www.lusopresse .com

  Este espaço está reservado para si !
514-272-0110

www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 112 - Montreal, 1 de Março de 2005

 
   
     
Editorial  
25 de Abril, ainda controverso  
Por Carlos de Jesus  

Numa sondagem levada a cabo no ano passado, em Portugal, por ocasião do 30º aniversário do 25 de Abril, 77 porcento dos inquiridos afirmaram sentirem-se orgulhosos da forma como a Revolução dos Cravos tinha proporcionado a transição pacífica e definitiva do antigo regime para a democracia.

A mesma sondagem revelou ainda que a grande maioria dos jovens já nem era capaz de indicar o nome do último primeiro-ministro do Estado Novo, nem mesmo indicar os nomes dos dirigentes que estiveram à cabeça da Revolução dos Cravos.

Ainda bem que assim é, pois isto prova que as conquistas do 25 de Abril estão definitivamente enraizadas, de forma positiva, na consciência colectiva dos portugueses, em Portugal.

Quando digo, «dos portugueses, em Portugal» é para sublinhar que o mesmo não posso dizer «dos portugueses, fora de Portugal». Em todo o caso por «estas bandas». Se os portugueses daqui estivessem tão profundamente orgulhosos da nossa «Revolução de Abril» não era esta uma ocasião para celebrarmos em grande e em conjunto, um tal evento, todos os anos? É verdade que alguns se dão ao trabalho de sublinhar a ocasião. Mas são quase sempre os mesmos e são uma minoria. Isto é tanto mais surpreendente quanto os emigrantes foram, na sua grande maioria, as grandes vítimas do salazarismo. Foi a política do Estado Novo que deu origem aos milhares de emigrantes económicos que partiram pelo mundo fora em busca de novos horizontes. Foi a política do «orgulhosamente sós» que fez do nosso país o mais pobre e atrasado da Europa.

A meu ver há duas razões que explicam este estado de coisas.

A primeira, é que os emigrantes são em geral mais «conservadores» que os que lá ficaram. Este conservantismo deve-se explicar pelo facto de que a distância embeleza o que ficou para trás e o orgulho das origens os leva a defender tudo quanto diga respeito à Pátria, incluindo as forças que os projectaram para fora dela.

A segunda, é que o 25 de Abril foi recuperado por uma franja da esquerda muito mais interessada no poder ideológico no que na Democracia. E, tanto «lá em baixo» como aqui, foram os militantes da esquerda comunista, de todos os matizes, que tentaram assenhorar-se deste acontecimento histórico.

No fundo penso que foi esta usurpação, mais do que outra justificação qualquer que, «nestas bandas», mais motivou o desinteresse, para não dizer a desconfiança, dos emigrantes pelo nosso (de todos) 25 de Abril.

Neste momento, com o empenho activo do novo cônsul-geral de Portugal em Montreal, as chamadas forças vivas da comunidade activam-se para celebrarem o 10 de Junho. Digo, muito bem! E, acrescento, já não era sem tempo. É o dia nacional de todos os portugueses em geral e das comunidades em particular (mesmo se «lá em baixo» se esquecem disso muitas vezes). É um dia de celebração de que devemos nos orgulhar. Não são muitas as nações que celebram a memória dum poeta como dia nacional. A maioria dos países prefere celebrar a memória dum guerreiro ou dum político.

Mas o facto de celebrarmos o 10 de Junho como deve ser, deverá servir de pretexto para que não se faça o mesmo com o 25 de Abril? Aqui fica a reflexão. .


 
 

Voltar ao topo da página
Página principal