de sucessivas gerações, até que de todo se apaguem as luzes que até agora mantiveram aceso o facho que iluminou muita gente».

Apraz-me encerrar esta crónica transcrevendo os versos saudosistas de Maria de Lourdes Dias, uma simpática faialense residindo no Canadá desde 1969:

Ai campos da minha ilha,
Verdejantes campos, que amo,
Em vós habitam as aves,
As flores, lindas flores,
Coisas do meu encanto.

Águas ribeirinhas que vejo correrem
Para no mar se irem deleitar,
Sussurrando e a murmurar
Secretas e melodiosas canções,
Que só as fadas sabem cantar.

Terra onde ecoam maus risos
que minhas lágrimas enxuga.
Terra beijada p'lo mar,
Onde o sol e a lua
Se põem a namorar.

Ai minha terra, minha ilha,
Como em ti me sinto feliz,
Pois, se me dessem a escolher,
Serias a terra eleita,
Onde eu voltaria a nascer!

 
 

Voltar ao topo da página
Página principal