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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume IX - Nº 110 - Montreal, 1 de Fevereiro de 2005

 
   
     
Editorial  
Quebeque, que futuro?  
Por Carlos DE JESUS  
O slogan do Partido Liberal do Quebeque, durante as últimas eleições, era «Estamos Prontos!» – «on est prêt!». Dois anos depois de terem sido eleitos, tudo nos leva a crer que não estavam mesmo nada preparados para governar. Mesmo para o observador mais desatento da cena provincial, a impressão de incompetência salta à vista. Raramente se tem visto tanta hesitação, tanta tergiversação, tanta incapacidade a tomar decisões, -- numa palavra -- a governar, como a que tem dado provas o actual governo do Quebeque liderado por M. Jean Charest.

A lista de «faux pas» é extensa. Desde a valsa hesitante das fusões/desfusões municipais ao financiamento das escolas privadas, passando pelo aumento das tarifas dos infantários, a transformação das bolsas de estudo em empréstimos aos estudantes, a indecisão quanto ao futuro hospital universitário de Montreal, a incapacidade de lidarem com o mundo sindical da função pública, a reengenharia do Estado, as PPP (parcerias público-privado), a indústria porcina, a construção da auto-estrada 30, a insurreição em Kanasatake, a via rápida para Dorval, a construção da rua Notre-Dame... Alouette!

A indecisão crónica começou com a história dos referendos para as vilas fusionadas pelo antigo governo se poderem separar. É certo que isso tinha sido uma promessa eleitoral. Mas mesmo assim andaram meses à volta do assunto à procura da fórmula ideal que contentasse gregos e troianos. Para quem estava pronto..., deixa muito a desejar, tanto mais que o mais difícil ainda está para vir, isto é, quando a lei bastarda que fez de Montreal uma manta de retalhos, for aplicada.

Veio depois o projecto de privatizar à direita e à esquerda, de criar os chamados PPP. Nunca foram capazes de vir explicar como isso vai funcionar e continuamos ainda às escuras à espera que nos mostrem as vantagens dessa associação, que mais nos parece uma manobra à la Madame Tatcher. Privatizar as prisões, as estradas, as escolas? Não, obrigado! Um serviço público não é para dar lucros e muito menos para dar lucros à empresa privada, o mesmo é dizer, aos amigos do regime. Por outro lado, temos serviços que não têm nada de serviço público, como a venda de vinhos e aguardentes e que podiam ser vendidos aos pequenos comerciantes ou, melhor ainda, como já foi sugerido por um governo anterior, vendido a cooperativas formadas pelos actuais empregados da SAQ. Nada disso. Apesar da greve que nos envenenou as festas de Natal e Ano Novo e que vai perdurar, o governo acha que não há capital político a fazer por estas bandas e não se mexe. Para um governo que é favorável às privatizações é caso para nos convencermos que é mais favorável aos oportunismos que tragam dividendos políticos.

Além disso, prometem e não cumprem. Ou melhor cumprem o que prometeram em privado, aos amigos, e não cumprem o que prometeram em público. Foi o caso do preço da guarda das crianças nos infantários que passou de 5 para 7 dólares quando tinha jurado que não haveria aumentos. Foi a política das propinas, das bolsas e dos empréstimos aos estudantes, que prometeram, na campanha eleitoral, deixar como estava e agora vieram transformar as bolsas em empréstimos. Quando é que os homens políticos se vão convencer que uma sociedade avançada e democrática só poderá sobreviver neste mundo de globalização graças à formação universitária acessível ao maior número, como se faz na Europa?

E que dizer da construção do grande centro hospitalar de Montreal? Há mais de duas décadas que se fala no assunto. O anterior governo já tinha tomado uma decisão. Já havia um sítio, com cartaz a anunciar a construção e tudo. Vai daí, chega o novo governo e começa a pôr em causa o que já estava decidido. Nomeia uma comissão para estudar o assunto, e mais outra comissão. A procissão ainda só vai no adro e já lá vão 64 milhões de dólares para estudos de toda a ordem. Mas do hospital nada. Nem se sabe quando nem onde vai ser construído. Vão alargar o actual hospital St-Luc como recomendou a primeira comissão? Vão voltar para o 6000 da rua St-Denis que os pequistas tinham escolhido? Vão para Outremont como pede o reitor da Universidade de Montreal ou para o Hotel-Dieu como sugerem alguns urbanistas? Claro que neste caso a indecisão é mais dos montrealenses que dos liberais em Québec. Mas face aos interesses de tantos jogadores municipais não é a responsabilidade do governo provincial de cortar a direito sem olhar a outros interesses que não sejam os da saúde pública?

Em termos de obras públicas, a indecisão não fica por aqui. Temos ainda a construção da via rápida da rua Notre-Dame que também já tinha sido decidida pelo governo do Partido Québécois e que continua a aguardar nem se sabe bem porquê. Temos a construção da auto-estrada 30 para desanuviar o trânsito em Montreal e que está parada no meio dum campo de batatas. Temos a construção da via rápida Montreal-Dorval cujos planos ainda não saíram da gaveta apesar dos mastodontes da Airbus começarem a aterrar aqui a partir de 2007-8. Temos a ponte para prolongar a auto-estrada 25 para Laval que querem entregar ao sector privado. Temos o estado lastimoso das estradas em toda a província e que é uma vergonha nacional. E assim por diante.

Quando é vão começar a mexer-se? Quando estiverem à beira das próximas eleições para darem a impressão que fazem muito, sabendo que o povo tem a memória curta?

E que dizer da segurança pública? Como é que têm gerido o dossier da reserva índia de Kanesatake, onde os bandidos deitaram fogo à casa do grande chefe James Gabriel? Fez agora um ano que o chefe foi expulso por elementos criminosos daquela reserva e a polícia continua a ter medo de lá entrar. Entretanto o tráfego da droga, a cultura da marijuana, a venda de contrabando é cada vez mais florescente e o Ministro da Segurança Pública continua a afirmar que tem tudo sob controlo...

E que dizer dos anúncios de remodelação ministerial que não se concretizam apesar da incompetência mais que flagrante da gestão das escolas e da segurança pública?

Afinal do que é que este governo está à espera para agir? Dir-se-ia um bando de eunucos que tem medo de dizer claramente à população o que quer, porquê e como vai agir.

Francamente, amigos quebequenses, o futuro não se mostra muito risonho para quem acredita na viabilidade duma sociedade laica, igualitária, tolerante e aberta. Os apóstolos da submissão a Deus através do padre e do Papa, foram substituídos pelos apóstolos do nacionalismo confuso dos canadianos franceses que desembocou no nacionalismo indefinido do cidadão quebequense. Nacionalismo que à luz das realidades demográficas e históricas não existe e jamais se poderá concretizar senão à volta dos ex-canadianos franceses que acreditam no ideal anacrónico de um estado-nação, e em oposição ao resto dos outros canadianos, tanto ingleses como franceses, autóctones ou étnicos. Que nos resta? Um Partido Liberal, dirigido por um Conservador, que nos tem por reféns do debate constitucional e cujas políticas desastrosas estão à vista. Ou um partido ainda mais conservador, economicamente falando e politicamente oportunista como a ADQ?
Ou vamos esperar que um partido democrático, liberto do atavismo constitucional, emirja dos descontentes dos partidos actuais e se mostre uma alternativa. A curto prazo é esperar demais. A médio prazo o Partido Liberal tem de voltar às suas raízes, começando por escolher um verdadeiro chefe liberal para o dirigir.





 
 

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