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Volume IX - Nº 112 - Montreal, 1 de Março de 2005

 
   
     
Escritores da Lusofonia  
António Aleixo  
Por Vitória Faria  

Sempre se disse que Portugal era um país de poetas. O maior deles todos, se assim se pode dizer, é Luís de Camões, o grande vate do Renascimento. Mais perto de nós temos Fernando Pessoa, que já foi considerado como o maior poeta europeu do século XX. Mas há também os obscuros poetas natos, desconhecidos do grande público leitor. O mais curioso de todos eles é, sem sombra de dúvida, António Aleixo. Da sua vida não constam grandes factos e quase se podia resumir a duas pequenas linhas: nasceu em Vila Real de Santo António a 18 de Fevereiro de 1999 e morreu em Loulé a 16 de Novembro de 1949. Entre estas duas datas foi tecelão, servente de pedreiro, guardador de cabras, cauteleiro e, ao mesmo tempo, poeta. Não sendo completamente analfabeto, sabia ler e tinha mesmo lido alguns bons livros, era contudo incapaz de escrever com correcção. Mas os versos que compunha espontaneamente eram duma forma lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário claro e preciso. Compunha com simplicidade, a pedido - fez muitas vezes poesia a mote, sobretudo em festas de aldeia a que era convidado. Divulgou os seus versos percorrendo as feiras das redondezas de Loulé, improvisando à guitarra, cantando e vendendo folhas avulsas com as suas quadras inscritas, uma forma de ganhar a vida e fazer viver a família.
Não fora a iniciativa do Dr. Joaquim Magalhães de organizar a edição do livro «Quando começo a cantar» em 1943, sobretudo com fins humanitários, e António Aleixo teria continuado a ser um desconhecido. Mas o livro foi um grande êxito da crítica que acolheu com entusiasmo a revelação dum temperamento poético fora do comum. O poeta, então gravemente atingido pela tuberculose, graças à onda de solidariedade que se criou à sua volta pode ser tratado e reviver. Ainda em vida do «poeta-cauteleiro», como era conhecido, em 1945 foi publicado um segundo volume com novas quadras e sextilhas, Intencionais.
Com o encorajamento daqueles que tinham descoberto o seu talento de poeta dedicou-se ao teatro, na forma popular do auto. Escreveu três - Auto da Vida e da Morte, Auto do Curandeiro e Auto do Ti Jaquim - que foram incluídos no livro recolhendo a grande maioria das quadras e sextilhas publicado em 1969, e que se intitulou «Este livro que vos deixo...» Dez anosmais tarde saiu um último volume de Inéditos de António Aleixo.

O mais curioso na poesia deste homem que viveu tão pobre é o tom dorido, irónico, por vezes moralista e puritano mas nunca revoltado. Ao ler as suas quadras tão simples temos a impressão de ouvir poesia dum cancioneiropopular de todos conhecido. Aqui vão algumas.

Deixam-me sempre confuso
as tuas palavras boas,
por não te ver fazer uso
dessa moral que apregoas.

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Os que bons conselhos dão
às vezes fazem-me rir,
- por ver que eles próprios são
incapazes de os seguir.

'Stá na mão de toda a gente
a felicidade, vê lá!...
E o homem que só 'stá contente
no lugar onde não está.

Ó! Quem me dera, sozinho,
e em quatro versos somente,
contar ao mundo inteirinho
a mágoa de toda a gente.

Um poeta de verdade,
se se souber compreender,
não deve de ter vaidadede o ser,
porque o é sem qu'rer.

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério. .


 
 

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