www.lusopresse .com

  Este espaço está reservado para si !
514-272-0110

www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 108 - Montreal, 15 de Dezembro de 2004

     
     
Dia-Crónicas  
Dog Days  
Por Onésimo ALMEIDA  
O Jeff e a Maria entram com relativa frequência nestas crónicas. Há outros amigos, mas o casal é particularmente fecundo provedor de matéria nova. Desta vez pediram-nos um especial favor e a eles custa negar o que quer que seja. Era para lhes tomarmos conta do cão enquanto iam uns dez dias para o Colorado. Da última vez ele ficara num canil e entrara em grave depressão. Daí o pedido. Mas não era para o animal vir cá para casa nem se tratava de lá irmos tratar dele. Pura e simplesmente o favor implicaria (a fim de perturbar o menos possível a rotina do bicho) viver em casa deles, ali em Barrington. A vinte minutos daqui, não é a lonjura que incómoda, mas o estar fora do meio onde temos tudo. No entanto, era tempo de férias. A casa tem piscina, campo de ténis, uma prainha perto, e há bons hotéis com muito menos aliciantes. A preço de tratar do Dominoe, não seria grande o sacrifício.
Entretanto, o maior objector era eu. A Leonor dissera que sim à Marsie, para grande espanto meu, já que ela tem medo de cães por causa de uma mordidela de lembrar. Além disso, eu nunca fui de animais. Gatos e coelhos em criança, um cão em casa dos avós, uns pássaros na gaiola, mas nada de com eles travar amizades. A nossa cultura não era muito dada a isso. Maltratar animais era comum. Loucuras, vi muitas. De uma vez, um padre encostara mesmo a rasar o passeio em alta velocidade, só para matar um cão. Eu ainda a pensar que fora derrapagem, e ele triunfante: Nove! Meses depois, a cena repetiu-se. Mentalmente contei dez, mas ele corrigiu-me: Catorze! O reverendo lá sabia as frustrações que lhe ditavam o sadismo.
Acabei por ser torcido e acedi. Fomos a um treino lá a casa aprender os hábitos do Labrador Retriever. Depois, foi a mudança temporária.
Na primeira noite arrependi-me a sério. O enorme Dominoe não amansava. Gania pelos cantos da casa. Às vezes uivava. Abocanhava uns bonecos de peluche e rasgava-os em tiras. Entrava-nos no quarto de cama e farejava loucamente, enquanto eu me rogava mil pragas por ter aceitado fazer de guarda - cão. A Leonor procurava sossegar-me, mas eu sabia o pavor que a devorava por dentro. Na memória, o mosaico Cave canem bem nítido naquele átrio de uma casa apalaçada das ruínas de Pompeia. Cuidado que estes animais são gente!
Não sei bem quando acabamos todos por adormecer. Da manhã, o Dominoe ao sentir barulho no nosso quarto atirou-se meio louco, de orelhas afitadas, porta dentro, julgando vir encontrar os donos. Ao dar connosco, armou nova cena de desespero. Alta manhã, pensando que ia amainar a ira do infeliz, tive a ingénua ideia de telefonar ao Jeff. Aproximei o auscultador do ouvido do Dominoe e não e que o manganão a princípio deixou mas, ao ouvir a voz do dono, voltou a cara furioso e foi embezerrado estender-se num canto?!
Pus-me a ler um livro de Diane McCarty sobre Labrador Retrievers e ainda o The New Dog Handbook que o Jeff guardava numa estante. Aprendi sobre cães Labrador carradas de dados e técnicas. Que são muito inteligentes e afectivos, adoram a água, gostam muito de agradar aos donos, são perfeitamente fiáveis com crianças...
O Dominoe abrandou, mas emudecera. Obedecia às ordens. Comia e aceitava que lhe amarrasse um cinto à coleira para o passeio higiénico. (Sim, sim. Lá fui equipado para os preceitos fisiológicos que os vizinhos - eu também cá em casa irritam-se com os relvados sujos). Mas a mente do Dominoe continuou-me impenetrável por vários dias. Era triste vê-lo. T.S. Eliot dizia que os animais são amigos fáceis porque não fazem perguntas nem críticas, mas eu queria que o Dominoe falasse, deitasse para fora a zanga que lhe ia no peito, ou então percebesse que os donos voltariam.
Numa manhã, ao dar a volta saudável pelo bairro, uma garotita de seis anos reconheceu-o. Perguntou-me se lhe permitia que fosse buscar a namorada dele. Ainda eu sob a surpresa do insólito, já ela voltava com uma bela cadela de cabeleira a abanar, toda feliz por reencontrar o seu querido. Enrolaram-se na relva em comoventes meiguices e brincadeiras.
De dia para dia o Dominoe foi-se-nos afeiçoando e começámos a acordar com ele aninhado entre nós, sentindo-lhe o morno rosnar. Quando me sentava ao computador, vinha infalivelmente enrolar-se-me aos pés. Ia aos poucos me convertendo e percebendo algo melhor o exagero de Walt Witman que dizia poder viver só com animais: “They are so placid and selfcontained.” António Damásio, no seu recente The Feeling of Wat Happens, magnífico e inovador estudo sobre o corpo, as emoções e a consciência, diz que não se admiraria se descobrisse que a razão por que nós tão convencidamente atribuímos consciência às mentes de alguns animais, especialmente os domésticos, advém do patentemente motivado fluir de emoções que eles exibem, bem como da nossa automática e razoável presunção de que tais emoções são na verdade causadas por sensações que só podem afectar o comportamento de criaturas com sentimentos.
Num dos nossos locais preferidos de passeio em Ocen Point, Main, há uma casa diante do mar habitada pela solidão de uma velhinha na companhia de livros e animais. A janela, por detrás dos vidros, a lombada de um volume numa pequena estante deixa entre ler Do Cats Think? Lá o revejo ano após ano como mera curiosidade. Agora, porém, acho que pensam sim. Ao menos assim me deixou um cão a pensar. E tocou-me a sério, porque uma semana depois do Jeff, a Marsie e os miúdos regressarem do Colorado, a Leonor, a nossa garotada e eu sentimo-nos compelidos a ir matar saudades... do Dominoe. Todavia, como os casais que gostam de filhos, mas em casa dos outros, ainda não nos deu para substituir os nossos (aos poucos a sumirem-se para as universidades) por um animal. Não foi exactamente uma conversão carismática.
De qualquer modo, mudei. E sorrio empaticamente com Bob Kerr, jornalista do Providence journal. Insurgia-se há semanas contra Robert Weygand, candidato por Rhode Island ao Senado em Washington. Nas inevitáveis fotos de família, cliché das campanhas eleitorais, lá vinha ele afectuosamente abraçado ao Cassey, o cão da casa. Kerr reclamava: “É exactamente esse tipo de crueldade para com os animais que não deve passar impune. Ela expõe os pobres animais aos perigosos desperdícios políticos.”
Aldous Huxley dizia que, para o seu cão, cada homem é Napoleão e daí a constante popularidade dos bichos. Talvez isso explique muito relacionamento homem-animal, mas dificilmente o meu (nosso) afecto pelo Dominoe, com quem me apetece tomar um café e conversar, ouvi-lo, saber o que pensa e sente. Regressar, talvez, ao mundo da infância onde nos livros os animais falavam.


 
 

Página principal