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www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 108 - Montreal, 15 de Dezembro de 2004

     
     
Galeria dos Colaboradores  
Sandy Gonçalves, uma flor transladada
Por Carlos de Jesus
Depois de ter descoberto as suas raízes em Portugal, a Sandy não voltou a ser a mesma. Em termos de identidade cultural, entenda-se. Até então, a terra dos pais e tudo quanto lhe dizia respeito não passavam de imagens, de sons, de lendas como num mundo imaginário. Depois de várias férias em Portugal, no Minho, vendo castelos, aldeias e coelhinhos à solta... passou a ficar apaixonada por aquelas terras e pela língua das suas gentes.

Diante dum Porto branco, enquanto jantávamos Chez le Portugais, encontrámo-nos num fim de tarde frio, de que Montreal tem o segredo, em plena Main. Ali, diante de nós, uma das mais jovens e mais antigas colaboradoras do LusoPresse. Um rosto bonito, um olhar curioso, e um ar intimidado de quem se prepara a. falar de si mesma.

Ossos do ofício. Foi para isso que estávamos lá. Para lhe delinear o perfil, dá-la a conhecer aos nossos leitores e fazê-la assim entrar nesta galeria dos colaboradores do LusoPresse onde, sem dúvida, ocupa um lugar particular.

A Sandy é a canadiana mais portuguesa de Montreal. Pelo menos das que conhecemos.
Canadiana pelo nascimento, pelo passaporte, mas também pelas línguas e pela vivência. Como muitos filhos de emigrantes a quem as leis linguísticas do Quebeque enviaram à escola francesa, a Sandy é poliglota. E, no seu caso, fez do conhecimento das línguas uma profissão. Como intérprete é ela quem ajuda no relacionamento e na integração das novas recrutas de Guy Laliberté, o fundador do circo mais famoso internacionalmente, o Cirque du Soleil, dentre os quais se contam muitos artistas da pátria de sua esposa brasileira. A par desta actividade profissional é também tradutora de francês, inglês e português e é professora na Escola Português do Atlântico. Como se não bastasse, está em vias de completar uma Licenciatura em Literatura Francesa na Universidade McGill. Recebeu quatro prémios literários «Jeunes Plurilingues», em 1995, 1996, 1998 e 1999, da Universidade de Montreal. Este é o seu lado canadiano.

Do lado português, a Sandy é visceralmente lusitana. Não só pelas origens dos pais, mas por uma adesão profunda à língua e cultura portuguesas. As férias em Viana, a escola portuguesa de sábado, o trabalho voluntário como jornalista do LusoPresse nestes últimos 7 anos, o trabalho comunitário junto dos jovens portugueses, fizeram dela uma das mais acérrimas defensoras de tudo quanto é português. É a ela quem se deve, em grande parte, a criação e o dinamismo do «Carrefour des jeunes lusophones du Québec» da qual é presidente e que há bem pouco tempo, no seguimento de várias iniciativas em prol da juventude portuguesa de Montreal, inaugurou o site web daquele organismo «Carrefour Lusophone».

Mas o seu portuguesismo também se conjuga no plano familiar. Fala dos pais com muita ternura. Mesmo quando os colegas canadianos da equipa de basquetebol se admiravam de não verem a família dela nas bancadas, a apoiá-la, ela sabia que podia contar com eles. «Os meus pais à minha frente são muito portugueses. Isto é, à minha frente nunca me vão dar elogios por aquilo que faço. À boa maneira portuguesa. Pelas outras pessoas que falam com eles percebi que estão muito contentes do que faço. É maneira de ser dos portugueses “Não vais falar bem dela que ela está aqui!”. Mas também fiz um grande trabalho de educação com os meus pais. Uma rapariga portuguesa com 16 anos não deve sair à noite, nem viajar sozinha. Mas os meus pais desde que passaram a ter confiança em mim, abriram-me as portas. “Vais de férias. Vais para a Itália sozinha? – Ainda bem. Aproveita!”» - confia-nos a Sandy com um brilho nos olhos.

A sua entrada para o LusoPresse, como ela nos confessa, foi uma das amarras que mais a apegou à língua portuguesa. «Sejamos realistas. Quem sai da escola com um 11º ano não sabe escrever. A língua é uma coisa viva que tem de ser trabalhada, praticada e não são quatro horas por semana que nos vão ensinar a escrever português.(...) Foi no LusoPresse que aprendi a escrever.»

Foi também graças ao LusoPresse que teve a oportunidade de praticar o trabalho benévolo e por isso incita todos os jovens a obrarem no voluntariado. «Não há nada que aconteça sem esforço. Devo muito do que sou ao voluntariado. Tudo começou por aí. Graças ao LusoPresse impliquei-me no Carrefour, do Carrefour passei à escola. Uma coisa levou a outra. E tudo graças ao voluntariado.»

Podíamos alongar-nos sem fim sobre a Sandy. Mas concluímos com um excerto do seu auto-retrato literário.
«Nunca emigrei, mas sou emigrante. Nunca imigrei, mas também não tenho a firme certeza de onde parti e aonde cheguei. Sou errante, errante na essência da minha identidade. Vagueio por entre os meus antepassados. Venho semeando raízes ao longo dos anos. Mas, em vez de me encastrar na terra, instintivamente, vou rolando como uma bola de neve, cujo movimento cíclico me obriga a sobrepor camadas. E, assim, ganho uma forma, forjo uma especificidade, acentuo, simultaneamente, as diferenças e similitudes que carrego comigo.»
Tirado de «Uma flor transladada»