www.lusopresse .com

  Este espaço está reservado para si !
514-272-0110

www.lusopresse.com - Editor: Norberto Aguiar - Director: Carlos de Jesus

Volume VIII - Nº 107 - Montreal, 1 de Dezembro de 2004

 
Um brasileira em Angola  
Riscos são iguais em toda a parte  
 
Em resposta a uma carta de um brasileiro, pretendente. a ir viver e trabalhar para Angola, Patrícia Carvalho, uma dentista brasileira, também voluntária da Luta contra o HIV, a viver em Angola desde 2001, escreveu, no seu .blogue. Notícias de Angola, um texto brilhante, que aqui se reproduz em parte.(ver texto em extenso na nossa edição digital)

Viver no Brasil nos expõe a tantos ou mais riscos do que viver em Luanda. E isso se você vier para a capital, porque se seu trabalho for em alguma outra província, praticamente não há risco nenhum, as pessoas das províncias são bem tranquilonas, bem tipo o nosso pessoal que vive em cidades do interior. Para quem conhece o Brasil, Angola é muito parecida, tem os mesmos problemas sociais, só que talvez aqui eles sejam um pouco mais visíveis. Luanda tem trânsito, tem lixo, tem barulho, tem favela, como qualquer grande centro urbano do Brasil. Luanda também tem lugares bastante bonitos e belas praias. O povo é lindíssimo e alegre de nascença. A diferença é que o Brasil talvez esconda um pouco melhor a sua parte feia. Não sei qual a real vantagem disso, sinceramente, já que não gosto de máscaras.
Quanto à "não andar sozinho nas ruas", há uma pergunta que não quer calar: você anda sozinho(a) em todas as ruas, becos, favelas e vielas do Rio de Janeiro, por exemplo? Caso sim, parabéns, você é extremamente corajoso(a). Porque eu mesma não ando sozinha em muitos lugares de minha cidade Recife, já que sei que em muitos desses lugares vou estar exposta a algum risco de assalto ou violência. Aqui em Luanda é a mesma coisa. Em Nova Iorque é a mesma coisa. Acho que no mundo todo é a mesma coisa.

O custo de vida é alto sim, mas você tem que ver se a proposta da empresa te dará condições de não sentir muito isso, o ideal seria que a empresa contribuísse com moradia, alimentação e transporte. Como fazem normalmente as empresas estrangeiras que investem no Brasil e contratam mão de obra de seu país de origem. Se for assim, venha "s'imbora", foi assim que eu vim, e, sinceramente, como não sou muito festeira nem gastadeira, nem senti muito esse alto custo. Mas se vieres sem nada muito certo, a coisa pode ficar mais complicada. Como acontece em qualquer país do mundo para onde qualquer pessoa queira se aventurar sem ter nenhuma base.

O povo angolano é muito alegre, muito bonito e tem muita coisa para nos ensinar. Depois de olharmos a cara de alegria desse povo que tem uma vida tão difícil, dá-me a impressão que começamos a entender melhor o Brasil, vir para Angola é descobrir o Brasil, na minha opinião.

Infelizmente, e já pedindo desculpas, agora terei que ser um pouco mais dura... É que eu não conheço você pessoalmente, então preciso colocar umas opiniões particulares minhas. A intenção não é de ser grosseira, mas sim de fazer você tentar não sair daqui falando para as pessoas que não conhecem Angola o que te falaram a respeito do país. É o seguinte, se você não tiver sensibilidade para respeitar as dificuldades e sequelas de uma guerra em um povo que viveu essa violência – desde a década de 60 até o ano passado – não venha. Mas se você acha que nós no Brasil também vivenciamos uma violenta guerra civil, que dura até os dias de hoje (refiro-me à guerra entre traficantes e polícia), onde, como em toda guerra, quem sai no maior prejuízo é o povo, pode vir que você se habitua rapidamente. Aliás, minto. Angola está bem mais tranqüilo do que o Brasil desde que foi assinado o acordo de paz, há um ano e meio.

Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

Aliás, digo-lhe mais: além de não vir para Angola, é melhor que você saia do Brasil, sugiro que você vá para a Austrália ou talvez para a Dinamarca, porque você certamente não consegue enxergar a verdadeira cara do Brasil e nem percebe a situação em que vive 80% de nosso querido povo brasileiro. Rosto esse que não tira seus encantos naturais e nem muito menos os encantos de seu povo bonito, alegre e mágico, apesar de seu dia-a-dia tão difícil. Assim como ocorre aqui em Angola.

Angola está precisando de pessoas que ajudem a reconstruir a imagem de um país muito bonito, e que tem um povo mais bonito ainda. Se você for uma dessas pessoas, seja bem-vinda. Se a intenção for única e exclusivamente a de ganhar muito dinheiro, sem olhar com os olhos do coração para Angola e para o angolano, ou pior, olhando de "cima", como se seu país não tivesse nenhum dos problemas que temos aqui, pense bem antes de vir. Aliás, não venha. Aqui já existem vários representantes dessa espécie. O país não precisa de mais representantes que julgam mal o país e o povo, sem pensar no duro contexto em que essas pessoas vivem. Se você é um tipo desse, fique no Brasil e comece a estudar o seu próprio país antes de sair dele. Ou vá para a Dinamarca.

O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade – que você 'vai ver se tem' – de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso. O angolano está cansado de receber estrangeiros que passeiam pelas ruas com seus carrões de 100.000 dólares, enquanto ele não tem água encanada na sua casa. Como o brasileiro deveria se cansar também.

Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto. Mas... Acho que deve ser coisa de jovem. Quando ele crescer talvez aprenda a respeitar os mais velhos, principalmente quando perceber que se trata de sua própria mãe. Aprendi em casa que faltar o respeito para com a própria mãe é um pecado gravíssimo, segundo os ensinamentos de Deus. O Brasil precisa parar com essa mania feia de às vezes ser pecador ou louco, precisa aprender a respeitar sua mãe, porque foi ela quem fez o que ele é hoje. As heranças físicas, comportamentais e sócio-culturais estão mais do que explícitas.

Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro.

Um abraço,

Paty Carvalho.
Notícias de Angola